Avançamos porque Claudia Sheinbaum não se dobra aos EUA, diz deputado mexicano

O Partido do Trabalho do México tem 49 dos 500 deputados mexicanos. Luis Armando destaca as reformas constitucionais no país

Foto: Arquivo PCdoB

O México já viveu três grandes transformações históricas: a Guerra da Independência (1810-1821), as reformas sob o governo de Benito Juárez (1858-1861) e a Revolução Mexicana (1910-1917). Agora, o único país latino-americano a ter fronteira com os Estados Unidos (EUA) está às voltas com a 4ª Transformação.

É assim que o ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador batizou o ciclo de mudanças iniciado em seu governo (2018-2024). Sua sucessora, Claudia Sheinbaum, dá continuidade ao movimento, mesmo com as pressões crescentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Militarização da fronteira, cerco aos migrantes e tarifaço às exportações mexicanas estão entre as ações hostis da Casa Branca.

Na opinião do deputado Luis Armando Díaz, do Partido do Trabalho (PT) do México, o perfil altivo da presidenta é fundamental para resistir aos ataques norte-americanos. “A Transformação só avança porque temos como presidente da República a Claudia Sheinbaum”, afirma o parlamentar. “É uma mulher íntegra, firme, que não se intimida nem se dobra perante os embates com os EUA – e que tem colocado um pé à frente para a defesa da nossa soberania em todos os seus termos.

Nas eleições presidenciais de 2024, Sheinbaum – que é do Morena (Movimento de Regeneração Nacional) – contou com o apoio do PT e do PVEM (Partido Verde Ecologista do México). As três legendas lançaram a coligação Juntos Faremos História, que foi a mais votada em 31 dos 32 estados mexicanos e elegeu 364 deputados (de um total de 500 cadeiras na Câmara), além de 83 senadores (de 128).

“Temos maioria qualificada no Congresso para impulsionar reformas constitucionais que permitam que o país realmente se refunde e que a Transformação não seja apenas um slogan – mas um projeto de nação. Nesta nova legislatura, fizemos 22 reformas constitucionais”, destaca Luis Armando.

O parlamentar falou ao Portal Vermelho durante sua recente visita ao Brasil. De 16 a 19 de outubro, ele participou do 16º Congresso do PCdoB, em Brasília. Seu partido, o PT, de orientação socialista e maoísta, conta com 49 deputados no México. Confira trechos da entrevista.

Portal Vermelho: Como o Partido do Trabalho avalia o papel da 4ª Transformação na redução das desigualdades sociais no México? Quais foram os principais avanços nesse período?

Luis Armando: Temos avançado muito bem com o projeto da 4ª Transformação. Temos maioria qualificada no Congresso para impulsionar reformas constitucionais que permitam que o país realmente se refunde – e que a transformação não seja apenas um slogan, mas um projeto de nação. Nesta nova legislatura fizemos 22 reformas constitucionais. A mais importante garantiu que o Poder Judiciário seja eleito pelo povo. Agora, o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário são eleitos pelo povo, já emanam da vontade popular. Isso, para nós, significa um grande avanço porque realmente a justiça no meu país vai servir ao povo do México.

Portal Vermelho: Quais outras reformas o senhor considera mais relevantes?

Luis Armando: Conseguimos recuperar as linhas férreas. Temos trabalhado para recuperar 100% da Petróleos Mexicanos (Pemex). Durante o governo neoliberal, fizeram de tudo para abandoná-la e privatizar o petróleo mexicano, assim como a Comissão Federal de Eletricidade. Reformamos a Constituição para que as comunidades indígenas e afro-mexicanas tenham reconhecimento constitucional. Estamos tentando um pouco reparar a dívida histórica com as comunidades indígenas e afro-mexicanas.

A Transformação só avança porque temos como presidente da República a Claudia Sheinbaum. É uma mulher íntegra, firme, que não se intimida nem se dobra perante os embates com os EUA – e que tem colocado um pé à frente para a defesa da nossa soberania em todos os seus termos.

Portal Vermelho: Como vocês estão lidando com a oposição, com as pressões das elites mexicanas?

Luis Armando: Desde que Andrés Manuel (Obrador) assumiu a Presidência da República, ele se dedicou a fortalecer a economia popular – e isso faz com que o México vá se fortalecendo. Os liberais pensam que, se os ricos estão bem, a economia de um país está bem, o que é totalmente equivocado. É preciso fortalecer a economia popular, o autoconsumo, a importância de que as nossas famílias tenham um rendimento superior à inflação. É o que faz com que possamos nos fortalecer pouco a pouco.

A direita no México resiste, tem alguns meios de comunicação ainda com eles, que são detratores do projeto da 4ª Transformação. No entanto, há um exercício que a presidente Claudia Sheinbaum faz, que são as “Manhãs do Povo” (“Mañaneras”). Todos os dias, ela está em conferência com a imprensa a partir das 7 horas da manhã e, assim, define a agenda política do país. Isso é importante porque os mexicanos estão informados e podemos entender que tudo o que a direita diz são as mentiras de sempre, é o discurso incendiário de sempre, mas que está muito distante de ser o que convém ao povo do México ou o que o povo do México quer.

Portal Vermelho: Como o PT avalia a expulsão dos migrantes mexicanos dos EUA e que medidas propõe para proteger os direitos em meio a essas tensões bilaterais?

Luis Armando: As políticas dirigidas a reconhecer os direitos plenos dos imigrantes estão na ordem do dia. Em 15 de setembro, quando se comemora a Independência do México, é tradição que a presidente saia à varanda presidencial e grite pela independência do México. Pela primeira vez na história, Claudia Sheinbaum grita: “Viva os migrantes, viva os migrantes mexicanos!”.

O governo do México implementou alguns programas para receber e atender aos migrantes que são deportados e que regressam ao país. Estamos convencidos de que temos que continuar a lutar pelos migrantes.

Portal Vermelho:Qual a posição do partido sobre as sanções econômicas e comerciais dos EUA contra o México?

Luis Armando: A nossa presidente da República soube contornar essa situação e defender o México no tema comercial, bem como e a relação que temos com os EUA. Continuamos firmes na defesa de que o México tem que ser respeitado e de que tem que ser revisto o Tratado de Livre-Comércio entre México, Estados Unidos e Canadá, mas é preciso garantir que o México continue a crescer comercialmente.

Quando surge a ameaça dos EUA, muitos da iniciativa privada respaldam a nossa presidente. Isto, de alguma forma, deixa sem discurso a direita. Obviamente, estamos na vanguarda sempre – até porque dos EUA não podemos esperar muito.

Portal Vermelho: Que estratégias o Partido do Trabalho propõe para fortalecer a unidade latino-americana perante a nova proposta de multipolaridade global?

Luis Armando: O Partido do Trabalho há mais de 30 anos realiza o seminário internacional “Os Partidos Políticos e uma Nova Sociedade”, que se tornou um fórum muito importante de expressão para todas as organizações de esquerda, socialistas, comunistas, não apenas da América Latina, mas do mundo. A confluência de tantas forças de esquerda, partidos políticos, organizações e frentes nos faz pensar que estamos no caminho correto. Temos de implementar estratégias e ações que permitam a unidade de todas as organizações de esquerda no mundo.

Condenamos as agressões e o genocídio na Palestina por parte do Estado de Israel. Condenamos a ameaça dos EUA de declarar guerra à Venezuela. Continuamos a impulsionar uma política internacional que permita seguir em unidade contra o imperialismo. Somos um partido que luta contra o imperialismo e contra a desigualdade. Seguimos o princípio de um grande herói mexicano, Benito Juárez, que dizia: ‘Entre as nações e entre os indivíduos, o respeito ao direito alheio é a paz”. Somos um partido que vai nessa direção e estamos, claro, sempre firmes na defesa do direito dos povos a decidir a sua forma de governo. E muito, muito convencidos de que a melhor via que pode haver para um país é a ideologia socialista.

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