Cuba liberta 51 presos em aceno ao Vaticano e em busca de protagonismo diplomático
Gesto de boa vontade procura resgatar abertura, sufocada pelas sanções de Trump, e reconhece o papel mediador da Igreja Católica
Publicado 13/03/2026 13:33 | Editado 13/03/2026 14:04
O governo de Cuba anunciou, na noite desta quinta-feira (12), a libertação antecipada de 51 prisioneiros, em uma decisão fundamentada no diálogo direto com a Santa Sé. Segundo comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores, a medida é um gesto de “boa vontade” que reflete as “relações fluidas e próximas entre o Estado cubano e o Vaticano”.
A soltura ocorre em um momento de asfixia econômica sobre a ilha, intensificada pela truculência de Donald Trump. A ação é interpretada por analistas como um esforço soberano de Havana para sinalizar disposição ao diálogo internacional, buscando retomar os avanços diplomáticos iniciados durante as gestões democratas nos EUA, que haviam sido facilitados pela mediação papal em 2015.
Resistência ao cerco e o papel da diplomacia humanitária
A decisão de libertar os detentos — que cumpriram parte significativa das penas e apresentaram comportamento exemplar — surge como um contraponto à política de confronto de Washington. Enquanto a administração Trump reverteu medidas de alívio e manteve o cerco comercial, Cuba utiliza canais institucionais com o Vaticano para reafirmar sua abertura diplomática.
O secretário para as Relações com os Estados da Santa Sé, Paul Richard Gallagher, tem sido peça-chave nesse processo. Reuniões recentes entre Gallagher e a diplomacia cubana pavimentaram o caminho para este anúncio. Para o governo cubano, manter o diálogo com a Igreja é uma forma de romper o isolamento imposto pelas “decisões hegemônicas” de Washington, que ignoram os avanços humanitários conquistados em anos anteriores.
Políticas de indulto e soberania jurídica
A chancelaria cubana enfatiza que a libertação não é um ato de submissão a pressões externas, mas uma prática comum e soberana do sistema judicial da ilha. O comunicado destaca que, desde 2010, Cuba já concedeu 9.905 indultos, e cerca de 10 mil pessoas foram beneficiadas por liberações antecipadas nos últimos três anos sob critérios de reintegração social.
A medida atual resgata a busca pelo fim das sanções norte-americanas. Em maio de 2024, o governo do democrata Joe Biden chegou a retirar a ilha da lista de países que não cooperavam contra o terrorismo, um passo que Havana esperava ser o início da saída definitiva da lista em que a ilha foi arbitrariamente colocada de ‘Estados Patrocinadores do Terrorismo’. No entanto, o processo de degelo foi brutalmente interrompido e revertido com a ascensão de Donald Trump, que recrudesceu o cerco econômico e as sanções contra o povo cubano.