José Antonio Kast e o novo ciclo político da extrema direita no Chile
Eleição chilena revelou a força da unidade da esquerda no 1º turno e, ao mesmo tempo, seus limites. A vitória de Kast levanta dúvidas sobre democracia, direitos sociais e o futuro da classe trabalhadora
Publicado 21/12/2025 13:31
Os últimos 30 dias foram marcados por um clima de incerteza política no Chile, acompanhado de expectativas e apostas sobre qual projeto político assumiria o comando do Palácio de La Moneda, em Santiago. Além da escolha do presidente do país, o processo eleitoral também definiu a nova composição da Câmara dos Deputados e promoveu a renovação de 23 das 50 cadeiras do Senado.
Esse foi o primeiro pleito presidencial e legislativo realizado desde a aprovação e promulgação da emenda constitucional de 27 de dezembro de 2022, que restabeleceu o voto obrigatório para eleições e plebiscitos, algo que não ocorria desde 2012. Com a mudança, cidadãos aptos que deixaram de comparecer às urnas ficaram sujeitos ao pagamento de uma multa de aproximadamente 33 mil pesos chilenos, o equivalente a cerca de R$ 200, medida que reacendeu o debate público sobre participação política e dever cívico no país.
No primeiro turno, o resultado evidenciou a unidade política do campo da esquerda chilena em oposição ao avanço do fascismo. Com exceção do Partido Comunista Chileno (Ação Proletária), uma pequena legenda de tradição pró-albanesa, com impacto praticamente irrelevante no tabuleiro eleitoral, todo o espectro da esquerda se articulou em torno da candidatura de Jeannette Jara, do Partido Comunista do Chile.
Jara disputou as eleições primárias presidenciais como representante da coligação governista Unidade pelo Chile, mecanismo criado para definir o nome que concorreria à Presidência da República. No processo, ela obteve uma vitória expressiva na coligação, alcançando 60% dos votos, superando a social-democrata Carolina Tohá, do Partido pela Democracia, Gonzalo Winter, ligado ao campo político do presidente Gabriel Boric, e o ambientalista Jaime Mulet.
Se, no campo da esquerda, predominou uma forte unidade política, o mesmo não se verificou entre os partidos de direita. O setor chegou ao primeiro turno fragmentado, com múltiplas candidaturas disputando o mesmo eleitorado e apresentando projetos distintos para o país.
O principal nome era José Antonio Kast, do Partido Republicano do Chile, representante da direita conservadora. Na sequência apareciam o economista liberal Franco Parisi; Johannes Kaiser, youtuber e dirigente do Partido Nacional Libertário, identificado com o anarco-capitalismo e com a extrema direita; e a conservadora cristã Evelyn Matthei, da União Democrática Independente (UDI), partido fundado por um aliado direto do ex-ditador Augusto Pinochet.
A unidade política da esquerda garantiu a Jeannette Jara o melhor desempenho no primeiro turno, com 26,85% dos votos. Apesar do resultado expressivo, o percentual ficou distante do necessário para uma vitória imediata, o que levou a disputa para o segundo turno.
A partir daí, impôs-se um desafio central que o campo progressista não conseguiu superar: como enfrentar a posterior unificação da direita em torno da candidatura de José Antonio Kast? A pergunta passou a orientar o debate político nas semanas seguintes e expôs os limites da estratégia adotada até então.
José Antonio Kast, conhecido pela sigla JAK, é advogado e político chileno. Atuou como membro da Câmara dos Deputados entre 2002 e 2018, inicialmente pela União Democrática Independente (UDI) e, posteriormente, pelo Partido Republicano do Chile, legenda que ele próprio ajudou a consolidar como uma das principais forças da direita no país.
De origem familiar alemã, Kast é filho de Michael Kast, ex-tenente-coronel do Exército Alemão durante o Terceiro Reich e membro do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Após a derrota da Alemanha em 1945, Michael Kast fugiu para o Chile, onde mais tarde se vinculou ao aparato repressivo da ditadura de Augusto Pinochet, em especial ao Centro Nacional de Informação (CNI), órgão responsável por perseguições políticas, torturas e desaparecimentos forçados.
Outro membro da família, Michael “Miguel” Kast Rist, ocupou o cargo de ministro do Trabalho durante o regime militar. José Antonio Kast, o filho, seguiu trajetória política marcada por posições de extrema direita, expressando ao longo de sua carreira apoio explícito ao ex-ditador Augusto Pinochet e defendendo a adoção de uma política de “mão firme” na condução do Estado.
É frequentemente descrito como ultraconservador, com forte ênfase em discursos de lei e ordem e na defesa de políticas econômicas de livre mercado. No campo social, Kast se posiciona contra a eutanásia, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, além de defender políticas de assistência social restritas, voltadas prioritariamente a mulheres casadas.
Também rejeita o consenso científico sobre as mudanças climáticas, minimizando seus impactos e negando a responsabilidade humana no fenômeno. No plano internacional, mantém vínculos estreitos com lideranças e movimentos da direita e da extrema direita, tendo recebido apoio público de Donald Trump e participado do Fórum de Madrid.
Kast manifesta admiração por figuras como Giorgia Meloni, Javier Milei, Jair Bolsonaro e pelo partido espanhol Vox, liderado por Santiago Abascal. Também elogia a política de repressão adotada pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele, afirmando que o Chile precisaria de “mais Bukele” no enfrentamento à violência.
Em relação à imigração, defende o endurecimento do controle de fronteiras e se opõe à imigração ilegal, chegando a propor a escavação de um fosso na fronteira entre Chile e Bolívia. No campo cultural, afirma buscar a defesa do que chama de “patrimônio europeu do Chile” e da unidade nacional, posicionando-se contra pautas indígenas, o multiculturalismo e as agendas identitárias promovidas pela esquerda.
José Antonio Kast foi eleito novo presidente do Chile no domingo (14), ao obter mais de 58% dos votos, segundo dados do Serviço Eleitoral do país (Servel). O resultado reflete a concentração, no segundo turno, de votos que no primeiro estavam dispersos entre diversas candidaturas da direita, agora unificadas em torno de Kast.
Jeannette Jara reconheceu a derrota ainda na noite da apuração. “A democracia falou forte e claro. Acabo de falar com o presidente eleito José Antonio Kast para desejar-lhe êxito pelo bem do Chile”, escreveu em sua conta na rede social X, postura compatível com quem disputa uma eleição em um regime democrático.
Ainda assim, a pergunta que permanece é inevitável: êxito para quem, e a que custo, será esse “bem do Chile”? Para a esquerda chilena, e também para setores progressistas ao redor do mundo, a eleição levanta uma série de incertezas.
O que esperar de um presidente de extrema direita que flerta abertamente com o autoritarismo, carrega vínculos familiares com o nazismo e com a ditadura de Augusto Pinochet, e defende uma agenda marcada pelo endurecimento repressivo e pela retirada de direitos sociais?
As dúvidas se acumulam tanto no plano interno quanto no cenário internacional. O que aguarda a classe trabalhadora chilena sob um governo de orientação extremista? Que impactos essa vitória terá para o movimento operário e para as forças progressistas em escala global?
No Chile, o sentimento predominante entre amplos setores populares é de luto político. Mas, como lembram vozes da própria esquerda, que a injustiça não sirva apenas para entristecer, que ela também seja combustível para a organização, a resistência e a luta.