Entreguismo e soberania – quando a extrema direita pede intervenção estrangeira no Brasil
Reuniões de bolsonaristas com o governo Trump reacendem debate sobre ingerência externa, segurança pública e os limites da cooperação internacional.
Publicado 02/06/2026 10:44 | Editado 02/06/2026 10:45
A decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representa um dos episódios mais graves de interferência estrangeira nos assuntos internos do Brasil desde a redemocratização. Mais preocupante ainda é o fato de que essa medida tenha sido estimulada publicamente por Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente pelo PL e Eduardo Bolsonaro, seu irmão e parlamentar on-line que vive em autoexílio nos EUA, durante reuniões realizadas nos Estados Unidos, transformando um tema de segurança pública nacional em instrumento de disputa política internacional.
É evidente que PCC e CV são organizações criminosas violentas, responsáveis por milhares de mortes, pelo tráfico de drogas, armas e pela expansão do crime organizado em diversas regiões do nosso país. Combater essas facções é obrigação do Estado brasileiro. Entretanto, uma coisa é enfrentar o crime organizado dentro dos marcos da legislação nacional e da cooperação internacional entre polícias e órgãos de inteligência. Outra, completamente diferente, é abrir espaço para que uma potência estrangeira passe a enquadrar problemas internos brasileiros segundo seus próprios interesses geopolíticos.
A classificação de grupos criminosos como organizações terroristas não é uma simples mudança de nomenclatura. Nos Estados Unidos, esse enquadramento aciona mecanismos legais muito mais amplos, envolvendo sanções financeiras, monitoramento internacional, operações de inteligência e até justificativas políticas para ações extraterritoriais. Não por acaso, integrantes do governo Lula demonstraram preocupação de que esse precedente pudesse abrir caminho para formas de intervenção externa sobre questões que pertencem exclusivamente à soberania brasileira.
A experiência internacional mostra que a chamada “guerra ao terror” promovida pelos EUA frequentemente serviu para ampliar operações de inteligência e ações fora de seu território nacional. Ao longo das últimas décadas, a atuação da CIA esteve associada a operações clandestinas, monitoramentos ilegais e intervenções em diversos países sob o argumento do combate ao terrorismo. A história recente da América Latina conhece muito bem os resultados desse tipo de política.
O mais chocante é que essa iniciativa não partiu de uma demanda institucional do Estado brasileiro. Ela foi impulsionada justamente por setores da extrema direita nacional que decidiram buscar respaldo em Washington para pressionar o próprio país. As reuniões realizadas por Flávio Bolsonaro com integrantes do governo Trump e as declarações de Eduardo Bolsonaro comemorando a medida revelam uma postura incompatível com qualquer noção séria de defesa da soberania nacional.
Existe uma enorme diferença entre cooperação internacional e tutela estrangeira. O Brasil mantém relações com organismos de segurança de diversos países há décadas. Informações sobre tráfico internacional, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas são compartilhadas regularmente. O que está em discussão agora não é cooperação. É a tentativa de transferir para o centro do imperialismo o poder de definir como o Brasil deve tratar seus próprios problemas internos.
Não surpreende que a medida tenha ocorrido em um contexto de forte polarização política e às vésperas de uma disputa eleitoral. Não precisa ser nenhum gênio para deduzir que a decisão fortalece a narrativa política da família Bolsonaro, que tenta criar cortina de fumaça no envolvimento da família no Caso Vorcaro, maior escândalo de corrupção da história tupiniquim. Ao mesmo tempo, busca inventar constrangimentos diplomáticos para o país e projeta internacionalmente uma imagem de fragilidade institucional que não corresponde à realidade.
A contradição é evidente. Os mesmos grupos políticos que durante anos se apresentaram como defensores da pátria, da bandeira e da soberania nacional agora recorrem a uma potência estrangeira para interferir diretamente em assuntos internos do Brasil. O nacionalismo proclamado em discursos e redes sociais desaparece rapidamente quando os interesses eleitorais falam mais alto.
Além das implicações políticas, a medida pode gerar consequências econômicas e financeiras relevantes. Empresas, bancos e instituições que operam em regiões onde essas organizações possuem influência podem passar a sofrer monitoramentos e restrições adicionais. Há preocupação inclusive com impactos sobre investimentos e sobre a percepção internacional do ambiente econômico brasileiro.
O combate ao PCC e ao CV deve continuar sendo uma prioridade absoluta do Estado brasileiro. Mas essa luta precisa ser conduzida pelas instituições brasileiras, sob a Constituição brasileira e em defesa dos interesses nacionais. Nenhum país sério aceita que potências estrangeiras determinem os rumos de sua política de segurança. Ao estimular esse tipo de ingerência, Flávio e Eduardo Bolsonaro não fortalecem o Brasil. Fazem exatamente o contrário: enfraquecem a soberania nacional e reeditam uma tradição histórica de subordinação que sempre custou caro ao povo brasileiro. Em qualquer lugar do mundo, isso teria um nome simples. Chama-se entreguismo.