Entre moscas e mazelas sociais: quando entomologia e sociologia têm algo a nos ensinar
Surto em Pinheiral expõe limites de respostas emergenciais e reforça a importância de estratégias integradas e preventivas para enfrentar problemas ambientais e sociais.
Publicado 02/04/2026 12:53
Nos últimos dias, um tema tem dominado conversas em salas de aula, corredores e mesmo fora do ambiente acadêmico no campus onde trabalho: a intensa proliferação de mosquitos que vem afetando o município de Pinheiral, no interior do Rio de Janeiro. A inquietação é compreensível e aparece em diferentes vozes (estudantes, trabalhadores e moradores), todos tentando entender o que está acontecendo e, sobretudo, como enfrentar o problema.
Não se trata de um incômodo pequeno. O aumento expressivo da população desses insetos tem causado transtornos concretos no cotidiano. No próprio Instituto, por exemplo, o refeitório precisou ser temporariamente fechado para uma dedetização emergencial. A prefeitura já se pronunciou publicamente sobre a gravidade da situação, anunciando medidas de controle, enquanto a imprensa local vem repercutindo o problema, especialmente após o fechamento recente de uma granja de frangos que pode estar relacionada ao surto.
Diante desse cenário, uma pergunta tem surgido com frequência quase automática: “Professor, qual é o remédio?”
Costumo, por hábito didático, devolver a questão aos meus alunos. E, para minha satisfação, enquanto professor de entomologia, muitos chegam rapidamente a uma resposta mais elaborada: Manejo Integrado de Pragas (MIP). Já entre o público em geral, a resposta tende a ser mais direta em torno do uso de inseticidas químicos.
Essa diferença de percepção não é casual, e ela nos ajuda a iluminar um ponto importante.
O inseticida é, sem dúvida, uma ferramenta relevante no controle de insetos. Em situações emergenciais, como a que vivemos agora, seu uso pode ser necessário para reduzir rapidamente a população de mosquitos. No entanto, ele está longe de ser uma solução completa. Na verdade, quando o controle depende exclusivamente de inseticidas, isso geralmente indica que o problema já ultrapassou um nível aceitável e chegou a um estágio crítico.
O Manejo Integrado de Pragas, por outro lado, parte de uma lógica diferente. Em vez de apostar em uma única intervenção, ele combina diversas estratégias complementares. Entre elas, podemos citar o controle biológico, que utiliza inimigos naturais dos insetos; o controle mecânico, que envolve a eliminação de criadouros; o controle físico, com alterações no ambiente; o controle comportamental, por meio de armadilhas e atrativos; além de medidas legislativas e educativas, que buscam modificar práticas humanas que favorecem a proliferação dos insetos. Mais do que um conjunto de técnicas, o MIP representa uma mudança de mentalidade. Ou seja, sair de uma lógica puramente reativa e adotar uma abordagem preventiva, contínua e sistêmica.
E é justamente aqui que a discussão ultrapassa os limites da entomologia.
A forma como a maioria das pessoas pensa o combate aos mosquitos guarda uma semelhança impressionante com a maneira como lidamos com diversos problemas sociais no Brasil na atualidade, sobretudo com a ascensão da extrema-direita.
Tomemos como exemplo a violência. Quando essa questão é colocada em debate, a resposta mais comum costuma enfatizar o aumento da repressão. Quase sempre a saída defendida é mais policiamento, mais armamento, leis mais duras. Assim como o inseticida, essas medidas têm seu papel e não devem ser descartadas. Em contextos de crise, a ação imediata do Estado é indispensável.
No entanto, acreditar que a violência pode ser resolvida exclusivamente por meio da repressão é tão limitado quanto imaginar que uma infestação de mosquitos será resolvida apenas com pulverizações químicas.
A experiência nos mostra que soluções duradouras exigem uma abordagem integrada. No campo social, isso significa investir de forma consistente em educação de qualidade, ampliar o acesso à cultura e ao lazer, fortalecer políticas de inclusão, criar oportunidades econômicas e enfrentar as desigualdades estruturais. Em outras palavras, trata-se de construir, ao longo do tempo, uma cultura de paz.
O mesmo raciocínio pode ser estendido à saúde pública. Sistemas de saúde que atuam predominantemente de forma curativa, reagindo às doenças quando elas já se instalaram, tendem a operar sempre sob pressão. Por outro lado, políticas que priorizam a prevenção (como saneamento básico, vacinação, educação em saúde e promoção de hábitos saudáveis) atuam diretamente nas causas dos problemas, reduzindo sua incidência e seus impactos.
A atual situação dos mosquitos em Pinheiral, por mais trivial que possa parecer, não deve ser vista apenas como um episódio banal, mas como uma oportunidade de reflexão mais ampla. Ela revela como, diante de problemas complexos, nossa tendência é buscar soluções rápidas, visíveis e imediatas (ainda que elas não sejam suficientes por si só).
Se quisermos resultados duradouros, seja no controle de mosquitos, seja na construção de uma sociedade mais segura, saudável e justa, será preciso ir além das soluções fáceis e dos discursos moralistas. Isso exige compromisso com medidas preventivas, com planejamento de longo prazo e, sobretudo, com a coragem de enfrentar aquilo que, muitas vezes, é menos visível, mas profundamente determinante. Trata-se de decidir que tipo de abordagem estamos dispostos a sustentar: aquela que apenas disfarça os sintomas ou aquela que, de fato, transforma as condições que os produzem.