Fiesta de los Abrazos 2026 reafirma fraternidade como gesto político no Chile

Evento retorna a Santiago após perseguição ao PC chileno e reúne militância, cultura e solidariedade internacional em defesa da democracia e da reorganização popular

Foto: Partido Comunista de Chile/reprodução

A 36ª edição da Fiesta de los Abrazos voltou a ocupar, nos dias 10 e 11 de janeiro, o Estádio Popular de Recoleta Leonel Sánchez, em Santiago, reafirmando seu lugar como um dos mais importantes encontros político-culturais da esquerda latino-americana. Depois de um ano em que a atividade não pôde ser realizada em virtude de um processo de perseguição política ao Partido Comunista do Chile, o retorno da festa teve um sentido profundamente simbólico. Retomar os abraços, a música, o debate e a convivência coletiva foi também um gesto político de resistência, reaglutinação e afirmação de identidade.

A abertura da festa expressou com força esse reencontro. O ato inaugural contou com a presença do presidente do Partido Comunista do Chile, Lautaro Carmona, além de deputados e deputadas eleitos no último pleito parlamentar, que subiram ao palco como representantes de uma bancada forjada em um contexto político adverso. Também esteve presente Jeannette Jara, candidata comunista à Presidência da República nas eleições recentes, cuja participação foi recebida com entusiasmo e emoção. Pela primeira vez na história do país, uma mulher comunista disputou a presidência do Chile e obteve 38 por cento dos votos, um resultado expressivo que marcou o debate político nacional e foi lembrado ao longo de toda a festa como um marco histórico e um ponto de partida para novos desafios.

A Fiesta de los Abrazos ocorreu poucos meses após um processo eleitoral difícil, no qual a extrema direita saiu vitoriosa. O sentimento compartilhado entre militantes, dirigentes e participantes era de que, apesar da derrota, o resultado impôs ao povo chileno a tarefa de reorganizar forças, refletir sobre o momento vivido e construir caminhos para derrotar o governo de direita de Katz. A festa foi, portanto, muito mais do que celebração. Foi espaço de reflexão coletiva, balanço político e reafirmação de que a luta democrática segue viva.

Do Estádio de Recoleta, município historicamente dirigido pelo Partido Comunista e atualmente governado pelo alcalde Fares Jadue, era possível ver a imponente Cordilheira dos Andes. A paisagem acompanhou toda a atividade como presença simbólica constante. Cruzamos os Andes para chegar à Fiesta de los Abrazos e, como diz um conhecido dito popular da esquerda latino-americana, eles seguem sendo a Sierra Maestra da América do Sul, símbolo de persistência revolucionária e de caminhos possíveis para a transformação social.

A programação da Fiesta de los Abrazos 2026 foi intensa e diversa. Foros políticos, debates, lançamentos de livros, apresentações artísticas, feira de artesanato, gastronomia popular e shows musicais ocuparam o estádio durante os dois dias. A festa foi vivida como um espaço profundamente intergeracional. Crianças brincavam com mangueiras d’água enquanto os pais trocavam ideias, se reencontravam e celebravam. Senhoras observavam com os olhos brilhando a presença vibrante da Juventude Comunista do Chile, a JJCC, reconhecendo ali a continuidade de uma história que atravessa décadas.

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Um dos momentos mais emocionantes da festa ocorreu em seu ato final, quando novos militantes da JJCC subiram ao palco com suas tradicionais camisas bordô para jurar fidelidade à organização que passavam a integrar. A cena arrancou lágrimas de muitos dos presentes que, em outros tempos, haviam vivido ritos semelhantes. O gesto sintetizou o sentido histórico da Fiesta de los Abrazos como espaço de passagem de gerações, de memória viva e de renovação militante.

Durante toda a programação esteve presente, de forma permanente, a campanha internacional pela liberdade de Daniel Jadue, preso por meio de um processo amplamente denunciado como lawfare. Uma barraca dedicada ao tema, debates e atos públicos reforçaram a solidariedade ao dirigente comunista e denunciaram a criminalização da política como instrumento de perseguição às forças populares. A campanha atravessou a festa como um fio condutor, conectando passado, presente e disputa democrática.

A presença internacional foi outro elemento central desta edição. Delegações e representações de partidos irmãos do Uruguai, Argentina, Peru e Brasil estiveram presentes, reforçando a necessidade de unidade latino-americana diante dos desafios comuns impostos pelo avanço da extrema direita e pelas ofensivas contra a soberania dos povos. Mais uma vez, o Brasil esteve presente, com uma representação do Partido Comunista do Brasil e a cobertura especial do Portal Vermelho, reafirmando os laços históricos entre os partidos comunistas dos dois países e o compromisso com uma agenda comum de democracia, soberania e justiça social.

Ao longo dos dois dias, a Fiesta de los Abrazos reafirmou seu sentido mais profundo. Abraçar, bailar, compartilhar comida, ideias e afetos mostrou-se, mais uma vez, um ato político. Em um contexto de ofensiva conservadora e de tentativas de silenciamento, ocupar o espaço público com alegria, memória e fraternidade tornou-se um gesto revolucionário. A 36ª Fiesta de los Abrazos não apenas retomou uma tradição interrompida no ano anterior, como reafirmou que a cultura, o encontro e a organização popular seguem sendo ferramentas centrais na construção de futuros possíveis para o Chile e para a América Latina.