Privatização da Sabesp amplia reclamações e leva cidades paulistas a abrir CPIs

Levantamento mostra alta de 70% nas queixas após venda da companhia; moradores denunciam falta d’água, demora no atendimento e piora na qualidade do serviço

Foto: Reprodução

A explosão de reclamações contra a Sabesp após a privatização da companhia já provoca reação política em diferentes cidades de São Paulo. Levantamento publicado pelo UOL com dados da Arsesp, agência reguladora do setor, aponta que a média mensal de queixas registradas neste ano cresceu 70% em relação a 2025, saltando de 1.041 para 1.770 reclamações por mês.

O aumento levou câmaras municipais a abrir CPIs para investigar a prestação de serviços da empresa privatizada.

Os dados mostram crescimento expressivo em diferentes tipos de reclamação, principalmente sobre interrupção no abastecimento e suspensão do fornecimento de água.

Segundo os registros da Arsesp, as ocorrências ligadas à descontinuidade do abastecimento cresceram 224% no último ano.

Em março de 2026, foram contabilizadas 620 reclamações desse tipo, contra 200 em abril de 2025.

O avanço das queixas coincide com o período posterior à privatização da companhia.

O governo de Tarcísio de Freitas concluiu a venda da Sabesp em julho de 2024. A Equatorial Participações e Investimentos comprou 15% das ações e passou a exercer o controle da empresa dois meses depois. A operação arrecadou R$ 14,7 bilhões.

Além da alta nas reclamações oficiais, os indicadores de atendimento ao consumidor também pioraram. Dados do site Reclame Aqui apontam aumento de 72% nas queixas entre 2024 e 2025, passando de 19.159 para 33.036 registros. A nota média da companhia caiu de 3,21 para 2,38 no período.

Outro dado que chama atenção é o tempo médio de resposta da empresa aos consumidores. Segundo o levantamento, o prazo passou de 4 dias e 22 horas para 70 dias e 7 horas.

Falta d’água e água amarelada impulsionam revolta

Os relatos de moradores se espalham por diferentes regiões do estado. Na capital paulista, moradores denunciam interrupções diárias no fornecimento de água, principalmente no período noturno.

“Antes acabava por volta das 20h. Agora, às 18h já não sai mais água da torneira e isso todos os dias. Na casa da minha avó é a mesma coisa. Não dá para lavar a louça do jantar”, afirmou Jaqueline Santos, moradora do Jardim São Carlos, na zona leste de São Paulo, em depoimento reproduzido pelo UOL.

As reclamações sobre qualidade da água também aumentaram. Em cidades da região de Campinas, moradores relataram cheiro de mofo na água fornecida. Já em Itanhaém, no litoral sul, consumidores denunciaram episódios de “água amarelada”.

A capital concentra o maior número absoluto de reclamações registradas em 2025: foram 6.367 ocorrências. Em seguida aparecem Guarulhos (534), Osasco (467), Santo André (329) e Guarujá (309). Também figuram entre as cidades com mais registros São José dos Campos, Praia Grande, Carapicuíba, São Bernardo do Campo e Cotia.

Cidades abrem CPIs e classificam serviço como “desastroso”

O crescimento das denúncias levou vereadores e prefeituras a adotar medidas de investigação e pressão política contra a empresa.

Em Caraguatatuba, no litoral norte, uma CPI aberta em março apura aumentos expressivos nas contas, demora no atendimento ao consumidor, execução inadequada de obras de esgoto e cortes no fornecimento de água.

Já em Carapicuíba, na Grande São Paulo, a investigação foi concluída com um relatório que classificou o serviço prestado pela Sabesp como “desastroso”. O documento encaminhado à Arsesp cobra medidas urgentes da companhia.

Outras cidades também adotaram iniciativas semelhantes, entre elas Itatiba, Limeira, Monte Mor, Biritiba Mirim, Paulínia e Santa Isabel. Em Hortolândia, a prefeitura criou um comitê de crise para lidar com reclamações sobre cor e cheiro da água.

Na cidade de São Paulo, onde foi registrado o maior volume de reclamações, uma proposta de CPI com a mesma finalidade não avançou na Câmara Municipal.

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