Ajuda dos EUA à Argentina expõe dependência de Milei e contradições de Trump
Acordo de US$ 20 bilhões reforça a submissão de Milei e expõe a contradição de Trump com o discurso de “América em Primeiro Lugar”
Publicado 21/10/2025 16:07 | Editado 22/10/2025 14:39
A assinatura de um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões entre o Banco Central da Argentina (BCRA) e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, anunciada a menos de uma semana das eleições de meio de mandato no país sul-americano, vai muito além de um gesto financeiro. Trata-se, antes de tudo, de uma intervenção política disfarçada de cooperação monetária — um esforço de Donald Trump para manter à tona seu aliado de extrema direita, Javier Milei, cuja popularidade e estabilidade econômica se deterioram rapidamente.
O pacto é apresentado como uma “ponte para a estabilidade”, mas na prática consolida a dependência estrutural da Argentina tanto do capital especulativo quanto dos organismos multilaterais, especialmente do Fundo Monetário Internacional (FMI) — instituição que o próprio Trump já criticou por “desperdiçar dinheiro americano” em resgates a países instáveis.
Milei: austeridade, submissão e colapso social
Desde que assumiu em 2023, Milei vem conduzindo a Argentina por um caminho de ajuste fiscal selvagem, redução de ministérios e cortes em políticas sociais. O resultado foi previsível: queda do consumo, desemprego crescente e estagnação econômica. Ainda que a inflação tenha recuado, a conquista veio à custa de uma recessão profunda e de uma deterioração do tecido social, com quase metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza.
O governo Milei, que se autoproclama “libertário” e “antissistema”, acabou por reproduzir a velha fórmula de subordinação ao FMI — a mesma que historicamente mergulhou o país em ciclos de dívida e dependência externa. O novo acordo com os EUA apenas reforça esse laço, convertendo a Casa Branca em fiadora política do programa de choque neoliberal aplicado em Buenos Aires.
Trump: ideologia acima da soberania
O envolvimento direto de Donald Trump na negociação expõe um paradoxo gritante: um presidente que prega “América em Primeiro Lugar” (America First) está canalizando recursos estratégicos dos EUA para sustentar um governo estrangeiro — e ainda o faz por afinidade ideológica.
Trump condicionou explicitamente a liberação do pacote à vitória eleitoral do partido de Milei, La Libertad Avanza, em 26 de outubro. “Se ele perder, não vamos perder tempo com a Argentina”, disse. A fala desnuda o caráter intervencionista e eleitoral da operação, convertendo a política externa americana em instrumento de campanha de um aliado ultradireitista.
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O gesto contrasta com a postura hostil de Washington em relação a governos progressistas na região — como o de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, que recentemente enfrentou novas tarifas impostas por Trump. A seletividade revela que o chamado “apoio à democracia” dos EUA nada mais é do que apoio a governos ideologicamente alinhados à Casa Branca.
Um resgate sem soberania
A ajuda bilionária — que ainda enfrenta resistência de bancos como J.P. Morgan e Goldman Sachs, preocupados com garantias de pagamento — não resolve os problemas estruturais da Argentina. Ao contrário, posterga a crise e reforça o controle externo sobre a política cambial e fiscal do país.
O próprio secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, admitiu que o apoio depende da continuidade do programa de austeridade e das reformas pró-mercado. Em outras palavras, o dinheiro vem acompanhado de obediência.
Analistas apontam que o pacote pode apenas adiar a inevitável desvalorização do peso e a renegociação da dívida de quase US$ 60 bilhões com o FMI — o maior endividamento de um país junto ao fundo entre todos os países.
A conta política e moral
A operação de Trump com Milei não é apenas um negócio financeiro: é um investimento político em uma agenda ultraliberal e antissocial que ameaça aprofundar a desigualdade e enfraquecer a soberania latino-americana.
Ao condicionar a ajuda a resultados eleitorais, Washington viola abertamente o princípio de não interferência, transformando a Argentina em palco de uma disputa geopolítica travestida de cooperação econômica.
Trump, que prometera priorizar os trabalhadores americanos e reduzir gastos no exterior, hoje mobiliza bilhões de dólares para salvar um governo estrangeiro, não em nome de solidariedade, mas de afinidade ideológica.
A ajuda americana à Argentina é menos um gesto de apoio econômico e mais uma manobra política para sustentar o experimento neoliberal de Milei e reforçar a influência de Washington sobre a economia sul-americana. Se Milei perde autonomia, Trump perde coerência — e quem paga o preço, mais uma vez, é o povo argentino.