Quem controla o ambiente digital pode influenciar eleições
Com milhões de brasileiros conectados, o ambiente digital tornou-se um dos principais espaços de disputa política e mobilização em escala nacional.
Publicado 18/03/2026 12:50
Nos últimos meses, um episódio ocorrido dentro da plataforma Roblox chamou atenção para um fenômeno que muitos atuantes políticos ainda insistem em subestimar. Milhares de jovens se mobilizaram dentro do ambiente digital da plataforma para protestar contra decisões tomadas pela empresa responsável pelo jogo. Para quem observa de fora, o episódio poderia parecer apenas uma reação de usuários insatisfeitos com mudanças em um jogo online. No entanto, o que ocorreu ali revela algo muito mais profundo sobre a forma como novas gerações se organizam e se mobilizam.
Roblox é hoje uma das maiores plataformas digitais do mundo, com centenas de milhões de usuários ativos diariamente, muitos deles jovens e adolescentes. Mais do que um jogo, a plataforma funciona como um espaço de sociabilidade digital onde comunidades se formam, narrativas circulam e ações coletivas podem ser organizadas em tempo real, sem controle legal. Quando milhares de jovens utilizam esse ambiente para organizar protestos, pressionar decisões ou disputar narrativas, o que estamos vendo é a emergência de novas formas de mobilização coletiva dentro do ambiente digital.
Mesmo quando discordamos das pautas que motivam esses movimentos, é impossível ignorar o fenômeno. Protestos sempre foram ferramentas políticas utilizadas por diferentes grupos sociais para expressar demandas e pressionar instituições. Quando esses protestos passam a ocorrer dentro de plataformas digitais frequentadas por milhões de jovens, isso indica que esses ambientes deixaram de ser apenas espaços de entretenimento e passaram a funcionar também como arenas de mobilização e disputa de narrativas.
Esse fenômeno levanta uma pergunta que o debate público brasileiro ainda evita enfrentar: quem realmente compreende como funcionam esses ambientes digitais e suas dinâmicas sociais? Plataformas como Roblox, Discord, Telegram ou grandes redes de jogos online não são apenas ambientes de lazer. Elas funcionam como espaços de socialização, formação de comunidades e circulação de informações que influenciam diretamente a forma como jovens interpretam o mundo.
Acompanho esse processo há anos. Como especialista em games e sociedade, tenho estudado e atuado diretamente nas interseções entre tecnologia, cultura digital e organização social. Ao longo desse percurso, observei como comunidades que surgem em torno de jogos online frequentemente se transformam em espaços de debate, organização e mobilização coletiva. Servidores de Discord, comunidades de jogos e redes sociais associadas a esses ambientes digitais muitas vezes funcionam como verdadeiros fóruns onde milhares de pessoas compartilham informações, constroem visões de mundo e articulam ações coletivas.
Durante grande parte do século XX, mobilizações políticas e sociais aconteceram principalmente em espaços físicos bem definidos. Sindicatos, partidos, associações de bairro, universidades e movimentos sociais funcionavam como os principais locais de organização coletiva. Era nesses ambientes que pessoas se reuniam, discutiam demandas, construíam estratégias e organizavam mobilizações capazes de pressionar governos e influenciar decisões políticas. Ao mesmo tempo, a circulação de informação era mediada principalmente pelos grandes veículos de comunicação de massa, como jornais, rádios e televisão, que concentravam hegemonicamente o poder de difusão das narrativas públicas.
Esse modelo estruturou grande parte da política moderna. Movimentos sociais organizavam assembleias, sindicatos mobilizavam trabalhadores em suas bases territoriais e partidos estruturavam sua comunicação a partir da relação com os meios tradicionais de informação. A mobilização social dependia da presença física, da capacidade de organização territorial e do acesso aos canais de comunicação disponíveis naquele momento histórico.
Nas últimas duas décadas, porém, esse cenário começou a se transformar de maneira profunda. A expansão da internet e das plataformas digitais alterou a forma como as pessoas se informam, se relacionam e se organizam coletivamente. Se antes a mobilização política dependia quase exclusivamente de estruturas presenciais e institucionais, hoje uma parte significativa dessas articulações também ocorre em ambientes digitais. Em muitos casos, as articulações começam no ambiente digital, ganham escala em redes sociais e aplicativos de mensagem e, posteriormente, se desdobram em ações concretas no mundo físico.
Os dados ajudam a compreender a dimensão dessa transformação. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, realizada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) no Brasil, mostra que 93% dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam a internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes conectados. Redes sociais, jogos online e plataformas digitais fazem parte da rotina diária dessa geração (CGI.br, TIC Kids Online Brasil).
No conjunto da população, a transformação é ainda mais ampla. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua sobre Tecnologia da Informação e Comunicação, realizada pelo IBGE, indicam que cerca de 168 milhões de brasileiros utilizam internet, o que representa aproximadamente 89% da população com mais de 10 anos de idade. A internet está presente em mais de 93% dos domicílios do país (IBGE, PNAD TIC).
Quando praticamente toda a população está conectada, o ambiente digital deixa de ser apenas um espaço de comunicação e passa a se tornar um território estratégico de circulação de informações e disputa de narrativas políticas. Esse deslocamento também aparece nas formas de consumo de informação política. Pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado mostrou que 45% dos eleitores brasileiros afirmam que informações vistas em redes sociais influenciaram sua decisão de voto. Aplicativos de mensagens e plataformas digitais passaram a ocupar um papel central na forma como grande parte da população se informa sobre política (DataSenado, Senado Federal).
Se mobilizações políticas podem nascer dentro dessas plataformas, campanhas de desinformação também podem. Esse fenômeno não é hipotético. Ele já foi amplamente documentado em diferentes processos eleitorais ao redor do mundo. No Brasil, investigações acadêmicas e reportagens publicadas após as eleições de 2018 mostraram como redes de compartilhamento em aplicativos de mensagens, especialmente WhatsApp, foram utilizadas para disseminar conteúdos políticos enganosos em grande escala. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais analisaram centenas de grupos públicos da plataforma e identificaram redes organizadas de circulação de imagens, vídeos e mensagens políticas replicadas simultaneamente em dezenas ou centenas de grupos (Resende et al., A Study of Misinformation in WhatsApp Groups with a Focus on the Brazilian Presidential Elections, 2019).
Relatórios internacionais apontam fenômenos semelhantes em diversos países. Um estudo do Oxford Internet Institute, da Universidade de Oxford, identificou redes organizadas de manipulação informacional que utilizam plataformas digitais para influenciar percepções públicas sobre candidatos, instituições e processos eleitorais (Bradshaw e Howard, The Global Disinformation Order).
Quando essas dinâmicas se combinam com plataformas que concentram milhões de usuários e sistemas automatizados de recomendação de conteúdo, o resultado é um ambiente onde narrativas políticas, verdadeiras ou falsas, podem alcançar proporções massivas em um intervalo muito curto de tempo.
Reconhecer essa realidade não significa abandonar o mundo físico. A política continua acontecendo nas ruas, nas instituições e nos movimentos sociais. No entanto, essas dimensões passaram a se conectar de forma cada vez mais intensa com o ambiente digital.
Falo disso também a partir da experiência prática. Durante a tramitação do Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos no Brasil (Lei 14.852/2024), o setor enfrentou uma disputa política relevante. Em determinado momento, havia o risco de que o texto fosse capturado por interesses ligados ao mercado de apostas bets o que poderia descaracterizar completamente a política pública voltada à indústria de jogos eletrônicos.
Mesmo sem nenhum senador do nosso partido ocupando cadeira no Senado Federal naquele momento, conseguimos mobilizar o setor em escala nacional. Desenvolvedores, estudantes, pesquisadores, empresas e comunidades de jogos organizaram uma mobilização que alcançou mais de 20 estados da federação. Visitei gabinetes de senadores enquanto articulei centenas de milhares de mensagens circularam nas redes sociais, ampliando o debate público e pressionando parlamentares.
Essa mobilização combinou organização territorial e articulação digital. Comunidades online, redes sociais e grupos de mensagens funcionaram como espaços de mobilização política que ajudaram a estruturar uma pressão legítima da sociedade sobre o processo legislativo. O resultado foi a aprovação de uma legislação que consolidou a indústria de jogos eletrônicos como política pública no país e garantiu a distinção entre jogos eletrônicos e apostas.
Essa experiência demonstra algo importante: o ambiente digital não substitui a política real. Ele amplia, acelera e reorganiza as formas de mobilização coletiva. O mundo físico continua existindo. Mas a mobilização política do século XXI passa inevitavelmente pelo ambiente digital.
A pergunta que permanece para o campo progressista é simples: vamos continuar observando esse território de fora ou vamos disputar esse espaço com inteligência, organização e presença política?