Trump promete vitória da Ucrânia, mas usa guerra para vender energia dos EUA

Após encontro com Zelensky na ONU, presidente americano chamou Rússia de “tigre de papel”, exigiu corte de petróleo russo pela Europa e ameaçou tarifas contra China e Índia

Donald Trump e Volodymyr Zelensky durante encontro às margens da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (23). Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu nesta terça-feira (23), após encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky às margens da Assembleia Geral da ONU, que a Ucrânia pode “lutar e vencer de volta toda a Ucrânia em sua forma original”, incluindo os territórios ocupados pela Rússia desde 2014.

Trump descreveu Moscou como um “tigre de papel” em “grandes problemas econômicos” e disse que este é o momento para Kiev agir.

A declaração marca uma guinada em relação a posicionamentos anteriores, nos quais o republicano sugeria que Kiev deveria abrir mão de áreas conquistadas por Moscou em nome de um acordo de paz.

O reposicionamento, porém, pode estar menos ligado a uma mudança real de convicções sobre a guerra e mais a uma estratégia para reposicionar os EUA no mercado global de energia.

Ao cobrar que a Europa corte o petróleo e o gás russos, Trump sinaliza abertura para o gás e o petróleo norte-americanos ocuparem o espaço.

“Temos mais petróleo do que qualquer nação em qualquer lugar. Petróleo e gás. E, se adicionarmos o carvão, temos mais do que qualquer nação no mundo. Limpo. Eu chamo de carvão limpo e bonito”, disse o norte-americano, nesta terça-feira, em discurso que dedicou longos minutos para exaltar a capacidade energética dos Estados Unidos.

O presidente norte-americano também se apresentou como o garantidor de oferta abundante.

“Estamos prontos para fornecer a qualquer país suprimentos abundantes e acessíveis de energia, se precisarem — e a maioria de vocês precisa. Estamos orgulhosamente exportando energia para todo o mundo. Somos agora o maior exportador nos Estados Unidos”, propagandeou.

Para completar, voltou a dizer que liberou a “produção maciça de energia” e que assinou ordens executivas para acelerar a busca por petróleo, frisando que “nem precisamos procurar muito, porque temos mais petróleo do que qualquer nação em qualquer lugar”.

O próprio porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, ironizou o discurso ao dizer que Trump age como “um homem de negócios” tentando forçar o mundo a comprar energia dos Estados Unidos “a preços mais altos”.

Na reunião com Zelensky em Nova York, Trump buscou dar um tom de urgência à ofensiva ucraniana, associando o enfraquecimento econômico da Rússia ao que chamou de fracasso militar de Vladimir Putin.

Em discurso anterior, na abertura da ONU, disse que “uma potência militar real teria vencido a guerra em uma semana” e que a incapacidade do Kremlin de alcançar objetivos no campo de batalha “não faz a Rússia parecer bem”.

Ao mesmo tempo, Trump manteve ambiguidade em sua promessa de apoio, garantindo que continuará a fornecer armas à OTAN, para que os europeus possam utilizá-las na Ucrânia, mas não se comprometeu em retomar os pacotes de bilhões de dólares em ajuda direta, congelados desde o início de sua gestão.

O reposicionamento foi celebrado por líderes europeus. O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira, que “saúda ver que o presidente americano acredita na capacidade da Ucrânia não apenas de resistir, mas de impor respeito por seus direitos”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que Trump “está absolutamente certo sobre a necessidade de a Europa se desfazer da energia russa” e prometeu acelerar os planos para cortar a dependência.</p> <p>Já a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, qualificou as falas como “a mais forte declaração que não tínhamos ouvido antes”.

Apesar do tom de apoio, diplomatas em Bruxelas mostraram ceticismo. “O que Trump diz na segunda-feira não é o que ele disse na terça-feira”, disse um aliado de Macron ao The New York Times, lembrando a instabilidade das posições do republicano.

Resposta do Kremlin: Rússia é urso de verdade, e não tigre de papel

Kremlin respondeu com ironia às declarações em entrevista ao jornal econômico russo RBK, nesta quarta-feira (24), o porta-voz Dmitry Peskov rejeitou a definição de “tigre de papel” e disse que a Rússia é mais frequentemente associada a um urso.

“Não existem ursos de papel. A Rússia é um urso de verdade”, afirmou. Peskov acrescentou que, apesar das sanções, a economia russa mantém “resiliência e estabilidade macroeconômica” e continua abastecendo suas forças armadas.

Disse ainda que Putin “valoriza muito” os esforços de Trump para mediar o conflito e que a relação entre ambos segue “calorosa”, mas classificou o norte-americano como “um homem de negócios” interessado em vender petróleo e gás dos EUA a preços mais altos.

No plano militar, Trump ampliou a polêmica ao sugerir, também em Nova York, que países da OTAN deveriam ter autorização para derrubar aviões russos que invadam seu espaço aéreo.

Horas depois, sua administração relativizou a declaração. O secretário de Estado Marco Rubio defendeu que tal medida só seria legítima em caso de ataque direto.

A reação na Ucrânia também foi dividida. Zelensky qualificou a mudança de tom como um “sinal positivo” e chamou Trump de “game-changer”.

A oposição, porém, criticou duramente. O deputado Aleksey Goncharenko disse que o presidente ucraniano vive em “pensamento ilusório” e que Trump, ao afirmar que Kiev tem condições de vencer, apenas “lavou as mãos”.

“Trump estava basicamente dizendo: ‘Vocês se virem. Boa sorte’”, afirmou em entrevista à imprensa local. Goncharenko alertou que o otimismo pode levar a ofensivas custosas em vidas e acusou o governo de “defender os interesses dos EUA e da União Europeia com sangue ucraniano”.

O discurso de Trump na Assembleia Geral também foi marcado por uma escalada econômica. Ontem, em Nova York, ele defendeu novas sanções contra Moscou e fez ameaças veladas de tarifas contra China e Índia, países que descreveu como financiadores indiretos da guerra por continuarem comprando petróleo russo.

A posição da Casa Branca é conhecida desde 12 de setembro, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em teleconferência com ministros das Finanças do G7, pediu que aliados europeus acompanhassem Washington na adoção de tarifas.

O próprio Trump já havia ensaiado esse movimento em 13 de setembro, ao publicar no Truth Social que estava “pronto para impor grandes sanções à Rússia” assim que a OTAN e a União Europeia concordassem em fazer o mesmo, citando tarifas de até 100% contra China e Índia.

O G7, presidido pelo Canadá, admitiu discutir a aplicação de tarifas a países considerados “facilitadores da guerra”, além de acelerar o uso de ativos russos congelados para financiar a defesa ucraniana.

“Somente com um esforço unificado conseguiremos aplicar pressão suficiente para encerrar a matança sem sentido”, disseram Bessent e o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, em comunicado conjunto.

O governo americano, porém, evita impor punições diretas à China, por enquanto, em razão da trégua comercial em vigor com Pequim.

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