Assembleia da França aprova congelamento da reforma da Previdência

Medida que elevava a idade mínima de aposentadoria é suspensa até 2027, após pressão social e desgaste do governo francês

Manifestantes participam de um protesto em Bordeaux, no sudoeste da França, em 7 de março de 2023, como parte de um dia nacional de greves e protestos convocados por sindicatos contra a proposta de reforma da previdência do governo. -

A Assembleia Nacional da França aprovou nesta quarta-feira (12) o congelamento da reforma da Previdência, medida impopular que aumentava a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos.
Com 255 votos a favor e 146 contra, a decisão adia a implementação completa da reforma para depois das eleições presidenciais de 2027.

Na prática, a idade mínima ficará em 62 anos e 9 meses até o fim do atual mandato, sinalizando uma vitória parcial dos sindicatos e movimentos sociais que, desde 2023, promovem uma das maiores ondas de greves e protestos da história recente francesa.

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Macron recua após tratar tema como “inegociável”

A suspensão da reforma representa uma guinada política do presidente Emmanuel Macron, que até poucos meses atrás afirmava que a mudança era essencial para “salvar o sistema previdenciário”.
Agora, acuado por um Parlamento fragmentado e uma coalizão enfraquecida, o presidente delegou ao primeiro-ministro Sébastien Lecornu a tarefa de negociar concessões e evitar novos bloqueios legislativos.

O recuo expõe o declínio da autoridade política de Macron, cujo projeto liberal enfrentou resistência tanto da esquerda sindical quanto da direita nacionalista, unidas na crítica ao custo social das reformas.

Reforma imposta sem voto e com protestos massivos

Em 2023, a então primeira-ministra Élisabeth Borne impôs a reforma sem votação, usando o polêmico artigo 49.3 da Constituição francesa, que permite aprovar leis sem o aval da Assembleia.
A decisão gerou protestos em todo o país, paralisações de transporte, bloqueios de refinarias e confrontos entre manifestantes e a polícia.

Para a maioria dos franceses, a reforma simbolizava a desconexão do governo com a realidade social, penalizando os trabalhadores mais pobres e os que começaram a trabalhar cedo.

“Era uma lei feita para o mercado, não para o povo”, sintetizou Sophie Binet, secretária-geral da CGT, principal central sindical francesa.

“Erro fatal”, dizem empresários; “vitória da rua”, dizem sindicatos

O presidente do Movimento das Empresas da França (Medef), Patrick Martin, chamou a suspensão de “erro fatal” e “heresia econômica”, refletindo o descontentamento do setor empresarial.
Já os sindicatos comemoraram como “vitória da rua sobre o elitismo do Palácio do Eliseu”, prometendo manter a mobilização até que a reforma seja revogada definitivamente.

A CGT convocou um novo dia nacional de protestos em 2 de dezembro, denunciando o orçamento de 2026 como “cheio de horrores sociais”, com cortes na educação, saúde e assistência familiar.

O impasse francês e o custo político da austeridade

Para Macron, a reforma das aposentadorias era um pilar de sua política de austeridade e um teste de credibilidade diante dos mercados internacionais.
Mas, na prática, revelou o limite do consenso neoliberal em um país que ainda valoriza fortemente o Estado de bem-estar social e a solidariedade intergeracional.

Mesmo após o recuo, a França continua dividida: enquanto o governo fala em “responsabilidade fiscal”, os trabalhadores veem um ataque aos direitos conquistados.
O congelamento, portanto, não encerra o conflito — apenas adiou o confronto para 2027, quando a sucessão presidencial recolocará o tema no centro do debate.

Uma reforma rejeitada pelas ruas

Mais do que uma disputa contábil, o impasse francês evidencia um choque de modelos de sociedade.
De um lado, um governo que insiste em soluções de mercado para um problema social; de outro, um povo que recusa trabalhar mais para sustentar um sistema que o exclui.

O congelamento da reforma é, assim, um sintoma da crise política de Macron — e um lembrete de que, na França, as ruas ainda têm o poder de reescrever as leis.

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