Mansur e Vorcaro: os arquitetos da maior fraude da história no mercado financeiro
Como o dono da Reag usou fundos, clubes esportivos, o Banco Master e a Bolsa para blindar fortunas suspeitas e enganar reguladores
Publicado 15/01/2026 14:12 | Editado 16/01/2026 16:33
João Carlos Mansur não era apenas um gestor de ativos; ele era o articulador que conectava o capital especulativo ao mundo desportivo e à cúpula do mercado financeiro. Uma expertise não nasceu do acaso. Mansur forjou seu perfil técnico agressivo na PricewaterhouseCoopers (PwC), uma das “Big Four” da auditoria global. Foi ali que ele dominou as nuances das engrenagens contábeis que, anos mais tarde, utilizaria para desenhar estruturas de fundos (FIPs e FIDCs) tão complexas que se tornaram impenetráveis para os reguladores.
Essa bagagem técnica permitiu que ele transitasse com desenvoltura entre os gigantes. Mansur cultivava um círculo de amizades e parcerias que incluía nomes como Nelson Tanure, com quem compartilhava interesses em empresas em reestruturação, e mantinha proximidade institucional com figuras do calibre de André Esteves (BTG Pactual) e Guilherme Benchimol (XP), a quem citava publicamente como referências de sucesso. Enquanto circulava como conselheiro influente no Palmeiras e geria as finanças da arena do Corinthians através da Reag, ele operava a gestora como um verdadeiro balcão de negócios para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O “Milagre” dos R$ 310 Bilhões
A trajetória da Reag é marcada por um crescimento que o mercado agora classifica como “inexplicável”. Antes da intervenção, a gestora declarava administrar cerca de R$ 310 bilhões. No entanto, a Polícia Federal e o Banco Central identificaram que este patrimônio era, em grande parte, uma ficção contábil. O mecanismo era uma ciranda financeira: o Banco Master emprestava dinheiro a empresas de fachada, que aplicavam esses recursos em fundos da Reag. Esses fundos, por sua vez, compravam ativos sobrevalorizados do próprio Master, gerando um lucro artificial que retroalimentava o balanço de ambas as instituições e ludibriava investidores e auditores.
O Artifício do IPO Reverso
Em entrevista recente ao programa Show Business, Mansur vangloriava-se de sua estratégia de “cortar caminhos” através de IPOs reversos – que é a compra de empresas combalidas, mas já listadas na B3. O expediente é usado para evitar o rigor e a burocracia de um processo de abertura de capital tradicional. A manobra permite ao controlador acessar rapidamente as operações da bolsa de valores, mesmo trocando a atividade principal da empresa comprada. Na ocasião, Mansur admitiu: “Cortar caminho você chega mais rápido, mas às vezes você pode se machucar”. A “ferida”apareceu agora com a liquidação extrajudicial da CBSF DTVM (antiga Reag) por “infringência gravíssima às normas”.
Fuga e Desespero
O desmoronamento do grupo ficou evidente com a tentativa de fuga de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Zettel foi preso no Aeroporto de Guarulhos na quarta-feira (14), quando tentava embarcar em um jatinho para Dubai, destino conhecido por dificultar extradições. Ele é investigado como o operador da rota internacional de divisas que escoava o capital para fora do país.
Enquanto o STF determina o bloqueio de R$ 5,7 bilhões e a indisponibilidade de bens de todos os controladores, o paradeiro de Mansur permanece incerto. A PF indica que Mansur já estaria fora do Brasil.
O Estadão, no Blog do Fausto Macedo, publicou nota do criminalista José Luís Oliveira Lima, advogado de Mansur, afirmando que a defesa ainda não teve acesso aos autos, mas que o empresário “está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos”. No entanto, a defesa não confirmou a localização física exata do cliente no momento.