A construção do Socialismo e a fé em deus

 

Sabe-se que a luta pela construção do novo e por consequência a superação do velho, seja em qualquer área, não é algo fácil. Muito mais complexo é o processo quando o que se quer transformar envolve os seres humanos, ou seja, quando envolve relações sociais. Uma conclusão que me parece óbvia é que, em face da complexidade das relações sociais, os que almejam a construção de uma nova sociedade não podem se isolar na luta política, pois isso só dificultaria sobremaneira seu projeto.

Não é de hoje que participo de cursos de formação, seminários e debates acerca do socialismo. Na maioria desses fóruns há mais encontros que desencontros – quando não tem algum esquerdista é claro –, principalmente no que se refere à nova fase na luta pelo socialismo. A recusa de copiar modelos e a não aceitação de dogmas, são exemplos dos consensos construídos entre os militantes menos aventureiros.

Entretanto, há uma questão que não é abordada nos fóruns e espaços de debates que entendo que já é chegada a hora de ser enfrentada, qual seja: a construção do socialismo e a fé em deus. Ninguém diz abertamente, mas nas entrelinhas sempre surge um ataque aos que creem em deus, por parte de nós marxistas, como se isso fosse o problema central da luta pelo socialismo.

Um dos pontos mais repetidos entre os que compartilham da visão que o Brasil não será transformado por pequenos grupos isolados e distantes da realidade da maioria do povo é que o socialismo não será construído por meio de uma tomada de assalto ao poder, pois, o socialismo deve ser obra da maioria do povo.

Se essa opinião é sincera, precisamos agir de forma coerente com ela. Não podermos ter um discurso num sentido e uma prática noutro. Se não for por coerência deve ser por inteligência. Primeiramente por uma questão numérica, pois segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 191,5 milhões de habitantes. Cruzando essa informação com outra, que diz que 84% dos brasileiros acreditam em existência de deus ou de um ser supremo(1), veremos que se pretendemos criar uma sociedade socialista no Brasil precisamos levar em conta a questão religiosa. Para ser mais direto devemos respeitar a opção religiosa de todos.

Para que não paire dúvidas acerca da impossibilidade do isolamento por parte dos marxistas, essa mesma pesquisa, mencionada a cima, indicou que no Brasil, apenas 3% dos entrevistados declararam que não acreditam em deus, deuses ou seres supremos. Ora, acho que já está claro que num país como o Brasil não mudaremos nada sozinhos. Então, quem deseja realmente transformar o Brasil não pode ser dogmático e deve levar em conta a questão da religião e sua influência na vida de milhões de homens e mulheres.

Não é de hoje que encontramos nos movimentos sociais grandes combatentes vinculados a igrejas, o papel de destaque desses militantes é inegável na mobilização e organização das lutas do nosso povo. Na minha opinião cabe  aos marxistas ganhar os corações e as mentes desses lutadores do povo para o projeto socialista, pois se não vincularem-se à luta pelo socialismo acabarão por fortalecer outro projeto.

Há um grande número de militantes sociais que lutam contra a exploração, contra a desigualdade, enfim lutam por uma sociedade justa. Não é o fato de acreditarem em deus ou em um ser supremo que irá desqualificar seu papel na luta política. Qualquer organização que pretenda ser uma alternativa política real para a maioria do povo brasileiro precisa entender as particularidades da subjetividade desse povo e respeitá-las, buscando uma grande unidade do povo em torno de questões concretas.

A luta pelo socialismo é um processo histórico-político que se iniciou há pouco tempo – de 1917 (marco inicial da primeira tentativa de implantação do socialismo) até os dias de hoje não se passaram cem anos. Do ponto de vista da história isso não representa nada para a humanidade. Entendo que vivemos uma nova fase na luta pelo socialismo, nesse momento o que carregamos do passado é o compromisso com o ser humano, com o fim da exploração, enfim, nosso compromisso é com o que há de mais belo e justo. Esse processo de construção envolverá a participação de ateus, católicos, evangélicos, espírita, umbandistas, enfim, de todos e todas e não obra de um grupo restrito de pessoas.

Pesquisa da empresa de pesquisa de mercado Ipsos para a agência de notícias Reuters (abril de 2011).

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