Lula pede mobilização global contra fome e critica gastos militares

Na conferência da FAO, presidente afirma que recursos destinados a conflitos poderiam erradicar a fome e defende maior protagonismo internacional pela paz

Presidente Lula durante cerimônia de abertura da 39ª Sessão da Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe. Palácio Itamaraty. Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Lula fez um apelo, nesta quarta-feira (4), pelo combate mundial à fome, assim como pregou a busca pela paz e a defesa de que a ONU (Organização das Nações Unidas) faça valer o multilateralismo frente aos conflitos que, cada vez mais, eclodem pelo mundo. A fala aconteceu durante a abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF).

No seu discurso, Lula fez questão de pontuar que o olhar sobre o combate à fome deve ser direcionado em consonância com a promoção da paz, uma vez que os gastos mundiais com armamentos seriam suficientes para pôr fim a esta chaga da humanidade.

“Se nós pegássemos o dinheiro que foi gasto ano passado em armamentos, em conflitos, o equivalente a 2 trilhões e 700 bilhões de dólares e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que no planeta passam fome, daria para a gente ter distribuído 4.285 dólares para cada pessoa”, afirma.

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Em uma mensagem direcionada aos países que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos), Lula pediu maior preocupação com a questão da fome, em detrimento da Defesa.

“Está todo mundo pensando que vão se agravar os conflitos e todo mundo quer mais armas, todo mundo quer mais bomba atômica, todo mundo quer mais drones, todo mundo quer aviões de caça cada vez mais caros e tudo isso não é feito para construir ou para produzir alimento, isso é feito para destruir e para diminuir a produção de alimentos ou destruir aquilo que já está plantado”, alerta.

Brasil e América Latina

Ao citar o Brasil, Lula ressaltou que por duas vezes o país foi exemplo de como acabar com a fome: “Nós terminamos com a fome pela primeira vez em 2014, ainda no mandato da presidenta Dilma. E quando eu voltei a ser presidente em 2023, já tinha 33 milhões de pessoas em situação de fome outra vez. Em dois anos e meio, a FAO reconheceu outra vez que nós acabamos com a fome outra vez”, celebra.

Sobre a América Latina, o presidente reforçou que não é justo que uma região tão rica continue pobre e padeça de injustiças seculares.

“Nós somos a única zona do mundo de paz, a única zona de paz no planeta Terra somos nós. Aqui no Brasil, nós temos a opção de não possuir armas nucleares na nossa Constituição, porque há muito tempo a gente chegou à conclusão de que aquele ditado ‘quem quer paz se prepara para a guerra’ é para quem quer fazer guerra. Nós queremos paz, porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance”, aponta.

Gaza

Sobre a guerra perpetrada por Israel contra palestinos, levando fome e destruição à Faixa de Gaza, Lula direcionou críticas veladas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criou um ‘Conselho de Paz’ de fachada e ainda indicou, de forma infame, que o território poderia se tornar um resort.

“Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres e crianças que mataram para agora aparecerem com pompa, criando um conselho para dizer, ‘vamos reconstruir Gaza’. Aí aparece como se fosse, sabe, um resort, para milionário passar as férias no lugar em que estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram. E muitas vezes a gente fica impassível, muitas vezes a gente vai ficando impassível e se a gente não gritar, se a gente não falar, se a gente não se mexer, nada acontece”, pede o presidente.

Omissão

O descrédito e a omissão da ONU também foram temas de Lula frente aos conflitos atuais.

“Porque a ONU está ficando desacreditada. A ONU não está cumprindo aquilo que está escrito na sua Carta da Criação em 1945. A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras”, avalia.

Nesse ponto, o líder brasileiro também questionou por que a ONU não trabalha pelo fim do conflito entre Rússia e Ucrânia: “Quem é que não sabe o que vai acontecer naquela guerra? O Putin [Vladimir, presidente da Rússia] vai ficar com o que já conquistou. O Zelensky [Volodymyr, presidente da Ucrânia] vai se contentar com o que perdeu, e vai ter um acordo. Se é isso, por que não fazem logo?”.

Para concluir, o presidente reforça que “a questão da fome está ligada ao fato de que os pobres do mundo são invisíveis ao olhar das máquinas burocráticas e dos chefes de Estado”, sendo necessário tornar a questão visível e não entrar em uma corrida armamentista como faz Trump.

“Vocês acham normal o presidente Trump, todo dia, ficar dizendo: eu tenho o maior navio do mundo, eu tenho o maior exército do mundo. Por que ele não fala: eu tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo? Eu tenho como distribuir alimento”, critica Lula.

A Conferência da FAO para a América Latina e o Caribe acontece até sexta-feira (6) com debates sobre agricultura, desenvolvimento rural e segurança alimentar e nutricional.

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