Vieira e Rubio iniciam diálogo para destravar impasse sobre tarifaço
Reunião na Casa Branca marcou o primeiro passo para reduzir as sobretaxas e restabelecer a cooperação entre Brasil e Estados Unidos
Publicado 17/10/2025 10:07 | Editado 19/10/2025 20:59
O chanceler Mauro Vieira se reuniu nesta quinta-feira (16) com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na Casa Branca, em Washington, em um encontro descrito por ambos como “muito produtivo” e marcado por clima de descontração e cooperação.
“O encontro foi muito produtivo e ocorreu em um clima excelente, de descontração e troca de ideias, além de posições muito claras e objetivas”, disse Mauro Vieira.
Foi a primeira reunião de alto nível entre os dois países desde a imposição do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, decretado por Donald Trump em julho, e representou, segundo avaliação do Itamaraty, a largada efetiva de um processo de negociação para reverter as sobretaxas e restabelecer o diálogo diplomático entre Brasília e Washington.
A conversa ocorreu poucos dias depois do telefonema entre Lula e Trump, no qual os dois presidentes sinalizaram disposição em retomar as relações bilaterais.
“Isso foi um princípio auspicioso de um processo negociador no qual trabalharemos para normalizar e abrir novos caminhos para as relações bilaterais”, explicou o chanceler brasileiro.
Durante pouco mais de uma hora de reunião, sendo 20 minutos reservados apenas aos dois chanceleres, Vieira reiterou a posição brasileira pela revogação imediata das medidas impostas desde julho e defendeu a criação de um “processo auspicioso de negociação” para normalizar as relações entre os dois países.
O encontro em Washington faz parte de uma série de gestos de reaproximação entre Brasil e Estados Unidos após meses de tensão.
Desde a adoção das tarifas, o governo brasileiro vem reivindicando reciprocidade e denunciando o caráter político das medidas, adotadas por Trump como resposta ao que chamou de “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro.
A iniciativa de diálogo avançou após o breve cumprimento entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, em setembro, seguido de uma conversa telefônica em outubro, que abriu caminho para a reunião desta quinta-feira.
O chanceler afirmou que “prevaleceu uma atitude construtiva, com boa química e sintonia”, e destacou que o momento marca o início de um processo de reconstrução das relações bilaterais, abaladas pelas políticas protecionistas de Washington.
Declaração conjunta e canais de trabalho
Ao final do encontro, os governos divulgaram uma declaração conjunta em que afirmam ter mantido “conversas muito positivas sobre comércio e questões bilaterais”.
O texto, assinado por Rubio, Vieira e o representante do Comércio dos EUA, Jamieson Greer, estabelece o compromisso de “colaborar e conduzir discussões em múltiplas frentes no futuro próximo, estabelecendo um caminho de trabalho conjunto”.
A nota também confirmou que Brasil e Estados Unidos trabalharão para realizar uma reunião entre Lula e Trump na primeira oportunidade possível.
Segundo Vieira, “há interesse de ambas as partes para que esse encontro ocorra em breve”, ainda sem data ou local definidos. O chanceler também afirmou ter pedido o fim das sanções aplicadas pelos EUA a autoridades brasileiras, entre elas a suspensão de vistos e restrições financeiras.
Agenda comercial e propostas brasileiras
De acordo com diplomatas ouvidos pela Folha de S.Paulo, o encontro foi visto como a largada efetiva da negociação para reduzir as sobretaxas impostas a produtos brasileiros.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, propôs a criação de um cronograma de trabalho para as equipes técnicas, voltado a definir um plano gradual de reversão das medidas.
Para abrir espaço à negociação, o governo brasileiro apresentou três frentes de interesse estratégico para Washington:
- Etanol: possibilidade de retomar o regime de cotas ou incentivar a entrada do etanol norte-americano por portos do Sudeste;
- Minerais críticos: oferta de parceria de investimento em exploração mineral, com garantia de compra pelos EUA;
- Big techs: criação de grupos de trabalho bilaterais para discutir regulação tecnológica e cooperação digital.
Esses temas devem pautar os próximos encontros técnicos. O Itamaraty considera que o gesto de Washington — ao não vincular o tarifaço ao STF nem a Bolsonaro — sinaliza despolitização do diálogo comercial e abre caminho para um acordo baseado em interesses econômicos mútuos.
Perspectivas e próximos passos
As partes concordaram em manter contato constante nas próximas semanas. O encontro entre Lula e Trump deverá ocorrer em novembro, dependendo da compatibilidade das agendas. O Itamaraty avalia que a reunião entre Vieira e Rubio reabre um canal direto com a Casa Branca, permitindo avançar em acordos comerciais e diplomáticos sem intermediações políticas.
Setores da indústria e do agronegócio brasileiro acompanham com expectativa o andamento das tratativas, sobretudo os produtores de etanol e açúcar do Nordeste, que temem perder competitividade com a eventual abertura de mercado ao etanol de milho norte-americano.
O governo brasileiro avalia que, apesar da ausência de anúncios concretos, o encontro marca o início de uma nova fase nas relações bilaterais.