Irã detalha 10 pontos do acordo de cessar-fogo aceito pelos EUA
Plano inclui fim de hostilidades no Iraque, Líbano e Iêmen, levantamento de sanções, indenização e reconhecimento do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz
Publicado 07/04/2026 23:27 | Editado 09/04/2026 15:59
O Irã divulgou os dez pontos que compõem o acordo de cessar-fogo aceito pelos Estados Unidos, marcando uma inflexão diplomática após 40 dias de conflito no Oriente Médio. As negociações para detalhar o acordo ocorrerão em Islamabad, capital do Paquistão, mediador da trégua de duas semanas anunciada na noite desta terça-feira.
Em comunicado, o Irã classificou o acordo como “vitória histórica” e “derrota inegável” do “inimigo”, atribuindo o resultado à “bravura dos combatentes” e à “presença do povo iraniano”. A narrativa oficial busca consolidar internamente a percepção de que a resistência forçou concessões de Washington.
Os dez pontos do acordo
Segundo o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, os termos aceitos por Washington são:
- Interrupção total das hostilidades no Iraque, Líbano e Iêmen, abrangendo todas as forças do “eixo da resistência”.
- Cessação permanente e irrevogável de todos os ataques contra o Irã, sem limite de tempo.
- Fim integral de todos os conflitos na região do Oriente Médio.
- Reabertura do Estreito de Ormuz, via estratégica por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial.
- Estabelecimento de protocolo que garanta liberdade e segurança da navegação no Estreito, em coordenação com as forças iranianas.
- Pagamento integral de indenização para reconstrução de infraestruturas danificadas no Irã.
- Levantamento total de todas as sanções econômicas, financeiras e comerciais contra o Irã.
- Liberação de fundos e ativos iranianos congelados no exterior, especialmente nos Estados Unidos.
- Compromisso formal do Irã de não desenvolver armas nucleares.
- Implementação imediata do cessar-fogo em todas as frentes, após aceitação das condições anteriores.
Controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz
Um dos pontos centrais do acordo é o reconhecimento implícito do papel do Irã na gestão da segurança do Estreito de Ormuz. O texto estabelece que a passagem de navios será feita “em coordenação com as forças iranianas e levando em consideração as limitações técnicas”, conferindo a Teerã capacidade de fiscalização operacional sobre a rota energética crítica.
Sanções e indenizações: o núcleo econômico
Os pontos 6, 7 e 8 formam o núcleo econômico do acordo: levantamento de sanções, liberação de ativos congelados e indenização por danos de guerra. Estima-se que bilhões de dólares em recursos iranianos estejam bloqueados em instituições financeiras internacionais, principalmente nos EUA. A reconstrução de infraestruturas atingidas nos últimos 40 dias de conflito representa um custo adicional que Teerã busca transferir aos adversários.
Questão nuclear: compromisso sem concessões
O ponto 9 reafirma o compromisso iraniano de não desenvolver armas nucleares — posição que Teerã já defendia publicamente, distinguindo entre programa nuclear civil (permitido) e militar (proibido pelo Tratado de Não Proliferação). Analistas avaliam que a formulação busca oferecer garantias aos EUA sem exigir abandono do enriquecimento de urânio para fins energéticos.
Islamabad como palco diplomático
As negociações para operacionalizar o acordo ocorrerão em Islamabad, sob mediação paquistanesa. O prazo inicial é de duas semanas, prorrogável por mútuo acordo. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã enfatizou que o processo será conduzido “sob a supervisão dos líderes revolucionários” e convocou “unidade nacional” para evitar declarações divisivas.
Para analistas, o acordo representa mais uma pausa tática do que solução definitiva. A implementação dos dez pontos exigirá mecanismos de verificação, cronogramas claros e, sobretudo, confiança mínima entre as partes — elemento escasso após décadas de hostilidade.
Sem confirmação oficial de Israel
Embora a CNN tenha noticiado que Israel também concordou com o cessar-fogo, não houve confirmação oficial de autoridades israelenses ou americanas. Essa assimetria de comunicação reforça a dubiedade do acordo e o risco de mal-entendidos operacionais nas próximas semanas.