Israel diz que matará novo líder supremo do Irã, não importa quem seja
Com centenas de civis mortos, ofensiva conjunta ignora direito internacional e transforma processo sucessório iraniano em alvo militar
Publicado 04/03/2026 16:29 | Editado 05/03/2026 14:18
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou publicamente que o próximo líder supremo do Irã será alvo de assassinato, “independentemente de quem seja o escolhido”. A afirmação, publicada em redes sociais, intensifica uma escalada belicista e criminosa que já resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei e de dezenas de autoridades iranianas em ataques conjuntos de Israel e Estados Unidos.
Katz justificou as ameaças em nome da defesa do “mundo livre”, afirmando que “qualquer dirigente eleito pelo regime terrorista iraniano para continuar liderando o plano de destruição de Israel (…) será alvo de assassinato. Não importa seu nome, nem onde ele se esconda”.
A declaração marca uma ruptura com protocolos diplomáticos tradicionais ao transformar a sucessão política de um Estado soberano em alvo militar declarado. Também explicita uma doutrina de guerra que substitui a diplomacia pela eliminação sistemática de adversários políticos — uma prática que viola frontalmente os princípios mais básicos do direito internacional e da soberania dos Estados.
Sucessão iraniana sob fogo
Enquanto Israel e EUA intensificam bombardeios, o Irã conduz, sob extrema pressão, seu processo interno de escolha do novo líder supremo. O principal cotado para a função é Mojtaba Khamenei, segundo filho do aiatolá assassinado, que teria sobrevivido aos recentes ataques, segundo fontes citadas pela Reuters.
O regime teocrático iraniano elegeu o aiatolá Alireza Arafi como líder interino para comandar a transição. A Assembleia de Peritos, órgão constitucional de 88 membros responsável pela indicação do líder supremo, segue seus trâmites, embora em condições excepcionais de guerra. “O Líder Supremo será identificado na primeira oportunidade, estamos perto de uma conclusão, porém a situação no país é de guerra”, declarou o aiatolá Ahmad Khatami à TV estatal.
A ameaça de Katz de eliminar qualquer sucessor escolhido levanta questões sobre os limites da intervenção externa em processos soberanos de sucessão política — um precedente que especialistas alertam poder desestabilizar ainda mais a ordem internacional.
Nenhum Estado tem o direito de vetar, por meio de assassinatos, a escolha política de outro país — por mais que se discorde de seu regime. Fazer isso sob o manto do “mundo livre” é uma contradição que expõe o caráter seletivo e instrumental do discurso ocidental sobre democracia.
Ofensiva militar e custo humano
Desde o início dos ataques, a Força Aérea israelense afirma ter lançado cerca de 5 mil bombas contra o Irã, com ênfase na região de Teerã. O exército dos EUA, por sua vez, reporta cerca de 2.000 alvos atacados, 17 navios e um submarino iranianos afundados, segundo o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central americano. Reporta também a morte de militares norte-americanos e mísseis atingindo cidades israelenses com vítimas.
Do lado iraniano, o Crescente Vermelho registra 800 mortos, 740 feridos e 153 cidades atingidas. Entre as vítimas, dezenas de crianças. Explosões foram reportadas na região norte de Teerã, e o governo iraniano acusa Israel e EUA de mirar deliberadamente infraestruturas civis sob o pretexto de alvos militares.
Guerra em duas frentes e deslocamento em massa
Paralelamente ao conflito com o Irã, Israel retomou operações contra o Hezbollah no Líbano. O exército israelense reforçou posições no sul libanês e atacou um hotel em Baabda, deixando ao menos 11 mortos. Autoridades locais relatam mais de 83 mil deslocados devido aos bombardeios.
A justificativa recorrente de “alvos terroristas” e “infraestruturas militares” não resiste a um exame mínimo: em conflitos urbanos densos como os de Teerã ou do sul do Líbano, a linha entre alvo militar e população civil é deliberadamente borrada. O resultado é uma guerra que pune coletivamente uma população inteira sob o pretexto de neutralizar ameaças específicas.
Com duas frentes ativas, o governo israelense projeta uma resolução do conflito em até dez dias, segundo a RFI. No entanto, a Casa Branca indica um prazo mais longo: pelo menos um mês de operações. A divergência expõe tensões na coordenação estratégico-política entre os aliados.
A “palavra final” sobre o encerramento dos confrontos caberia ao presidente dos EUA, Donald Trump, segundo a mesma fonte. Antes, porém, Trump afirmou publicamente que o “pior cenário possível” para o Irã seria a ascensão de outro líder hostil aos interesses americanos — declaração interpretada como endosso implícito à política de assassinatos seletivos.
Direito internacional sob questionamento
A ofensiva levanta críticas pela sua inconformidade com a Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força entre Estados, exceto em caso de legítima defesa contra ataque armado efetivo — condição não demonstrada publicamente no caso iraniano.
Especialistas em direito internacional apontam que alegações genéricas sobre “ameaças futuras” ou “intenções hostis” não constituem fundamento jurídico válido para intervenção armada. A doutrina da “legítima defesa preventiva”, invocada tacitamente por Washington e Tel Aviv, é considerada por muitos juristas uma construção perigosa que enfraquece a segurança jurídica global.
Ademais, o recurso à força não foi precedido por esgotamento de vias diplomáticas. Vale lembrar que foi o próprio governo Trump que se retirou unilateralmente do acordo nuclear de 2015, desmontando um dos principais mecanismos de contenção de tensões com o Irã.
Estreito de Ormuz e impactos globais
Em resposta à escalada, o regime iraniano anunciou foco no “controle total” do estreito de Ormuz, rota crítica por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Qualquer fechamento ou interrupção tem efeitos imediatos na economia mundial, elevando preços de energia e reacendendo inflação global. A guerra, assim, deixa de ser um conflito regional para se tornar um vetor de crise econômica planetária.
A Guarda Revolucionária do Irã prometeu agir com “firmeza e severidade” contra quem colaborar com o “inimigo agressor”. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, declarou que o país “não tem outra opção a não ser se defender”, afirmando que tentativas diplomáticas foram ignoradas diante da “agressão militar” de Israel e EUA.
Funeral de Khamenei adiado sob ameaça
Uma cerimônia em memória do aiatolá Ali Khamenei, assassinado aos 86 anos, foi adiada em Teerã, segundo a agência Tasnim. O governo iraniano citou “problemas logísticos” e a expectativa de afluxo massivo de luto — o funeral de Khomeini, em 1989, reuniu cerca de 10 milhões de pessoas.
O adiamento ocorre em meio a temores de que uma reunião de luto em massa possa se tornar alvo de novos ataques aéreos. A situação ilustra o dilema enfrentado pelo Irã: honrar seu líder morto sem expor a população a riscos adicionais.
O que vem pela frente
Enquanto o processo sucessório iraniano avança sob bombardeios, a comunidade internacional observa com apreensão os desdobramentos. Contudo, a estratégia de eliminar lideranças iranianas sistematicamente — agora estendida a qualquer possível sucessor — levanta questões sobre os limites éticos e jurídicos da guerra contemporânea.
Assassinatos seletivos, bombardeios em áreas densamente povoadas e ameaças a processos soberanos de sucessão política não são “defesa do mundo livre”. São a negação dos valores que esse mundo diz defender.