Economia digital: o trabalho do futuro ainda exclui mulheres
Estudo da Fundação Itaú mostra que homens ocupam 85% das vagas especialistas em tecnologia no Brasil.
Publicado 21/05/2026 14:44 | Editado 22/05/2026 17:57
Inteligência artificial, automação e plataformas digitais são vendidas como símbolos inevitáveis do futuro. Mas, no Brasil, esse futuro ainda tem gênero, cor e CEP. Enquanto a transformação digital avança, os empregos mais valorizados da nova economia seguem concentrados entre homens brancos das regiões mais ricas do país.
É o que revela uma pesquisa inédita da Fundação Itaú sobre economia digital. Enquanto empresas e governos falam em inovação, os dados mostram que a desigualdade histórica brasileira continua sendo reproduzida dentro do próprio setor tecnológico.
O estudo “Economia digital: conceitualização, mensuração e políticas para o Brasil” traça um amplo retrato do trabalho digital no país e chega a uma conclusão incômoda: a economia digital brasileira ainda é pequena, concentrada e profundamente desigual.
A tecnologia também tem gênero
Hoje, apenas 7% dos trabalhadores brasileiros atuam em ocupações intensivas ou especialistas em tecnologias da informação e comunicação (TIC). São justamente os postos com maiores salários, melhores condições e maior potencial de crescimento. Em média, profissionais ligados às tecnologias digitais recebem até três vezes mais do que os demais trabalhadores.
Mas existe um detalhe decisivo: as mulheres quase não conseguem entrar nesses espaços.

Entre os especialistas em tecnologia, área mais diretamente ligada à produção digital, os homens ocupam 85% das vagas, enquanto as mulheres representam apenas 15%. A desigualdade se repete nos salários: nas ocupações intensivas em tecnologia, homens recebem, em média, 41% a mais que mulheres. A desigualdade não é um efeito colateral da transformação digital brasileira. Ela está no centro dela.

A disparidade também aparece na evolução histórica do setor. Dados do relatório mostram que, entre 2015 e 2025, a presença feminina nas ocupações digitais praticamente permaneceu estagnada. O gráfico “Percentual de trabalhadoras mulheres, segundo grupo de ocupação (2015–2025)” revela que, mesmo com a expansão da economia digital no país, as mulheres seguem sub-representadas justamente nas áreas tecnológicas mais valorizadas.

A revolução digital e as velhas exclusões
O problema não começa apenas no mercado de trabalho. Ele atravessa toda a trajetória de formação profissional. Meninas continuam afastadas das áreas de ciência e tecnologia desde cedo, enfrentam ambientes hostis em cursos técnicos e universidades e encontram um setor marcado pela predominância masculina, pela exclusão e pela ausência de políticas permanentes de inclusão.
A própria pesquisa aponta que a digitalização da economia brasileira “não se distribui de forma homogênea”, refletindo desigualdades históricas do mundo do trabalho. No frigir dos ovos: a revolução tecnológica brasileira está sendo construída sobre estruturas antigas de exclusão social.
O dado se torna ainda mais grave porque a economia digital concentra justamente os empregos mais promissores do século XXI. O avanço da inteligência artificial e da automação deve ampliar ainda mais a distância entre trabalhadores altamente qualificados e aqueles excluídos das novas competências digitais.
A nova economia e o velho abismo regional
O estudo aponta também desigualdades regionais importantes: Sudeste e Sul concentram os melhores empregos digitais, enquanto Norte e Nordeste seguem marginalizados no acesso às oportunidades da nova economia.
O Nordeste concentra apenas 1% dos especialistas em TIC do país e 3% dos trabalhadores em ocupações intensivas em tecnologia. Já no Norte, os índices caem para 1% e 2%, respectivamente. Nas duas regiões, a imensa maioria da população ocupada segue fora da economia digital, reforçando desigualdades históricas no acesso aos empregos mais qualificados e valorizados da nova economia.

A tecnologia e o velho racismo estrutural
A exclusão também é racial. Pessoas negras e indígenas seguem sub-representadas nos empregos digitais mais valorizados e recebem salários menores mesmo quando conseguem acessar essas ocupações.
A desigualdade racial também atravessa a economia digital brasileira. Embora o estudo aponte um crescimento lento da presença de trabalhadores pretos e pardos nas ocupações tecnológicas ao longo da última década, os empregos mais valorizados do setor seguem majoritariamente concentrados entre pessoas brancas.
Em 2025, trabalhadores brancos representavam 67% das ocupações intensivas em tecnologia e quase 60% dos especialistas em TIC. Já pessoas pretas correspondiam a apenas 6,2% dos trabalhadores intensivos em tecnologia e 8% dos especialistas. Trabalhadores indígenas permanecem praticamente excluídos dessas ocupações, com participação inferior a 1%.
O relatório mostra ainda que o aumento da diversidade racial não foi acompanhado de maior valorização econômica. Mesmo quando conseguem acessar os empregos da nova economia, trabalhadores pretos e pardos seguem recebendo salários inferiores aos de trabalhadores brancos.
A economia digital e seus limites
Mais do que um problema de acesso à internet ou formação técnica, a pesquisa sugere que a transformação digital brasileira também é uma disputa por poder econômico, oportunidades e participação nos empregos mais valorizados da nova economia.
Inclusão como estratégia de desenvolvimento
O relatório escancara a necessidade de ampliar políticas de inclusão de mulheres, negros e indígenas na formação tecnológica e no mercado digital. Entre as iniciativas voltadas a esse objetivo estão programas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), como o “Mais Mulheres na Ciência”, além de ações afirmativas e medidas de incentivo à permanência feminina nas carreiras de inovação e tecnologia, previstas também na Política Nacional de Educação Digital.
Em artigo publicado em abril deste ano, a ministra Luciana Santos afirmou que o governo tem buscado estruturar políticas permanentes de inclusão e diversidade no setor. “Estamos construindo uma agenda que olha para toda a trajetória das mulheres na ciência, da educação básica à liderança em pesquisa, com ações integradas e compromisso de longo prazo”, escreveu.
A ministra também defendeu que ampliar a participação feminina nas áreas científicas e tecnológicas é uma estratégia para fortalecer o desenvolvimento do país. “Mais mulheres nesses espaços significa mais perspectivas, mais diversidade de ideias, mais criatividade, mais capacidade de compreender problemas complexos e propor soluções inovadoras.”