Porta de saída do tráfico passa por emprego e renda, diz estudo

Pesquisa do Data Favela revela desejo de mudança e aponta o emprego e o empreendedorismo como saídas centrais para romper o ciclo do crime

Rocinha, no Rio de Janeiro. Foto: Acervo IBGE

A mais recente edição da pesquisa Raio-X da Vida Real, conduzida pelo Data Favela entre os dias 15 de agosto e 20 de setembro de 2025, em favelas de 23 estados do Brasil, revela um ponto raramente abordado da dinâmica criminal brasileira: a vontade de quem vive do tráfico é abandonar o mundo do crime, desde que existam alternativas. O levantamento, realizado por meio de entrevistas presenciais com 3.954 pessoas em plena atividade no tráfico de drogas, mostra um país onde a criminalidade é menos uma escolha do que consequência direta da falta de oportunidades.

58% dos entrevistados deixariam o crime imediatamente se tivessem acesso a uma fonte viável de renda. Esse número desmonta abordagens unicamente repressivas e reforça que a inclusão econômica é a verdadeira rota de saída.

Trabalho e renda como libertação

As motivações para abandonar o crime se concentram no desejo de conquistar uma renda legal e estável. Entre os que sonham em recomeçar, 22% querem abrir o próprio negócio, 20% buscam um emprego formal e 15% preferem atividades flexíveis — como motorista de aplicativo ou entregador. Juntos, esses três grupos representam 57% das razões elencadas pelos entrevistados.

Mas há fortes diferenças regionais. Enquanto em Rondônia (74%) e no Rio de Janeiro (70%) a maioria manifesta vontade de deixar o tráfico, em São Paulo o número cai para 53%, e no Distrito Federal se limita a apenas 7%. O retrato mostra que políticas públicas precisam ser adaptadas a cada território.

Ainda assim, o medo de perder a única fonte de renda é o grande obstáculo. Um terço teme não conseguir sustentar a família longe do crime, e 26% reconhecem o risco de vida como fator decisivo para não abandonar a atividade ilegal. Outro aspecto revelador é que, mesmo no tráfico, 63% ganham até dois salários mínimos. Para muitos, a vida ilícita é apenas mais um trabalho precário.

Juventude, fé e o peso da desigualdade

A pesquisa traça um retrato profundo do indivíduo envolvido no crime. O perfil mais comum é de um homem jovem (50% entre 13 e 26 anos), negro (74%) e religioso (70%), nascido e criado na favela onde ainda mora (80% nasceram e cresceram no mesmo território).

Esse “morador mediano” tem o ensino fundamental incompleto (42%), ganha até dois salários mínimos e tem filhos (52%), sendo a mãe ou outra mulher da família a figura de referência mais importante (51% citam mulheres como as pessoas mais influentes). As motivações para o ingresso no crime são eminentemente sociais: 49% citam a necessidade econômica e a falta de oportunidade, enquanto violência doméstica e abandono em casa influenciam 13%.

Os sonhos de consumo não são a ostentação de luxo, mas sim a busca por estabilidade. O maior desejo é a casa própria (28% para si e 25% para a família). A maioria esmagadora não sente orgulho da atividade criminosa, e 84% não desejam que seus filhos sigam o mesmo caminho.

O relatório revela também os efeitos emocionais de viver sob tensão constante: 39% sofrem de insônia, 33% relatam ansiedade e 19% enfrentam depressão. O uso do SUS é quase universal (89%), e as mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam ainda maior vulnerabilidade e desigualdade dentro do próprio mercado ilícito. A maioria dos entrevistados aponta a pobreza e a desigualdade como os males centrais do país.

A pesquisa do Instituto Data Favela revela que o combate à criminalidade passa pela reconstrução de vidas. O caminho para sair do crime pode ser representado pelo sonho declarado por um dos entrevistados: “abrir meu próprio negócio e viver tranquilo, sem medo”.