Escândalo atinge aliado de Zelensky e fragiliza a Ucrânia

Agências anticorrupção fizeram buscas na casa de Andriy Yermak, braço direito de Zelensky e líder das negociações com os EUA, agravando a crise política em Kiev

O presidente Volodimir Zelensky no centro da imagem e seu demissionário chanceler, Dmytro Kuleba a direita Foto: Reprodução

As agências anticorrupção da Ucrânia realizaram nesta sexta-feira uma operação na casa de Andriy Yermak, chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky e figura central das negociações com os Estados Unidos sobre um possível acordo de paz. 

A ação, conduzida pelo Escritório Nacional Anticorrupção (NABU) e pela Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO), aprofunda a crise política no país e atinge pela primeira vez o colaborador mais próximo do presidente em plena guerra. 

Yermak confirmou que a operação estava em curso e afirmou estar “cooperando plenamente” com as autoridades. O caso reacende a tensão no núcleo do governo ucraniano e fragiliza o país em meio às negociações de paz com a Rússia, já que Yermak é considerado segundo homem mais poderoso da estrutura presidencial. 

Jornalistas registraram a entrada de cerca de dez agentes no bairro governamental de Kiev. 

NABU e SAPO não divulgaram oficialmente o motivo da busca, mas a ação ocorre duas semanas após as agências anunciarem uma investigação ampla sobre um esquema de propinas ligado à infraestrutura energética. 

A busca representa uma nova etapa de um escândalo que se tornou político, administrativo e diplomático.

Yermak comanda o gabinete presidencial, filtra decisões estratégicas e é responsável por coordenar a comunicação com aliados europeus e norte-americanos. Nas últimas semanas, liderou as conversas com representantes de Washington em Genebra, em meio ao esforço para rever o plano de paz apresentado por Donald Trump. 

A crise interna chega, portanto, exatamente quando sua presença é mais decisiva para as negociações. A repercussão aumenta ainda mais diante de pesquisas citadas pela imprensa estrangeira, segundo as quais 70% dos ucranianos defendem sua saída do cargo.

A pressão parlamentar também cresce. Deputados de diferentes partidos — inclusive da base governista — passaram a pedir sua demissão, argumentando que Yermak acumulou funções excessivas para um assessor sem mandato eletivo. 

A operação adiciona um elemento de instabilidade em um governo já pressionado pelos efeitos da guerra, pela crise energética e pela desconfiança crescente em setores estratégicos. A combinação de desgaste popular e fragilidade institucional atinge diretamente o centro de comando político da Ucrânia.

Esquema de US$ 100 milhões intensifica indignação popular e derruba ministros

A busca contra Yermak é parte do mesmo escândalo de corrupção que já levou à queda de dois ministros de Zelensky e atingiu antigos aliados do presidente. O NABU afirma ter identificado um esquema de propinas entre 10% e 15% em contratos ligados à Energoatom, estatal responsável pela geração de energia nuclear. 

Mais de mil horas de gravações secretas sustentam as acusações, e parte desse material — divulgado à imprensa — mostra suspeitos discutindo abertamente a possibilidade de desviar recursos destinados à proteção de usinas atacadas pela Rússia.

Um dos acusados, o empresário Timur Mindich, foi sócio de Zelensky na produtora Kvartal 95, da qual o presidente fez parte antes de entrar na política. Mindich fugiu para fora do país horas antes de ser detido pelas autoridades. 

Outro investigado é Oleksiy Chernyshov, ex-vice-primeiro-ministro, mencionado em diferentes reportagens sobre o caso. A sucessão de nomes ligados ao entorno presidencial amplia o questionamento sobre o grau de conhecimento que figuras de alto escalão tinham do esquema.

A revelação de que recursos destinados à defesa da infraestrutura energética podem ter sido desviados acentuou a indignação nacional e pode desestabilizar a aliança entre o governo Zelensky e seus principais aliados europeus. 

A Ucrânia enfrenta desde outubro uma crise severa no fornecimento de energia, com milhões de pessoas tendo acesso a apenas algumas horas de eletricidade por dia. A percepção de que verbas destinadas a proteger usinas estavam sendo drenadas por autoridades acentua a sensação de desamparo e incompetência administrativa.

A crise também reacende debates sobre a governança ucraniana e o alcance das reformas anticorrupção prometidas por Zelensky desde 2019. 

Organizações internacionais vinham elogiando os esforços de Kiev na área, mas o escândalo atual reacende dúvidas sobre o compromisso efetivo das autoridades. A tensão aumentou ainda mais após Zelensky ter promovido — e depois revertido — uma mudança legal que colocava NABU e SAPO sob supervisão direta do procurador-geral, figura nomeada politicamente.

Pressão dos EUA e impasse com a Rússia paralisam negociações de paz

O escândalo que envolve Yermak surge no momento mais delicado das negociações com os Estados Unidos. 

Na semana passada, o governo Trump apresentou um plano de paz de 28 pontos amplamente alinhado à lista de exigências apresentada pela Rússia, incluindo a entrega de territórios, a redução das Forças Armadas ucranianas e a proibição de ingresso na OTAN. 

A proposta foi rejeitada por autoridades ucranianas e europeias, e a delegação liderada por Yermak conseguiu convencer Washington a revisá-la.

A CNN afirma que novas rodadas de conversas estão previstas para os próximos dias. Putin declarou que espera a chegada de uma delegação norte-americana a Moscou no início da próxima semana, enquanto Zelensky confirmou que a equipe ucraniana também se reunirá com representantes dos EUA. As negociações, no entanto, seguem travadas. Parte da equipe de Trump tem falado publicamente em “grandes avanços”, mas o próprio Putin afirmou que não pretende recuar de suas exigências, sinalizando que a ofensiva militar russa “é praticamente impossível de conter”.

Em entrevista concedida antes das buscas, Yermak disse ao The Atlantic que “enquanto Zelensky for presidente, ninguém deve contar com a ideia de que vamos desistir de território”. 

Ele acrescentou que o presidente “não assinará nada que entregue território”, reforçando a posição ucraniana de rejeitar concessões territoriais impostas pela Rússia. A conjunção de pressões simultâneas — política interna, investigações judiciais e exigências externas — complica ainda mais a condução das negociações.

O desgaste de Yermak cria um problema adicional para Kiev. Sua função como principal articulador das negociações com Washington torna a crise politicamente sensível. 

A credibilidade do negociador-chefe é um elemento central em qualquer tentativa de cessar-fogo. O fato de ele se tornar alvo de uma operação anticorrupção no auge das conversas coloca o governo ucraniano em posição vulnerável diante dos Estados Unidos e da Rússia.

Riscos internos e impacto na relação com a União Europeia

A crise interna também afeta diretamente a relação da Ucrânia com a União Europeia. A porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho, declarou que as investigações “mostram que os órgãos anticorrupção da Ucrânia estão fazendo seu trabalho”. Ainda assim, Bruxelas se mantém cautelosa. Um relatório recente já apontava dúvidas sobre o “compromisso com a agenda anticorrupção”, e o envolvimento de figuras próximas ao presidente reforça a preocupação de diferentes Estados-membros.

O desgaste político interno aumenta à medida que mais nomes ligados ao governo aparecem nas investigações. Deputados ucranianos, inclusive da coalizão governista, passaram a exigir a demissão de Yermak, citando concentração excessiva de poder e influência. O caso reacende críticas antigas sobre a centralização do gabinete presidencial e a dificuldade de implementar mecanismos efetivos de controle.

A opinião pública também exerce papel decisivo. O número elevado de ucranianos que defendem a saída de Yermak demonstra o alcance da insatisfação. A crise energética, agravada por ataques russos, tornou a gestão dos recursos estatais ainda mais sensível. A suspeita de que obras essenciais podem ter sido comprometidas por irregularidades aprofundou o descontentamento e gerou ambiente propício a novos protestos.

O cenário projeta um período de instabilidade prolongada para o governo Zelensky. A combinação de investigações anticorrupção, pressão diplomática e desgaste interno coloca o presidente diante de um dos momentos mais críticos desde o início da guerra.

O impacto das negociações em curso, somado ao alcance do escândalo, definirá não apenas os próximos passos de Kiev, mas também o futuro político do governo e do apoio ocidental.

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