Nobel da Paz premia aliada de Trump e símbolo da direita venezuelana

María Corina Machado, é acusada de traição à pátria, defesa de sanções e alinhamento aos EUA; governo Maduro chama decisão de afronta à soberania

Foto: Reprodução

A venezuelana María Corina Machado, principal opositora de Nicolás Maduro e líder da extrema direita do país, venceu nesta sexta-feira (10) o Prêmio Nobel da Paz de 2025. 

A decisão, anunciada pelo Comitê Norueguês do Nobel em Oslo, provocou críticas no campo progressista e foi interpretada como um gesto político de alinhamento aos Estados Unidos e à agenda trumpista. 

Machado dedicou a premiação ao “povo sofredor da Venezuela” e ao ex-presidente Donald Trump, a quem agradeceu pelo “apoio decisivo à nossa causa”.

A escolha rompeu a tradição do prêmio ao contemplar uma figura marcada por sua participação em episódios de desestabilização institucional, pela defesa de sanções internacionais e pela aliança aberta com o governo norte-americano. 

O comitê justificou a decisão afirmando que a opositora foi reconhecida “por seu trabalho incansável promovendo os direitos democráticos do povo venezuelano e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”. 

O discurso, porém, contrastou com as críticas de movimentos sociais e intelectuais latino-americanos, que apontam que a laureada não representa a paz, mas a entrega do país à política externa de Washington.

Em publicação na rede social X, Machado escreveu que o prêmio é um “impulso para alcançar a liberdade” e afirmou que a Venezuela “será livre”. 

“Estamos no limiar da vitória e, hoje, mais do que nunca, contamos com o presidente Trump, o povo dos Estados Unidos, o povo da América Latina e as nações democráticas do mundo como nossos principais aliados para alcançar a liberdade e a democracia”, declarou.

A fala reforçou a ligação direta com o trumpismo e com os setores que apoiaram as sanções impostas à economia venezuelana. 

Documentos obtidos pela imprensa mostram que a indicação de Machado ao prêmio foi feita por senadores e deputados republicanos dos Estados Unidos, entre eles Marco Rubio, hoje secretário de Estado de Trump, e Michael Waltz, embaixador norte-americano na ONU. 

A carta, datada de 26 de agosto de 2024, descreve Machado como “um farol de esperança e resiliência” e elogia sua liderança na “mobilização de apoio nacional e internacional para uma resolução pacífica da crise eleitoral”. 

A revelação consolidou a leitura de que o Nobel da Paz de 2025 teve caráter político e simbólico, servindo como gesto de reconhecimento ao campo republicano norte-americano.

O histórico de Machado, porém, revela uma trajetória associada a golpes e à intervenção estrangeira. 

Em 2002, ela assinou o Decreto Carmona, que dissolveu as instituições da República e apoiou o golpe que derrubou temporariamente o presidente Hugo Chávez. Foi também uma das articuladoras da campanha “La Salida”, em 2014, marcada por barricadas e ataques violentos contra simpatizantes chavistas. 

Ao longo dos últimos vinte anos, defendeu publicamente a intervenção militar externa e chegou a apelar ao então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para “libertar” a Venezuela, segundo lembrou a jornalista Michelle Ellner, do Peoples Dispatch. 

Para ela, “Machado é o rosto sorridente da máquina de mudanças de regime de Washington”.

O cientista político argentino Atilio Boron foi ainda mais direto ao classificar as ações da opositora como “traição à pátria”. 

Em artigo publicado em fevereiro, ele recordou que Machado manteve reuniões com George W. Bush na Casa Branca, apoiou as guarimbas de 2014 e advogou por sanções econômicas que agravaram a crise venezuelana. 

Boron sustenta que, se fosse cidadã dos Estados Unidos e tivesse agido contra seu próprio governo como faz na Venezuela, teria sido “presa e condenada à morte”. 

Ele também atribui à opositora, ao lado de Juan Guaidó, a responsabilidade pela entrega de ativos estratégicos do país a potências estrangeiras, como a CITGO (nos EUA) e a Monómeros (na Colômbia), além da perda de 31 toneladas de ouro retidas pelo Reino Unido. 

“Estamos diante de um caso de traição à pátria tratado com surpreendente benignidade pelo governo chavista”, escreveu o intelectual.

O governo venezuelano e seus aliados classificaram a premiação como “afronta à paz e à soberania”. Em Caracas, diplomatas lembraram que a laureada é coautora de 930 medidas coercitivas unilaterais impostas contra o país, que seguem provocando escassez, inflação e bloqueio de bens públicos. 

Para analistas, o prêmio consolida a estratégia norte-americana de usar símbolos internacionais para legitimar a oposição pró-EUA. 

A reação em meios progressistas latino-americanos comparou a escolha de Machado às premiações anteriores concedidas a Henry Kissinger e Barack Obama, figuras associadas à política de guerra e de sanções.

Autor