O reencontro da esquerda

Autogestão dos trabalhadores como horizonte estratégico

Foto: Creative Commons/reprodução ICL

Não é novidade que parte da esquerda anda sem horizonte estratégico. Sem um projeto claro de futuro, a ação política se resume a um pragmatismo de governo em governo, uma tática que, desvinculada de uma estratégia maior, corre o risco de se tornar um fim em si mesma. A grande contradição é que, sem um projeto transformador que a oriente, a esquerda perde força até mesmo para suas ações táticas. Governos deveriam ser instrumentos de um projeto maior, não o projeto em si. Isso não é nostalgia, mas uma constatação da realidade. Nessa perspectiva, é fundamental resgatar para o centro do debate um tema de importância crucial: a autogestão.

A autogestão é um sistema de administração no qual os próprios trabalhadores de uma organização (como uma fábrica, um hotel, empresa ou cooperativa) participam diretamente da tomada de todas as decisões importantes, em um regime de democracia direta e igualdade de condições. Nesse modelo, a figura tradicional do “patrão” é eliminada, e as relações hierárquicas são substituídas por uma estrutura horizontal.

Os trabalhadores controlam coletivamente os meios de produção e são responsáveis por gerir não apenas a produção em si, mas também as finanças, a estratégia e a organização do trabalho. O objetivo central é valorizar o ser humano acima do lucro, criando relações de trabalho mais justas e igualitárias e redistribuir a riqueza originada do trabalho.

A autogestão é mais do que um modelo de administração; é a semente de uma nova sociedade. No pensamento marxista, ela representa a superação da alienação, conceito central que descreve a condição do trabalhador no capitalismo, separado do fruto de seu próprio trabalho e despojado de sua capacidade criativa. Ao assumir o controle dos meios de produção, os trabalhadores deixam de ser meras engrenagens em uma máquina de lucro alheio e se tornam sujeitos de sua própria história. A hierarquia imposta dá lugar a assembleias democráticas, onde cada voz tem o mesmo peso, e a propriedade privada dos meios de produção é substituída pela posse coletiva. É a democracia levada à sua consequência máxima, estendendo-se da esfera política para o coração da vida econômica.

As experiências concretas que brotam da América Latina são a prova viva de que isso não é teoria abstrata. Quando uma empresa vai à falência, demite em massa ou é simplesmente abandonada, os trabalhadores se recusam a aceitar o desemprego como destino. Eles ocupam, resistem e produzem. Na Argentina, em meio à crise de 2001, os operários da fábrica de cerâmica Zanon a transformaram na FaSinPat (Fábrica Sem Patrões). Em Buenos Aires, o Hotel Bauen foi reerguido por seus funcionários. No Brasil, a Faskô, em Sumaré (SP), tornou-se um emblema da luta operária. Em todos esses casos, a mensagem é a mesma: a capacidade de gestão não é um dom divino dos proprietários, mas uma habilidade que reside naqueles que conhecem o dia a dia da produção.

Contudo, a jornada da autogestão é árdua. Essas experiências são ilhas de socialismo em um oceano capitalista, e o sistema não as tolera facilmente. É crucial entender que, quando essas iniciativas fracassam, a derrota quase nunca se deve a uma suposta “incapacidade” dos trabalhadores de se autogerirem. Pelo contrário, os principais obstáculos são invariavelmente externos. A insegurança jurídica é o primeiro fantasma, com a ameaça constante de reintegração de posse. A hostilidade do mercado é o segundo, com boicotes de fornecedores e a recusa de crédito por parte dos bancos. Por fim, a obsolescência tecnológica se impõe, já que, sem capital, a modernização se torna quase impossível.

A batalha pela autogestão é, portanto, essencialmente política. A sobrevivência dessas ilhas de resistência depende da criação de um arquipélago de solidariedade. As experiências mais bem-sucedidas são aquelas que, como a FaSinPat, rompem os muros da fábrica e se conectam com a comunidade, transformando-se em patrimônio social e cultural. O apoio popular torna-se a maior blindagem contra as pressões do capital e do Estado.

As fábricas recuperadas são a prova viva de que o valor de uma empresa reside em seus trabalhadores, não em seus proprietários. Elas demonstram que, diante da crise, a organização e a solidariedade de classe não são apenas uma alternativa, mas a premissa para a construção de uma democracia que vai além do formalismo eleitoral. Votar de quatro em quatro anos não é suficiente: a democracia real exige que o trabalhador recupere o controle sobre o produto do seu trabalho e sobre sua própria atividade criativa — e é exatamente isso que a autogestão representa. Ao superar a alienação em sua raiz, ela inaugura um outro paradigma democrático, no qual a liberdade não é um direito exercido na cabine de votação, mas uma prática cotidiana no local de trabalho. Em um tempo de precarização e incertezas, a revolução silenciosa da autogestão resgata a história de luta da classe trabalhadora e aponta para um futuro onde o trabalho associado pode, finalmente, ser sinônimo de emancipação. Mais do que um modelo de gestão, essa experiência é a referência concreta para a retomada de um projeto estratégico transformador, mostrando que outra sociedade pode ser construída a partir da ação consciente de quem tudo produz.

Diante da crise de horizontes estratégicos que atravessa a esquerda, é urgente recolocar a autogestão no centro de um projeto transformador. Não se trata apenas de reivindicar melhores governos ou de disputar espaços institucionais, mas de construir uma alternativa concreta que supere a democracia formal e avance para uma democracia real, enraizada no cotidiano do trabalho e da vida social. A experiência das fábricas recuperadas e das cooperativas autogeridas mostra que os trabalhadores não apenas podem, mas já estão apontando o caminho de uma sociedade emancipada. Cabe à esquerda assumir esse legado como parte de um projeto maior, capaz de articular resistência e futuro, tática e estratégia, ação imediata e horizonte histórico. Autogestão dos trabalhadores — porque a democracia formal já não basta.

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