PF e MPF fazem busca e apreensão contra donos bilionários da Americanas

Polícia Federal e Ministério Público cumprem mandados em SP e no RJ e bloqueio de R$ 54 bilhões; Beto Sicupira e o ex-conselheiro Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Lemann, são os alvos centrais de busca e apreensão

PF cumpre mandados de busca a apreensão contra donos bilionários da rede Lojas Americanas

A Polícia Federal (PF), em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF), deflagrou nesta quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga crimes financeiros envolvendo a rede varejista Americanas. 

A ação cumpriu nove mandados de busca e apreensão, que incluíram buscas pessoais, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A medida foi autorizada pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que determinou também o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. 

Os alvos centrais desta nova etapa são o bilionário Carlos Alberto Sicupira, o Beto Sicupira, e o ex-conselheiro Paulo Alberto Lemann, filho do primeiro casamento do investidor Jorge Paulo Lemann, que é apontado pela revista Forbes como a terceira pessoa mais rica do Brasil em 2026, com patrimônio estimado em US$ 19,8 bilhões.

Mecanismo das fraudes 

As investigações atuais aprofundam os indícios de fraudes contábeis, agora estimadas em aproximadamente R$ 54 bilhões, além de crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. 

O esquema apontado pelas autoridades envolve a criação de lucros fictícios com o uso de operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) contabilizados sem lastro econômico real. 

Essas manobras resultavam na inflação artificial de lucros e de caixa, na ocultação de passivos e na adulteração sistemática de demonstrações financeiras para valorizar as ações da empresa no mercado. Os investigados também teriam recebido bônus milionários vinculados a esses resultados fraudulentos e obtido ganhos com a venda de papéis valorizados artificialmente. Além dos controladores, há suspeitas que executivos de grandes bancos privados também foram incluídos nos mandados de busca por suposta conivência com as manobras.

Histórico da operação 

Esta nova etapa dá continuidade à primeira fase da operação, deflagrada em junho de 2024, que teve como foco ex-diretores da empresa. Na ocasião, foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão, com o sequestro superior a R$ 500 milhões de bens e ativos. 

A ação inicial contou com o apoio técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e com a colaboração da própria administração da Americanas, sendo descrita pela PF como a maior fraude da história do mercado financeiro brasileiro. Na atual fase, contudo, o acionista Marcel Herrmann Telles não apareceu citado como alvo nos relatos iniciais do cumprimento dos mandados, e Jorge Paulo Lemann não figura na lista direta de busca desta quinta-feira.

Recuperação judicial 

O caso teve início em janeiro de 2023, quando a Americanas divulgou um fato relevante admitindo inconsistências contábeis bilionárias, o que levou a companhia a entrar com um pedido de recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, com dívidas estimadas na época em cerca de R$ 43 bilhões. 

O trio de acionistas de referência firmou o compromisso de aportar R$ 12 bilhões no plano de recuperação, que teve o pedido de encerramento solicitado pela empresa em março de 2026 após o cumprimento das obrigações pactuadas. 

Em abril de 2025, o MPF apresentou denúncia formal contra ex-executivos por organização criminosa e manipulação de mercado, mas não incluuiu a cúpula dos acionistas de referência entre os denunciados naquele momento.

A fraude contábil de criação de lucro ficitícios também foi usada no rombo do Banco Master.

Leia mais: PF mira Ciro Nogueira em apuração de escândalo do banco Master

Bloqueio cautelar 

A determinação de sequestro de bens expedida pela Justiça Federal nesta fase possui caráter estritamente cautelar, com o objetivo de garantir uma eventual reparação civil, além do pagamento de multas e indenizações em caso de condenação futura, não se tratando de um confisco definitivo. 

Os controladores da rede varejista passaram a figurar como alvos centrais e não mais como vítimas de um erro do corpo executivo da empresa. O avanço da apuração busca esclarecer o nível de conhecimento e a responsabilidade dos acionistas principais sobre o rombo financeiro. Paralelamente, a CVM mantém inquéritos administrativos abertos para apurar as irregularidades sob a ótica regulatória do mercado de capitais.

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