Março expõe retrocessos no esporte feminino brasileiro
Machismo, punição à maternidade, desmonte de equipes e exclusão institucional mostram que a igualdade no esporte ainda está longe de sair do discurso.
Publicado 01/04/2026 09:40 | Editado 01/04/2026 09:42
O mês de março é marcado mundialmente pela luta das mulheres por reconhecimento, respeito e igualdade. Em diferentes áreas, houve o que celebrar. No esporte, porém, o mês terminou deixando um alerta: os avanços conquistados pelas mulheres seguem sendo constantemente ameaçados por uma estrutura ainda profundamente machista.
Logo no início do mês, mulheres que atuam no esporte — seja na comunicação, nas comissões técnicas, na gestão ou dentro das quadras e campos — viram uma decisão importante: a punição ao zagueiro Gustavo Marques, após declarações machistas contra a árbitra Daiane Muniz. Ao questionar sua capacidade de apitar grandes jogos por ser mulher, o jogador escancarou um pensamento ainda comum. A suspensão de 12 partidas aplicada pelo STJD foi correta e simbólica — mas insuficiente diante do que o próprio mês revelaria.
No dia seguinte à condenação, a campeã olímpica Sarah Menezes anunciou sua demissão da Confederação Brasileira de Judô logo após retornar da licença-maternidade. Não se trata de qualquer nome: Sarah é a única brasileira a conquistar medalha olímpica tanto como atleta quanto como treinadora. Ainda assim, nem sua trajetória foi capaz de protegê-la de uma prática recorrente: a penalização das mulheres por exercerem o direito à maternidade. Um problema estrutural que atravessa a sociedade e se reproduz também no esporte.
Poucos dias depois, mais um golpe. O Ceará Sporting Club anunciou o encerramento do projeto de sua equipe feminina de vôlei ao fim da Superliga B, independentemente do resultado. E o resultado, ironicamente, era histórico: a melhor campanha do clube, chegando às semifinais e se consolidando como a principal força do Norte-Nordeste na competição. A repercussão negativa levou a diretoria a recuar parcialmente, prometendo continuidade para a temporada 2026/2027 — mas sem afastar a insegurança sobre o futuro do projeto.
Como se não bastassem os episódios no cenário nacional, o mês também foi marcado por uma polêmica internacional. O Comitê Olímpico Internacional anunciou novas regras de elegibilidade para o esporte feminino, sob liderança de Kirsty Coventry. As medidas, apresentadas como critérios técnicos, foram amplamente criticadas por aprofundarem exclusões. A exigência de testes genéticos — incluindo a detecção do gene SRY — reacende debates já conhecidos e atinge inclusive mulheres cisgênero. Casos como os de Caster Semenya, Francine Niyonsaba e Margaret Wambui mostram como esse tipo de política pode excluir atletas que sempre estiveram dentro do esporte, mas nunca dentro de um padrão imposto.
O que esses episódios têm em comum não é o acaso, mas a estrutura. O esporte, que poderia ser um dos mais potentes instrumentos de emancipação das mulheres, segue sendo um espaço de disputa. Cada avanço — seja na arbitragem, na gestão, na maternidade ou na presença nas competições — ainda precisa ser defendido com firmeza.
Se março expôs retrocessos, também reforçou a necessidade de organização e luta. O crescimento da participação feminina no esporte não é um presente: é resultado de enfrentamento coletivo. E é justamente essa força que seguirá abrindo caminhos para que meninas e mulheres não apenas ocupem o esporte, mas o transformem.