Apagão gera perda bilionária e reafirma fragilidade da Enel

Apagão em São Paulo já é recorrente desde que os serviços de energia foram privatizados. Maioria bolsonarista na agência reguladora dificulta o socorro do governo federal

Fotoa: Paulo Pinto | Agência Brasil

Apagão em São Paulo já é recorrente desde que os serviços de energia foram privatizados. Desta vez. o vendaval da última quarta‑feira (10) – que derrubou árvores e danificou a rede elétrica, deixou mais de 2 milhões de pessoas sem energia. Apesar das alegações da concessionária Enel Distribuição São Paulo que afirma realizar esforços para normalizar o serviço, ainda nesta terça‑feira (16) mais de 30 mil casas permaneciam sem energia, em 24 cidades da região.

Mais prejuízos econômicos: diretos e indiretos

Segundo relatório atualizado da FecomercioSP, as perdas acumuladas em quatro dias desse último apagão, chegaram a R$ 2,1 bilhões. Superando os R$ 2 bilhões registrados no apagão passado.

Prejuízos diretos: incluem faturamento perdido em restaurantes, bares, comércio varejista e serviços, com destaque para o setor de serviços, que atingiu R$ 1,4 bilhão. Só na quarta‑feira (10), o pico foi de R$ 541 milhões em perdas.

Comércio: registrou cerca de R$ 700 milhões em perdas, agravadas por interrupções nas vendas e problemas logísticos.

Prejuízos indiretos: não entram na conta oficial, mas envolvem estoques deteriorados (alimentos perecíveis, medicamentos), custos fixos mantidos sem receita (aluguéis, salários, energia de geradores) e impactos na mobilidade urbana, já que semáforos apagados paralisaram parte da cidade.

Problemas recorrentes

A concessionária foi autuada pelo Procon Paulistano em R$ 14,2 milhões por falhas na prestação do serviço. A demora no restabelecimento, também, levou a empresa ser notificada pela agência reguladora do setor, a Aneel, que quer esclarecimentos sobre a demora nos reparos. Não é a primeira vez que diante de interrupções por fatores climáticos previsíveis a empresa demora em retomar o fornecimento de energia. Os acontecimentos de agora remontam as falhas operacionais de Enel durante o apagão que durou mais de uma semana em 2023 e provocou a abertura de investigações contra a empresa.

Mesmo diante do desfecho da CPI da Enel na Assembleia Legislativa de São Paulo, que buscou as causas do apagão em 2023, a empresa seguiu operando sem sanções estruturais definitivas. A empresa não apenas se recusou a assinar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para indenizações amplas aos consumidores, limitando-se a isenções restritas à tarifa social, como também provou a insuficiência de seus planos de “reconstrução”, já que os investimentos e contratações anunciados após a investigação não foram capazes de impedir novos colapsos energéticos.

A privatização de um direito

A origem do modelo atual está na reestruturação e privatização do setor elétrico paulista nos anos 1990, quando a antiga Eletropaulo foi desmembrada e parte de suas operações de distribuição acabou, em 1998, sob controle do grupo americano AES, com foco central em ajuste financeiro e redução de endividamento, mais do que em expansão pesada da infraestrutura. Esse ciclo se aprofunda em 2018, quando a Enel compra o controle da AES Eletropaulo em oferta pública que avaliou a companhia R$ 5,5 bilhões e passa a adotar uma estratégia agressiva de corte de custos operacionais para remunerar o investimento e os acionistas.
Dados divulgados pelo Sindicato dos Eletricitários de São Paulo apontam que, sob as gestões privadas sucessivas, houve uma queda próxima de um terço no quadro de empregados próprios da distribuidora a partir do fim da década de 2010, com forte substituição de engenheiros e técnicos experientes por terceirizados, em regime de alta rotatividade. O sindicato e especialistas qualificam esse processo como perda de “memória técnica” da empresa, com impacto direto na qualidade das manutenções preventivas e na capacidade de resposta em eventos extremos na rede aérea.

Pressão política e apelo ao governo federal

O prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas, apesar de criticarem a Enel pela lentidão na recuperação não apresentam nenhum plano de contigência, deixando os moradores reféns de uma empresa não tem condições de manter a concessão diante da recorrência de apagões e da falta de investimentos. Agora, os dois querem a ajuda do governo Lula. Em reunião prevista com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ambos pretendem solicitar intervenção federal na Enel e a caducidade do contrato da concessionária, apresentando os impactos econômicos e sociais do apagão. Alexandra Silveira, contudo, cobra uma posição definitiva da agência reguladora que tem uma maioria bolsonarista na diretoria. Dos cinco dirigentes, três foram indicados ainda no governo Jair Bolsonaro e dois nomeados já na gestão Lula. Essa configuração cria uma correlação de forças em que a maioria da direção atual é herança do governo anterior, o que influencia a dinâmica interna da agência responsável por fiscalizar e regular o setor elétrico em meio às crises recentes de fornecimento de energia.