EUA usam a guerra para reconfigurar o mercado mundial a seu favor
Professor Ronaldo Carmona analisa os impactos geopolíticos da agressão dos Estados Unidos ao Irã no 100º episódio do Entrelinhas Vermelhas
Publicado 17/04/2026 19:43 | Editado 27/04/2026 18:48
O Entrelinhas Vermelhas alcançou a marca de 100 episódios nesta sexta-feira (17) com o debate sobre os impactos geopolíticos da agressão dos Estados Unidos ao Irã. O entrevistado foi o professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, que é doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Carmona, é necessário observar o que os Estados Unidos pretendem. Do ponto de vista do governo de Donald Trump, a iniciativa de declarar guerra faz parte da Estratégia de Segurança Nacional, que visa reverter o declínio do país no cenário internacional e busca reorganizar o mundo conforme seus interesses. Para isso, os estadunidenses atuam em contratendência à multipolarização.
“Os Estados Unidos, nos últimos 90 dias, realizaram duas ações de força muito substantivas. A primeira foi o sequestro do presidente venezuelano no início de janeiro, […] e, agora, esse ataque ao Irã”, diz.
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Segundo o professor, o ataque ao país persa buscava a mudança de regime no Irã, mas agora se concentra no fim do programa nuclear e do programa de mísseis. Ele considera estas ideias pouco factíveis.
“Primeiro porque o programa nuclear, para o uso civil, realmente é uma necessidade do ponto de vista do Irã, que tem uma estrutura energética bastante delicada. Basicamente, o Irã depende de termoelétricas para a segurança do seu sistema elétrico nacional e o uso civil da energia nuclear é algo importante para a sua realidade energética. Por outro lado, o programa de mísseis, como a gente tem visto agora nessa guerra, é a garantia de que o Irã tem a capacidade de exercer retaliação em relação a quem o agride”, explica o doutor em geografia, o que torna o cessar-fogo uma construção delicada a depender das condições.
Assista à íntegra da entrevista:
Carmona também lembra que o conflito trouxe consequências econômicas que elevaram sobremaneira os preços da energia, especialmente de petróleo e gás. Ele se refere ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo.
Nesse aspecto, o professor chama a atenção para o ponto de vista econômico, pois os EUA são grandes beneficiários da situação como exportadores de petróleo e gás. Isso porque parte dos seus concorrentes do Oriente Médio estão, temporariamente, com sua produção travada no Estreito.
Além disso, os EUA firmaram recentemente com a União Europeia um termo para que o bloco compre o seu gás em troca de maior flexibilidade com o “tarifaço”. Assim, a União Europeia que sustentou o seu desenvolvimento na última década com base em gás barato russo passa agora a comprar o gás caro estadunidense.
“Essa é a linha que deve persistir por parte dos norte-americanos, que tentam, com a sua ação, reorganizar o mercado mundial de energia a seu favor”, avalia.
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Já do lado do Irã, Carmona observa que o país utiliza todas as possibilidades que estão na mesa, pois a questão é existencial, da própria continuidade das forças políticas à frente do Estado.
“O Irã utilizou todas as capacidades que tinha para gerar retaliação e pôr fim às hostilidades, no terreno econômico [Ormuz] e na sua condição militar. Eu tenho dito que essa aventura dos Estados Unidos em agredir o Irã se caracterizou por uma brutal subestimação das capacidades militares iranianas, que, efetivamente, são bastante robustas, como tem demonstrado agora na sua capacidade de retaliação”, aponta.
A análise geopolítica feita por Carmona ainda trata sobre a Otan; como o Brasil deve se posicionar neste ‘novo’ mundo; o que representa a mudança política na Hungria para a União Europeia e os seus efeitos para a guerra na Ucrânia; e principalmente como China e Rússia se colocam nesse cenário em que os Estados Unidos tentam reposicionar sua visão imperialista para além do paradigma neoliberal, uma vez que o mundo multipolar dá ênfase a novos atores e visões socioeconômicas.
O Entrelinhas Vermelhas é produzido pelo Portal Vermelho e transmitido às quintas-feiras às 17h pelo YouTube e Spotify, com análise de conjuntura nacional e internacional sob perspectiva progressista.