PF detalha como Vorcaro desviou R$ 385 milhões do Master para o bolso

Defesa de banqueiro negocia colaboração com André Mendonça após PF identificar a drenagem milionária do patrimônio do banco

Polícia monitora acesso à sala-cofre do Senado, após insvestigação de vazamento de provas do Banco Master. Foto: Geraldo Magela | Agência Senado

O cerco judicial contra o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, entrou numa fase que aponta para o fim das estratégias de negação até então adotadas. Investigado e preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero por fraudes que podem alcançar a cifra astronômica de R$ 22 bilhões, a defesa de Vorcaro  sinaliza formalmente a intenção de colaborar com a Justiça através de um acordo de delação premiada. 

O movimento  dos advogados ocorre no rastro de descobertas periciais que revelam esquemas sofisticados de captura de dinheiro do patrimônio do Master por Daniel Vorcaro.  Em um período de apenas sete a 180 dias antes da liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central, em novembro de 2025 foram feitos repasses milionários ao patrimônio particular do banqueiro. O foco das investigações recai sobre a identificação de transferências que somam R$ 385 milhões para fundos vinculados diretamente a Vorcaro; um valor que, segundo laudos da PF, advém de lucros operacionais simulados e sem qualquer lastro econômico real.

Mecanismos de desvio de lucros fulminantes

Em um dos episódios, o banqueiro adquiriu cotas do fundo Hans 2 por R$ 10 milhões em maio de 2023, revendendo-as apenas uma semana depois por R$ 160 milhões. Outra transação suspeita registrou um salto patrimonial vertiginoso, transformando R$ 2,5 milhões em R$ 294,5 milhões em dezembro do mesmo ano. Tais operações foram viabilizadas através de uma rede de fundos geridos pela Reag Investimentos, como o Astralo e o Itabuna, que funcionaram como pontes para empresas de fachada, a exemplo da Super Empreendimentos, ligada a parentes do investigado. O Coaf identificou, também, o envio de R$ 707 milhões para a offshore Titan Capital, sediada nas Ilhas Cayman, reforçando a tese de que a quebra da instituição foi precedida por uma retirada massiva de ativos para o exterior.

Corrupção no Banco Central e conexões criminosas

A movimentação financeira aumenta a suspeita de que o grupo se beneficiava de informações privilegiadas de servidores do Banco Central que foram afastados sob suspeita de receber propina para alertar Vorcaro sobre medidas fiscais e regulatórias. 

Diante da robustez das provas e da manutenção de sua prisão preventiva pelo Supremo Tribunal Federal, a defesa de Vorcaro passou por uma mudança radical com a contratação do advogado José Luís Oliveira Lima, o Juca. Conhecido por sua atuação em grandes acordos de colaboração na Lava Jato, Juca reuniu-se com o ministro relator André Mendonça nesta semana para alinhar os termos de uma possível delação que, segundo interlocutores, não pretende “poupar ninguém”.

 O clima de urgência na defesa foi acentuado pela decisão de Mendonça de prorrogar o inquérito por mais 60 dias, permitindo que a Polícia Federal conclua a análise técnica de mais de 100 celulares e documentos apreendidos que prometem revelar a extensão do braço político do esquema e a conexão com organizações criminosas como o PCC, cujos recursos teriam transitado pelo fundo Gold Style.

Intervenção no Senado e proteção de provas

O ministro André Mendonça determinou o recolhimento imediato, junto à sala-cofre do Senado Federal, de indícios e provas relacionados a Daniel Vorcaro. A medida fundamenta-se na suspeita de que elementos probatórios estariam sendo alvo de vazamentos indevidos e selecionados, comprometendo a integridade da instrução processual. 

Enquanto a Polícia Federal caracteriza o grupo como uma organização criminosa de métodos mafiosos e o Banco Central justifica a liquidação por graves violações normativas, os alertas do Coaf sobre a incompatibilidade do patrimônio de Vorcaro consolidam a base para os novos interrogatórios que definirão o alcance da futura delação.