Livro recupera trajetória de Inessa Armand e do feminismo socialista
Obra da italiana Ritanna Armeni, lançada no Brasil pela Cultrix, destaca papel de Inessa Armand nos debates sobre emancipação feminina e transformação social
Publicado 28/05/2026 08:40 | Editado 28/05/2026 19:07
“Se os trabalhadores eram explorados e oprimidos, as trabalhadoras enfrentavam condições ainda piores em uma escala cem vezes maior.” A frase escrita em 1920 por Inessa Armand sintetiza uma das discussões centrais do feminismo socialista no início do século 20: a relação entre emancipação feminina, trabalho e luta de classes. Mais de cem anos depois, Inessa ressurge no debate com o lançamento, no Brasil, de Revolucionária, Feminista e Amante de Lênin, da jornalista italiana Ritanna Armeni.
Publicado pela Editora Cultrix, o livro busca reconstruir a trajetória política e intelectual de Inessa, frequentemente reduzida, ao longo da historiografia tradicional, à sua relação afetiva com Vladimir Lenin. A autora sustenta que Inessa teve participação importante nos debates sobre emancipação das mulheres, educação, moral socialista e organização política feminina no interior do movimento bolchevique.
Cartas revelam a parceria política entre Inessa Armand e Lênin
Nascida na França e criada em Moscou, Inessa ingressou ainda jovem no movimento socialista russo. Militante do Partido Operário Social-Democrata Russo, participou da organização clandestina bolchevique, escreveu sobre a condição das mulheres trabalhadoras e atuou diretamente nos debates políticos que antecederam a Revolução de Outubro de 1917.

A aproximação com Lênin ocorreu durante o período de exílio político na Europa, a partir de 1909. Segundo Ritanna Armeni, a relação entre os dois era marcada não apenas pela proximidade afetiva, mas também por intenso diálogo político. O livro reúne correspondências e relatos históricos que apontam a participação de Inessa em discussões sobre organização partidária, educação e direitos das mulheres.
Uma geração de revolucionárias
A trajetória de Inessa Armand se conecta a uma geração de mulheres socialistas que ajudou a transformar a chamada “questão feminina” em tema central do movimento revolucionário do início do século 20. Entre elas estavam Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e Nadezhda Krupskaya, dirigentes que atuaram na organização política das mulheres trabalhadoras e na formulação do feminismo socialista.
Clara teve papel decisivo na organização internacional das mulheres socialistas e, em 1910, propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhagen. Já Nadezhda destacou-se na alfabetização de operários, na organização do movimento bolchevique e na mobilização das mulheres trabalhadoras na Rússia revolucionária. Alexandra, por sua vez, aprofundou os debates sobre trabalho doméstico, maternidade, sexualidade e autonomia feminina, defendendo políticas públicas voltadas à socialização do cuidado e à independência econômica das mulheres.
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Em comum, essas revolucionárias defendiam que a emancipação feminina não poderia se limitar à ascensão individual. Questões como exploração do trabalho feminino, dependência econômica, participação política das mulheres e a sobrecarga do trabalho doméstico passaram a ocupar lugar importante nas formulações do feminismo socialista.
Feminismo, trabalho e transformação social
Mais de um século depois dos debates impulsionados por Inessa Armand, Alexandra Kollontai e Clara Zetkin, temas como trabalho doméstico não remunerado, desigualdade salarial, feminização da pobreza e sobrecarga do cuidado seguem atravessando a vida de milhões de mulheres trabalhadoras. O retorno dessas discussões ajuda a explicar o interesse renovado pelas experiências do feminismo socialista e emancipacionista.
Nesse cenário, o livro de Ritanna Armeni também recoloca em discussão distintas concepções de emancipação feminina. Enquanto correntes do feminismo liberal concentram suas pautas sobretudo na ampliação da representação feminina em espaços institucionais e corporativos, a tradição das revolucionárias socialistas buscava relacionar a libertação das mulheres à transformação das condições materiais de vida e ao enfrentamento das desigualdades produzidas pelo capitalismo, pelo patriarcado e pela divisão sexual do trabalho.
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Ao longo do século 20, o feminismo emancipacionista desenvolvido por comunistas e socialistas articulou a luta das mulheres trabalhadoras aos debates sobre violência de gênero, direitos reprodutivos, sexualidade, racismo estrutural e opressões específicas que atingem especialmente mulheres negras, periféricas e pobres. Em vez de separar essas questões da luta social mais ampla, essa tradição procurou conectá-las ao combate às estruturas de exploração e dominação presentes na sociedade capitalista.
Mais do que revisitar uma personagem histórica, o livro de Ritanna Armeni ajuda a recuperar uma tradição política construída por mulheres revolucionárias que compreenderam a emancipação feminina não apenas como igualdade formal, mas como parte inseparável da luta por transformação social, autonomia das mulheres trabalhadoras e superação das múltiplas formas de exploração e opressão.