Cabra marcado para viver: Elizabeth, a terra e a vitória tardia
A presidenta da Contag, Vânia Marques, conecta Cabra Marcado para Morrer à entrega do assentamento Elizabeth Teixeira, em Sapé, onde cinema, memória e reforma agrária se encontram nesta quinta-feira (5)
Publicado 05/02/2026 20:36 | Editado 06/02/2026 16:17
Vânia Marques diz que não conhece o território, apenas a história. Mas há histórias que são território em si. Em Sapé, na Zona da Mata paraibana, a terra guarda marcas mais profundas que cercas ou marcos topográficos. Ali, onde a luta camponesa foi reprimida com bala, prisão e silêncio, a memória virou chão. E o cinema, testemunha.
O assentamento Elizabeth Teixeira, finalmente criado após mais de seis décadas de espera, não é apenas uma política pública tardia. É o desfecho concreto de uma narrativa interrompida à força — a mesma que Eduardo Coutinho transformou em um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro: Cabra Marcado para Morrer.
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) formalizou a criação do projeto de assentamento agroextrativista Elizabeth Teixeira, beneficiando 21 famílias da comunidade Barra de Antas, encerrando uma disputa fundiária que atravessou 28 anos na Paraíba, mas que tem suas raízes no início da década de 1950 com a luta das Ligas Camponesas. A área de 133 hectares, atualmente ocupada por plantações de cana-de-açúcar, passará a ser explorada por meio de contratos de concessão de uso.
Um filme que não termina quando acaba
“É um filme que causa muitas sensações”, diz Vânia, presidenta da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), em entrevista ao Portal Vermelho. Raiva, indignação, emoção. Mas também fortalecimento. Para ela, obras que retratam a luta dos trabalhadores não pertencem ao passado: são instrumentos vivos de formação política, exibidos em oficinas, seminários e encontros do movimento sindical rural.
Cabra Marcado para Morrer não documenta apenas uma tragédia. Ele acompanha uma luta em suspensão. Começa como ficção, vira documento, atravessa a ditadura, perde personagens, reencontra sobreviventes. É cinema ferido pela história — e por isso mesmo verdadeiro.
O filme foi citado por Kleber Mendonça — e também por tantos outros cineastas de todo mundo — como seu filme brasileiro favorito e inspiração para o premiado “O Agente Secreto” e para a construção do personagem principal.
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Elizabeth: da dor à causa coletiva

Maria Elizabeth Teixeira não é personagem. É eixo. Mulher camponesa, mãe, militante, única liderança ainda viva das Ligas Camponesas, ela assumiu a luta após o assassinato do marido, João Pedro Teixeira, em 1962, crime encomendado por latifundiários da região. Com isso, herdou também a perseguição do Estado, a prisão, a clandestinidade, a perda de filhos, o exílio interno.
Ainda assim, permaneceu. Resistiu. Transformou a história de uma família em causa social, como lembrou a neta Juliana Teixeira na cerimônia que representou a avó centenária. Elizabeth virou símbolo — não por escolha estética, mas por necessidade histórica. Com 101 anos de idade, ela não pode comparecer à cerimônia de entrega da terra por problemas de saúde, mas foi a ausência mais presente no território.
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Os herdeiros do Cabra Marcado para Morrer
Da imagem ao chão: a terra como reparação
Para Vânia Marques, a entrega do assentamento tem um significado que ultrapassa números e portarias. É dignidade. É reconhecimento. É a materialização de uma frase repetida ao longo das décadas: a nossa luta vale a pena.
As 21 famílias assentadas não recebem um favor do Estado. Recebem aquilo que já era delas por direito, após anos de acampamento, insegurança jurídica e espera. A terra, nesse caso, não é só meio de produção: é reparação histórica.
A terra que será destinada às famílias é vizinha ao Memorial das Ligas e das Lutas Camponesas, onde ficava a casa em que João Pedro Teixeira morava quando foi assassinado.
Militância que atravessa gerações
Vânia destaca Elizabeth como referência fundamental para as mulheres agricultoras familiares e sindicalistas. Sua trajetória inspira, fortalece e ensina que a resistência não é episódio, mas processo. Que lutar pela terra é fazer política no sentido mais profundo: disputar o sentido da sociedade.
Não por acaso, Cabra Marcado para Morrer permanece central na formação do movimento sindical rural. O filme ensina o que os currículos oficiais silenciam. Mostra que democracia sem terra, sem pão e sem dignidade é palavra vazia.
Estado presente, crítica viva

A presidenta da Contag reconhece a importância da sinalização do governo federal com a retomada dos assentamentos e os investimentos anunciados na Paraíba. Mas não abre mão da crítica: reforma agrária não se resume à entrega da terra. É preciso garantir políticas públicas, crédito, assistência técnica, condições de permanência e autonomia.
Vânia considera este modelo de assentamento uma prova do compromisso do Governo Federal com esta demanda histórica dos trabalhadores. Terra sem política é promessa frágil. Terra com política é futuro.
O Incra cria assentamentos agroextrativistas (PAEs) como modelos ambientalmente diferenciados, para reconhecer e regularizar populações tradicionais. Essas comunidades praticam atividades sustentáveis, incluindo manejo florestal, pesca e extrativismo de recursos naturais. E possuem formas próprias de organização social, cultural e econômica baseadas em práticas tradicionais.
Diferentemente de outras modalidades de assentamentos criados pelo Incra, nos PAEs não há individualização de lotes. A titulação é coletiva, geralmente por meio da Concessão de Direito Real de Uso (CDRU), garantindo o uso comum da terra para toda a comunidade.
O cinema como prova e profecia
Na cena final de Cabra Marcado para Morrer, Elizabeth questiona uma democracia que convive com fome, miséria e exclusão. A fala, gravada em 1981, ainda constrange o presente. Talvez por isso o filme siga atual — e luminoso.
Hoje, em Sapé, a história ensaia outro final. Não apaga a violência do passado, mas inscreve no chão uma resposta tardia. O cinema mostrou. A luta sustentou. A terra, enfim, chegou.
De acordo com o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, o Governo Federal deve assentar 30 mil novas famílias, totalizando 60 mil neste ano de 2026. A criação do assentamento Elizabeth Teixeira faz parte desse esforço nacional de retomada da reforma agrária.
Aos mais de cem anos comemorando vitórias, Elizabeth não é mulher marcada para morrer, mas para se eternizar: sua história virou clássico do cinema, sua luta virou chão fértil.