Brasil pode ter até 30 dias de racionamento por ano até 2050
Instituto Trata Brasil projeta alta de quase 60% na demanda de água e alerta para o risco de colapso hídrico nacional; São Paulo já enfrenta pior escassez em uma década.
Publicado 29/10/2025 13:25 | Editado 30/10/2025 08:40
A pergunta que orienta o novo estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria Ex Ante, é direta: a água potável no Brasil vai acabar? O relatório “Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas”, divulgado nesta terça-feira (28), projeta cenários preocupantes para o abastecimento no país.
Segundo o levantamento, o consumo nacional de água pode crescer quase 60% até 2050, pressionado pelo aumento da renda, da urbanização e da cobertura dos serviços de saneamento. Para suprir essa demanda, o Brasil terá de produzir 7,2 bilhões de metros cúbicos a mais de água tratada — uma expansão de cerca de 2% ao ano durante quase três décadas.
Crescimento populacional e perdas no sistema
O estudo mostra que a universalização do acesso à água, prevista no Novo Marco Regulatório do Saneamento, é uma das chaves para garantir o abastecimento. Porém, o país enfrenta um gargalo: quase 40% da água tratada é perdida na distribuição, o equivalente a 7,2 bilhões de metros cúbicos por ano — volume que, sozinho, seria suficiente para atender o aumento projetado de consumo até 2050.
A redução dessas perdas para 20% poderia economizar mais de 2,7 bilhões de metros cúbicos anuais e aliviar a pressão sobre mananciais e sistemas de tratamento.
Impactos das mudanças climáticas
As mudanças climáticas devem agravar o quadro. O estudo prevê aumento médio de 1°C na temperatura máxima e de 0,47°C na mínima até 2050, além de menos dias de chuva e eventos mais intensos.
Essas variações, combinadas, podem elevar o consumo per capita de água em 12,4%, criando um desequilíbrio entre oferta e demanda. A consequência é clara: racionamentos médios de 12 dias por ano, que podem chegar a 30 dias em regiões mais secas do Nordeste e do Centro-Oeste.
“É preciso agir agora”, alerta o Trata Brasil
Para Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, o país precisa tratar o tema com urgência e planejamento. “Os dados apresentados reforçam a tendência de aumento no consumo de água, vindos com a maior oferta dos serviços, a expansão demográfica e o crescimento da economia. As tendências climáticas indicam restrição de oferta de 3,4% na média do ano por escassez de recursos hídricos em nossos mananciais”, destacou.
Ela acrescenta que, sem investimentos imediatos, as regiões mais vulneráveis enfrentarão impactos severos na saúde e na qualidade de vida da população. “É fundamental agir agora para promover eficiência e preparar o país para enfrentar os desafios que as mudanças climáticas trarão nos próximos anos.”
São Paulo revive o fantasma da crise hídrica
O cenário traçado pelo estudo ganha contornos ainda mais urgentes diante da situação da Região Metropolitana de São Paulo, que vive a pior escassez hídrica em uma década. Em outubro, os reservatórios que abastecem a Grande São Paulo operavam com os menores níveis desde 2015, segundo dados do UOL. O Sistema Cantareira, responsável pelo fornecimento de água para cerca de 9 milhões de pessoas, estava com apenas 25,2% da capacidade em 17 de outubro, enquanto o Sistema Integrado Metropolitano registrava 29%, índices que colocaram a região na faixa de “restrição severa” de uso.
Apesar da gravidade, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem apostado em medidas paliativas, como redução noturna da pressão da água e possíveis rodízios de abastecimento que duram até 10 horas, sem apresentar um plano robusto de enfrentamento estrutural à crise. Segundo reportagem da Revista Fórum (28/10), a privatização da Sabesp reduziu a capacidade de resposta pública diante de emergências hídricas e ampliou o foco em dividendos e metas financeiras, em detrimento da segurança no abastecimento, algo que também é enfatizado por José Antônio Faggian, presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo).
De acordo com especialista, ouvido pelo Portal Vermelho na última quarta-feira (22), “a Sabesp fez obras estruturantes que interligaram sistemas e aumentaram a segurança hídrica. Mas sob a lógica privada, há o risco de o lucro dos acionistas se sobrepor ao bem-estar da população”.
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O contraste com o estudo nacional do Instituto Trata Brasil é evidente: enquanto o país precisa investir em eficiência, reduzir perdas e planejar a gestão hídrica até 2050, São Paulo trilha o caminho oposto — abrindo mão do controle público sobre a água. O estado repete erros da crise de 2014-2015, quando milhões ficaram sem fornecimento regular.
Com perdas superiores a 30% na rede, investimentos aquém do necessário e uma gestão orientada pelo lucro, São Paulo se torna o retrato do que o relatório do Trata Brasil mais teme: um país que, diante da escassez climática, transforma um direito básico em mercadoria.
Caminhos para evitar a escassez
O estudo conclui que o Brasil ainda pode evitar um cenário de crise hídrica se priorizar políticas públicas voltadas à eficiência do uso da água, modernização das redes de distribuição e adaptação às mudanças climáticas.
A mensagem é inequívoca: sem gestão e investimento contínuos, o país corre o risco de transformar a escassez de água em um dos maiores desafios sociais e ambientais das próximas décadas.
Para ver a íntegra do estudo, clique aqui.