Pressão para afastamento de Trump cresce com oscilações da guerra
James Green, da Brown University, descarta 25ª Emenda e impeachment como viáveis, mas mira eleição em novembro
Publicado 07/04/2026 16:25 | Editado 07/04/2026 18:16
Enquanto mercados de previsão nos Estados Unidos registram probabilidade recorde de 39% para a aplicação da 25ª Emenda contra Donald Trump, o historiador e brasilianista James N. Green, professor da Universidade Brown, classifica tais especulações como “fantasia de ficção científica”. “São especulações, possibilidades que são, para mim, fantasias de ficção científica, e não da realidade política atual do Estado”.

Em análise da realidade política americana, Green desmonta o otimismo de setores oposicionistas e aponta que, sem mudança nas correlações de força no Congresso, não há mecanismo institucional capaz de frear o presidente antes das eleições de novembro.
Mercados de previsão: termômetro ou ilusão?
“Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram essa porra de Estreito, seus malucos, ou vocês vão viver no inferno — AGUARDEM! Louvado seja Alá”, escreveu Trump no Truth Social.
O aumento para 39% na probabilidade de aplicação da 25ª Emenda, registrado pelo mercado Kalshi após esta postagem controversa de Trump — com palavrões e a frase religiosa juntas —, reflete mais a ansiedade de críticos do que uma leitura realista do jogo político. Como lembra Green, mercados de previsão “frequentemente refletem mudanças em tempo real nas expectativas do público”, mas não determinam a ação de atores institucionais.
A Kalshi é uma plataforma de “mercados de previsão” sediada em Nova Iorque e regulamentada pela CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA), onde usuários negociam contratos baseados em eventos futuros reais. Ela permite apostar no resultado de indicadores econômicos, como o aumento dos juros e da inflação, eleições, clima, se um filme será um sucesso de bilheteria ou se haverá uma greve e outros eventos.
A reação de democratas no Congresso — como os senadores Chris Murphy e o estadual Nate Blouin, que pediram a invocação da emenda — cumpre papel de pressão simbólica. Mas, sem adesão do gabinete ou mudança na aritmética do Senado, tais apelos permanecem no campo da retórica.
Por que a 25ª Emenda é improvável
A 25ª Emenda permite que o vice-presidente e a maioria do gabinete declarem o presidente “incapaz de exercer as funções do cargo”. Contudo, Green lembra que a aplicação prática esbarra em lealdades e cálculos políticos: “[o vice-presaidente] JD Vance não pode decretar isso porque seria visto como um golpe de estado dele para ser presidente depois”. Ou seja, o vice teria interesse pessoal na remoção, o que inviabiliza politicamente a medida.
Quanto ao gabinete, a situação é ainda mais clara: “São as pessoas mais fiéis, com tanto medo de Trump, que jamais farão isso”. A menos que ocorra um evento físico documentado — como um ataque cardíaco que incapacite o presidente temporariamente ou uma situação absurda como “ele tirar as roupas em público” —, não há cenário realista para a ativação do dispositivo constitucional.
Impeachment: a aritmética do Senado
Mesmo que a Câmara, controlada pelos democratas, aprovasse um terceiro processo de impeachment contra Trump, o desfecho dependeria do Senado, onde são necessários dois terços dos votos para condenação. “Não existe dois terços do Senado que vai votar a favor do impeachment dele”, afirma Green.
O historiador ressalta que os republicanos permanecem “apavorados pelo poder que ele tem nesse momento”. Mesmo com 60% da população contrária às políticas do governo — imigração, economia e guerra —, a base eleitoral de Trump segue entre 35% e 40%, suficiente para garantir a coesão partidária no Congresso.
Eleições de novembro: a única válvula real
Para Green, a única possibilidade concreta de conter o poder presidencial passa pelas urnas. “A única maneira de frear Trump, nesse momento, são as eleições de novembro”, sentencia. Caso os democratas conquistem a maioria na Câmara e, mesmo que por margem mínima, no Senado, poderiam limitar significativamente a agenda de Trump nos dois anos finais do mandato.
Até lá, especulações sobre remoção antecipada cumprem função mais simbólica do que estratégica: expressam frustração, mas não alteram a correlação de forças. Um novo pedido de impeachment antes das eleições é visto pelos próprios democratas como um tiro no pé, que vitimizaria Trump. “Impeachment pós-eleição” é cenário que o historiador considera mais plausível — mas condicionado a vitória democrata em novembro.
Mobilizações populares e limites institucionais
Green reconhece que as mobilizações do “No King’s Day” indicaram “grande repúdio” às políticas de Trump, especialmente em relação às questões econômicas, imigratórias e da guerra. Contudo, protesto nas ruas não se traduz automaticamente em ação institucional. “Eles sabem que não adianta fazer acusações sem uma votação no Senado”, observa.
A tensão entre opinião pública e arquitetura institucional revela um dos dilemas centrais da democracia americana: como conter um presidente com apoio minoritário, mas com domínio sobre seu partido e sobre mecanismos de poder? Para Green, a resposta não está em atalhos constitucionais, mas no jogo eleitoral e na organização política de longo prazo.
Realismo político contra os que “sonham acordados”
A análise de James Green oferece um antídoto necessário ao “wishful thinking”, a “pura ilusão” que permeia parte do debate oposicionista. Em vez de alimentar expectativas em mecanismos extraordinários de remoção, o historiador convida a um olhar sóbrio sobre as restrições institucionais e a centralidade do processo eleitoral.
Para quem busca compreender os limites e possibilidades de contenção do trumpismo, a lição é clara: a política se faz com correlação de forças, não com desejos. E, até novembro, essa correlação permanece desfavorável à oposição.