Irã diz que aceita o cessar-fogo a pedido dos EUA
Conselho de Segurança iraniano confirma trégua de duas semanas mediada pelo Paquistão e condiciona a suspensão de operações defensivas à interrupção dos ataques dos EUA. Passagem por Ormuz foi liberada “sob gestão do Irã”.
Publicado 07/04/2026 20:56 | Editado 08/04/2026 08:09
O Irã aceitou formalmente o cessar-fogo de duas semanas proposto pelo Paquistão, mas condicionou a suspensão de suas “operações defensivas” à interrupção imediata dos ataques contra seu território. Em declaração divulgada pelo ministro das Relações Exteriores, Araghchi, em nome do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Teerã reafirma que a trégua não significa rendição — e que qualquer “erro” do inimigo será respondido com “toda a força”.
O anúncio marca uma inflexão diplomática em um conflito que, horas antes, parecia caminhar para uma escalada catastrófica. Contudo, a linguagem utilizada pelo governo iraniano revela que a aceitação do acordo é tática, não estratégica: uma pausa para negociações, não o fim do direito de se defender caso volte a ser atacado.
Condicionalidades e desconfiança estrutural

Em nome da República Islâmica do Irã, expresso minha gratidão e apreço aos meus queridos irmãos, Sua Excelência o Primeiro-Ministro do Paquistão, Sharif, e Sua Excelência o Marechal de Campo Munir, por seus incansáveis esforços para pôr fim à guerra na região.
Em resposta ao pedido fraterno do Primeiro-Ministro Sharif em seu tweet, e considerando o pedido dos EUA para negociações com base em sua proposta de 15 pontos, bem como o anúncio do Presidente dos EUA sobre a aceitação da estrutura geral da proposta de 10 pontos do Irã como base para negociações, declaro, em nome do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã:
Se os ataques contra o Irã forem interrompidos, nossas Poderosas Forças Armadas cessarão suas operações defensivas.
Por um período de duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível mediante coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando em consideração as limitações técnicas.
Seyed Abbas Araghchi Ministro das Relações Exteriores
República Islâmica do Irã
A declaração iraniana é clara ao estabelecer que as negociações em Islamabad começarão com “total desconfiança em relação ao lado americano”. O prazo de duas semanas para o processo diplomático poderá ser prorrogado “mediante acordo entre as partes”, mas não há garantias de que um entendimento duradouro será alcançado.
Além disso, o Irã vincula a abertura segura do Estreito de Ormuz à “coordenação com as forças armadas do Irã e levando em consideração as limitações técnicas”. Ou seja: Teerã mantém controle operacional sobre a via estratégica.
Aprovação do novo Líder Supremo
Um dado relevante é que o acordo foi aprovado pelo novo Líder Supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei. Isso indica que a decisão conta com o aval da mais alta autoridade do sistema político iraniano, conferindo legitimidade interna à manobra diplomática.
O Conselho classificou o cessar-fogo como uma “vitória para o Irã”, sinalizando que a trégua não é um recuo, mas conquista obtida sob pressão militar e por meio de resistência.
Israel e EUA: adesão ainda nebulosa
Enquanto o Irã formalizava sua posição, a emissora americana CNN noticiou — citando fonte não identificada da Casa Branca — que Israel também concordou com o cessar-fogo. Segundo a reportagem, a trégua entraria em vigor quando o Irã abrisse o Estreito de Ormuz.
Contudo, não houve confirmação oficial por parte de autoridades israelenses ou norte-americanas, e relatos indicam que não havia, até o momento, diretriz formal nas estruturas de defesa para suspender operações. Essa assimetria de comunicação reforça a fragilidade do acordo e o risco de mal-entendidos operacionais.
Trump recua do precipício
Para analistas, o anúncio representa um recuo de Donald Trump em relação à retórica apocalíptica proferida horas antes, quando ameaçou que “uma civilização inteira morreria”. A mediação paquistanesa — encabeçada pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif e pelo marechal de campo Asim Munir — teria sido decisiva para evitar que o conflito ultrapassasse um ponto de não retorno.
Em publicação no TruthSocial, Trump afirmou que concordou em “suspender bombardeios e ataques ao Irã por duas semanas” após receber uma proposta “viável” de 10 pontos de Teerã. Segundo ele, o período permitirá “finalizar e consumar” um acordo definitivo, aproximando a solução do “problema de longo prazo”.
O que está em jogo nas próximas duas semanas
O cessar-fogo é, antes de tudo, um teste de confiança. Se as negociações em Islamabad avançarem, pode-se vislumbrar um acordo que estabilize o Oriente Médio e garanta fluxo energético global. Se fracassarem, a retomada das hostilidades pode ser ainda mais devastadora.
A declaração iraniana deixa claro: “Se a rendição do inimigo em campo se tornar uma conquista política decisiva nas negociações, celebraremos juntos essa grande vitória histórica; caso contrário, lutaremos lado a lado em campo até que todas as reivindicações da nação iraniana sejam atendidas”.
A diplomacia terá duas semanas para provar que pode mais do que a guerra.