2020, o ano em que não morreremos de novo

O governo Bolsonaro tem sido terrível sim, mas que a vida tem resistido através das pessoas reais que não escrevem no jornal e não têm o privilégio de partilhar suas angústias.

Quando 2018 acabou eu tinha medo. Olhava para o ano seguinte com apreensão, um certo embrulho de estômago. Me parecia que o mundo estava de cabeça para baixo e alguém que discursava e promovia o ódio havia sido eleito presidente do meu país. Eu sentia medo das pessoas que votaram nele, sentia medo pelo futuro e pelas pessoas que, como eu, não concordam nem vivem de acordo com os preceitos da direita brasileira. Era uma sensação de sufocamento, como se a minha existência estivesse em risco mesmo sem ninguém me ameaçando diretamente. Era difícil respirar e o futuro próximo me parecia muito sombrio. Mas, como era inevitável, 2019 chegou.

Os primeiros dias foram atordoantes, com o passar dos meses as manchetes já não chocavam tanto e muito menos as estratégias de comunicação pública do governo, que seguindo o script da extrema-direita em outros países, provocam o caos e a desinformação. O Brasil 2019 teve absurdos diários propagados pelas próprias instituições e atores políticos, desde os filhos do presidente, seus ministros, deputados do partido e até ele próprio. E o governo formado por grupos heterogêneos – olavistas, bolsonaristas, militares, (neo)liberais, evangélicos – teve como discurso principal o ataque ao inimigo imaginário da esquerda globalista que até o ano passado estava transformando o Brasil na Venezuela.

Enquanto no plano simbólico testemunhamos violências faladas que estamparam os jornais, a realidade da máquina do Estado foi de um caminhar lento, mas tão pesado que destruiu boa parte do caminho. O protagonismo do legislativo na implementação da agenda política e econômica do novo Brasil se deu em parte por incompetência do executivo e em parte pela capacidade de atuação acumulada desde a redemocratização pelo Congresso Nacional do presidencialismo de coalizão.

A direita brasileira chegou ao poder e, com toda sua inexperiência em governar, governou. Aprovou a reforma da previdência, cortou bolsas de pesquisa, liberou agrotóxicos, ampliou o acesso a armas, anunciou escolas militares, discursou na ONU e em forúns internacionais, retirou a população LGBT das políticas de direitos humanos, assistiu a Amazônia queimando e as praias do nordeste cobertas de óleo, tuitou ameaças, fake news e zombarias. E neste primeiro ano de governo tivemos uma leve queda no desemprego decorrente do crescimento da informalidade, resultados negativos na indústria e no setor de serviços, além do aumento da pobreza e da desigualdade.

Muitas vezes ao longo do ano me perguntei que Brasil era este que se desenhava com o governo Bolsonaro, encarei perplexa muitas das notícias porque cresci acreditando que este era um país no qual gente pobre tinha a possibilidade de mudar de vida, cresci no Brasil da mudanças social, da redução da pobreza e ampliação do acesso à universidade, da política externa de excelência e renome internacional. Eu aprendi um Brasil que não era o ideal, mas que caminhava, corria, em busca de um futuro melhor para todos. Cresci com essa ilusão na cabeça e no peito. E assisti a minha ilusão de Brasil se esfacelar ao longo dos dias em 2019.

Em algum momento consegui refletir de que a minha ilusão de Brasil valia apenas pra mim e para quem teve experiências similares e ocupa um lugar semelhante ao meu na sociedade. Porque para o brasileiro que não teve acesso às oportunidades e privilégios que eu tive, esse país nunca caminhou para um futuro melhor. Me dei conta que o governo Bolsonaro só foi tão chocante pra mim porque ele agudizou uma situação que já era crônica para muitas pessoas. O brasileiro que vive sem acesso a direitos básicos e que não foi alcançado pelas políticas públicas de combate à pobreza e promoção dos direitos humanos vive há gerações o que senti neste ano: desalento, abandono, desesperança.

Enxerguei a soberba do meu discurso indignado com os retrocessos e me envergonhei da minha petulância de achar que sou resistência. É preciso olhar fora de si para entender que a vida é muito grande e que ela existe nos mais longínquos recôncavos há mais tempo do que posso imaginar. A minha indignação e tentativa de resistência são válidas, mas eu sou muito pequena diante da luta histórica de milhões de brasileiros que sempre tiveram seus direitos negados e batalham árdua e diariamente para sobreviver. Refletir sobre isso me fez perceber que o governo Bolsonaro tem sido terrível sim, mas que a vida tem resistido através das pessoas reais que não escrevem no jornal e não têm o privilégio de partilhar suas angústias. E essa reflexão me dá fôlego.

O próximo ano de governo Bolsonaro provavelmente será tão ruim quanto este, lutaremos contra novos e inúmeros retrocessos, perderemos muitas dessas lutas, mas permaneceremos de pé. E conjugo estes verbos últimos no plural porque a maior lição que 2019 e o governo da extrema-direita me ensinou é que não experienciei a vida sozinha e por isso, eu não apenas sobrevivi, mas aprendi a viver. Porque o homem (e a mulher) coletivo sente a necessidade de lutar.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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