A guerra contra o Irã é a escolha de Trump para o colapso da liquidez global
Agressão militar no Oriente Médio tenta estancar o precipício fiscal dos EUA e salvar o dólar frente ao avanço da desdolarização promovida pelos BRICS.
Publicado 05/03/2026 15:12 | Editado 06/03/2026 13:13
Enquanto o mundo assiste à evolução da “Operation Epic Fury”, que transforma o horizonte do Oriente Médio em clarões de explosões e vitima civis sob o comando de Donald Trump, em coordenação com Israel, a retórica norte-americana fica cada vez mais fragilizada diante dos fatos.
A ofensiva militar contra o Irã é apresentada ao público pela mídia ocidental sob a justificativa da “paz através da força”, com a promessa de aniquilar uma suposta capacidade militar nuclear dos iranianos. Contudo, para além da retórica geopolítica da eliminação de ameaças ao Ocidente, desenrola-se uma dinâmica econômica em crise terminal. A agressão militar é o último suspiro de um sistema asfixiado pelo endividamento insustentável dos Estados Unidos e por uma bolha de liquidez global que exige, com urgência, novos canais de escoamento e controle sobre os preços energéticos.
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A economia norte-americana consome US$ 8 bilhões por dia acima do que produz
A sustentação da hegemonia norte-americana enfrenta hoje um precipício fiscal sem precedentes. Ao final de 2025, a dívida pública federal total dos EUA (incluindo obrigações intragovernamentais) atingiu a marca de US$ 38,5 trilhões, sendo que deste montante, US$ 30,2 trilhões, cerca de 100 do PIB é a dívida detida pelo público; Projeções do Congressional Budget Office (CBO) apontam para US$ 56 trilhões em dívida detida pelo público em 2036, cerca de 120% do PIB.
Com um déficit orçamentário estimado em US$ 1,9 trilhão para 2026, agravado por cortes de impostos e gastos bélicos elevados, a economia norte-americana consome atualmente cerca de US$ 8 bilhões por dia acima do que produz — um desequilíbrio estrutural que transforma a guerra em uma necessidade de sobrevivência monetária. Esta crise é alimentada pela financeirização profunda, um processo em que a lógica das finanças e o ganho especulativo dominam a produção real. Analistas econômicos identificam nessa dinâmica uma contradição do capitalismo contemporâneo: a hipertrofia financeira gera bolhas recorrentes e erosão da base produtiva, levando à estagnação e a uma crise sistêmica.
A guerra é o duto de drenagem do capital especulativo
Para gerenciar os estresses desse sistema, o Federal Reserve (Fed) tornou-se dependente de injeções massivas de liquidez. Apenas no final de 2025, o Fed realizou operações de recompra (REPO) — empréstimos de curto prazo para manter o fluxo de caixa dos bancos — que superaram os US$ 70 bilhões, os maiores patamares desde a crise de 2020.
Neste cenário de saturação, o capital especulativo, incapaz de ser absorvido pela economia real, encontra no conflito militar o seu canal de drenagem. A guerra contra o Irã impulsiona os gastos em defesa e reativa o complexo militar-industrial como ferramenta de gestão econômica. Paralelamente, a desestabilização deliberada do Golfo Pérsico e o patrulhamento do Estreito de Ormuz elevaram o preço do petróleo em 13% em poucas semanas. Embora o Secretário de Energia, Doug Burgum, minimize o impacto como ‘temporário’, essa alta forçada fortalece o dólar via aversão ao risco global: o mundo busca refúgio em ativos norte-americanos, permitindo que Washington continue financiando seus déficits sem enfrentar uma hiperinflação imediata.
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A guerra de Trump dá sobrevida aos petrodólares
A ofensiva integra o que se convencionou chamar de “Nova Guerra Fria”, um esforço para preservar o sistema do petrodólar estabelecido em 1974. Esse arranjo, que obriga a comercialização global de energia em dólares em troca de proteção militar, confere aos EUA o “exorbitante privilégio” de imprimir moeda para adquirir recursos reais de outras nações, colhendo trilhões em benefícios de reservas estrangeiras.
Historicamente, qualquer desafio a este sistema foi suprimido com força, como visto no Iraque em 2003. Hoje, o Irã — ao lado do bloco BRICS — representa o ponto crítico dessa ruptura ao desafiar a arquitetura financeira baseada no dólar através de sistemas alternativos de pagamento em moedas locais. A resposta de Trump ao avanço da desdolarização liderada pelo bloco, que inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e agora o próprio Irã, foi a ameaça explícita de tarifas de 100% contra nações que criarem moedas rivais. Contudo, os BRICS identificam na hegemonia do dólar uma ferramenta de coerção imperialista que já não se sustenta pela eficiência econômica, mas pelo poder das armas. Ao tentar destruir esses centros de soberania, a “Operation Epic Fury” revela-se não como uma demonstração de força imperial, mas como uma resposta desesperada a uma crise de liquidez insolúvel. Ao apostar no caos militar para salvar um sistema financeiro em declínio, Washington pode estar, paradoxalmente, acelerando o colapso global que pretende evitar.