Brasil supera EUA em ranking de liberdade de imprensa pela primeira vez
País salta 58 posições desde 2021 e alcança a 52ª colocação no índice da RSF, enquanto norte-americanos recuam para o 64º lugar no mundo
Publicado 30/04/2026 11:17 | Editado 30/04/2026 11:28
Pela primeira vez na série histórica, o Brasil aparece à frente dos Estados Unidos no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Os dados consolidados de 2026, divulgados nesta quinta-feira (30), situam o Brasil na 52ª posição, com uma pontuação global aproximada de 65 pontos. Em contrapartida, os EUA registraram uma queda acentuada, ocupando agora o 64º lugar, com cerca de 63,5 pontos.
A inversão de posições reflete dois movimentos distintos: a recuperação institucional brasileira e a deterioração das condições de trabalho jornalístico em solo norte-americano. Em 2021, o Brasil ocupava a 111ª posição, figurando na chamada “zona vermelha” do levantamento. Desde então, o país avançou 58 postos, consolidando uma das maiores evoluções positivas entre as 180 nações avaliadas.
A ascensão brasileira e o declínio norte-americano
Em termos comparativos, o salto brasileiro de 58 posições em relação ao pior índice registrado em 2022 contrasta drasticamente com a perda de 20 postos pelos Estados Unidos no mesmo período. Enquanto o Brasil saiu da centésima décima primeira colocação para a quinquagésima segunda, os norte-americanos despencaram da quadragésima segunda para a sexagésima quarta posição. Ambos os países mantêm o status de “situação sensível”, mas a tendência é oposta: o Brasil consolidou-se como o quarto melhor país das Américas, enquanto os EUA caíram para a terceira dezena no ranking regional.
Extrema direita e o autoritarismo contra o jornalismo
A RSF e analistas internacionais destacam que o desempenho dos dois países está intrinsecamente ligado à presença da extrema direita no poder. O relatório evidencia que o projeto político da extrema direita – ao contrário da postura de um governo democrático como o de Lula – não tolera a liberdade de imprensa quando esta atua para conter sanhas autoritárias. No Brasil, o salto de 47 posições entre 2022 e 2025 é creditado à superação de um governo marcado pelo cerceamento do trabalho jornalístico, pela desinformação institucionalizada e pelo uso de órgãos de Estado para perseguir críticos.
O fenômeno se repete de forma inversa nos Estados Unidos. A queda no ranking é atribuída à herança e à persistência da retórica de Donald Trump, que introduziu um clima de hostilidade aberta e violência física contra repórteres. A experiência nas duas maiores democracias do continente comprova que, para a extrema direita, o jornalismo independente é tratado como um inimigo a ser abatido sempre que as instituições democráticas impõem limites ao exercício discricionário do poder.
Israel e a letalidade contra a imprensa
O quadro de deterioração democrática sob governos de extrema direita é ainda mais dramático em Israel. O país, que já havia caído 11 posições em 2025, atingindo o 112º lugar, continua em uma trajetória de colapso no indicador de segurança. Segundo a RSF e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), as forças israelenses foram responsáveis por dois terços de todas as mortes de jornalistas no mundo em 2025, transformando a região na mais letal para a profissão.
O autoritarismo do governo de Benjamin Netanyahu manifesta-se não apenas no campo de batalha, mas no fechamento de escritórios de veículos internacionais e na aprovação de leis que restringem a pluralidade e a independência editorial. O uso de drones para ataques direcionados e a criminalização da cobertura factual reforçam o padrão global: onde a extrema direita se consolida, o primeiro alvo é a liberdade de informar.
Cenário de alerta global
Além do aspecto político, a relativa estabilidade econômica do setor e a pluralidade da mídia nacional no Brasil foram destacadas. O fortalecimento de mídias públicas, rádios comunitárias e cooperativas digitais serviu como contrapeso à concentração de mercado. Contudo, o cenário global é de alerta: em 2026, mais de 60% dos países registraram piora em seus índices, tornando a recuperação brasileira uma exceção em um panorama de retrocesso democrático sob pressão de movimentos autoritários em diversas potências.