A última linha de defesa: bandeira vermelha hasteada

“As organizações muitas vezes são conhecidas por algumas características próprias que as tornam únicas. Isso significa que elas desenvolvem e possuem uma cultura própria. E essa cultura é sua identidade, construída no decorrer dos anos. “

“– Camarada comandante, nosso destacamento abateu hoje perto de cem fascistas, mas fomos cercados. Decidi atacar para romper o cerco e nos possibilitar uma saída…Muito bem. E por que não voltou a emboscar-se na estrada?

– Camarada comandante, fomos perseguidos…

– Perseguidos? …
Berrei esse nome, sufocado pelo ódio e pela ira.

– E você ousa dizer-me isso para tentar uma justificativa? O inimigo declarou que nos perseguiria até os confins dos Urais. E você acredita que consentiremos nisso? Deseja que abandonemos Moscou e todo nosso território, para vir em seguida contar às nossas famílias, a nossos velhos, a nossas mulheres, que eles nos perseguiram? Hem? Responda-me!
Brúdny calava-se. (…)

Novamente se fez ouvir ao longe um ruído surdo de canhoneio.

– Está ouvindo? Os alemães estão lá, atrás de nós. Aproximam-se de Moscou. Nossos irmãos estão lutando e morrendo. Nós estamos aqui para proteger-lhes o flanco, e eles confiam em nós, em nossa coragem. Eu também tive confiança em você, confiei-lhe esta estrada, acreditando que iria defende-la. Você teve medo. Fugiu. Acredita que apenas abandonou a estrada. Mas na verdade você entregou Moscou”.

BEK, ALEXANDR. In: Às portas de Moscou. Pags: 158-159.

Além da posição estratégica da cidade de Volokolamsk e da importância de sua estrada de acesso à Moscou, o trecho do diálogo acima mantido entre o tenente Brúdny e o comandante Baurdjan Momych-Uli, retratado no romance de 1944 de Alexander Bek, intitulado “Às portas de Moscou”, revela também todo o simbolismo de se manter as posições, mesmo às custas de um colossal sacrifício humano.

Na política e na guerra, alguns símbolos e posturas são vitais. O destacamento do tenente Brúdny falhou ao não entender a dimensão da batalha pela manutenção daquele trecho da estrada e ter batido em retirada. Mesmo em algumas situações adversas não se pode recuar.

Algumas posições se dão no campo subjetivo para se manter o moral elevado da tropa. Tem a ver com a autoconfiança. Diz respeito ao orgulho de se pertencer a uma determinada organização. Isso é preponderante tanto a um exército vitorioso como para um partido político centenário ou até mesmo para uma empresa capitalista.

De acordo com Oliveira e Medeiros (2011), as organizações muitas vezes são conhecidas por algumas características próprias que as tornam únicas. Isso significa que elas desenvolvem e possuem uma cultura própria. E essa cultura é sua identidade, construída no decorrer dos anos. Uma das características marcantes do Exército Vermelho sempre foi a resiliência no campo de batalha, adquirida pela confiança em torno do Partido Comunista e seus ícones.

Nesse sentido, é fundamental que se entenda que cada instituição – seja ela pública, privada, ou do chamado terceiro setor (movimentos sociais) – tem uma cultura singular e a mesma não pode ser compreendida sem se considerar os valores culturais das pessoas que fazem parte da sua estrutura organizacional (SCHEIN, 2009).

No caso específico de um partido político de esquerda, de inserção popular e com destacada atividade militante, essas características próprias – que marcam tais agremiações no imaginário da sociedade – são aquelas relacionadas à defesa dos mais pobres em especial e dos trabalhadores em geral, que atuam contra as desigualdades sociais, propugnam a solidariedade entre povos e nações, e se opõem às guerras imperialistas, entre outras bandeiras marcantes e históricas que identificam o movimento operário em todo o mundo.

Mas um Partido Comunista, como o PCdoB, tem uma cultura organizacional ainda mais específica dentre os demais partidos de esquerda e movimentos sociais. Contribuiu para forjar sua cultura própria, o fato de o PCdoB ter sido o mais perseguido pelas ditaduras, completando, em 2019, seu período mais longevo de legalidade: 34 anos. De toda a sua história de 97 anos de existência, esse partido passou por várias fases de clandestinidade e a maior parte de sua vida esteve na ilegalidade imposta por diversos governos. Nunca recuou de seus símbolos e de suas convicções revolucionárias.

Mesmo quando a direção partidária eleita em 1960 mudou o nome do Partido e efetuou alterações em seu estatuto para pretensamente atender às exigências da justiça eleitoral da época, incluindo-se a retirada de toda referência ao internacionalismo proletário, ao marxismo-leninismo e ao comunismo, um grupo de revolucionários negou-se a entregar a estrada ao inimigo, mantendo-se firme a posição de defesa.

Hoje, com o advento das redes sociais e da chamada transversalidade da atuação militante, muito dessa cultura organizacional vem sendo modificada sem que um debate mais profundo seja promovido nas fileiras da esquerda em geral e do PCdoB em especial.

É perfeitamente possível se “modernizar”, incorporar na estrutura organizacional as diversas ferramentas de marketing enquanto atividade-meio, sem perder a perspectiva da atividade-fim: o socialismo.

Assim sendo, a foice e o martelo e a cor vermelha que tinge a bandeira do Partido Comunista do Brasil deve continuar sendo inegociável. Por mais que esse Partido seja perseguido do ponto de vista eleitoral, esta é a última linha de defesa. A partir daqui nenhum soldado pode bater-se em retirada.

Uma vez abandonada a foice e o martelo qual será a próxima capitulação? Renunciar ao centralismo democrático? Tirar de seus materiais as referências a Marx, Engels, Lênin e tantos outros revolucionários?

A política se faz no campo material. Mas também no imaterial. No tangível e no intangível. No concreto e no abstrato. A cultura organizacional do PCdoB leva em conta também essa marca indelével, a foice e o martelo, herdada de um movimento que é internacional e envolve milhões de trabalhadores do campo e da cidade há várias décadas.

Muito sábia a decisão do Comitê Central do PCdoB em torno de um movimento frentista, mais amplo, que pode e deve prescindir de alguns signos peculiares aos marxista-leninistas.

Mas o Partido não deve esconder a sua cara, renunciar sua essência, ou negar sua identidade. Uma vez que se submeter a essa fuga, deixando cair a bandeira vermelha, não nos restará mais nenhuma resistência ao cerco inimigo. No máximo um cessar fogo.

Referências:
BEK, A. Às portas de Moscou. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 1990.

OLIVEIRA, J. A.; MEDEIROS, M. P. M. Gestão de Pessoas no Setor Público. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração: UFSC, 2011.

SHEIN, E. H. Cultura organizacional. São Paulo: Atlas, 2009.

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