É preciso resistir

“A vitória de Bolsonaro não representou uma alternância democrática de poder, salutar e desejável a toda democracia que se presta”.

Encerrar 2019 é encerrar um ano que deixará muitas marcas na história do Brasil. Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em 1985, o país vive um clima crescente de incertezas, intolerâncias e descaminhos. O Brasil, sob a presidência de Jair Bolsonaro e da ascensão política de setores religiosos e militares sectários, tem vivido dias que remontam ao obscurantismo medieval. O autoritarismo via eleições diretas e manipuladas pela internet chega ao fim de seu primeiro ano de governo.

A vitória de Bolsonaro não representou uma alternância democrática de poder, salutar e desejável a toda democracia que se presta. Ao contrario, sua obstinação em rasgar as conquistas obtidas pela Constituição de 1988 e tornar o Brasil um país com menos direitos sociais e políticos, fazem de seu governo uma máquina autoritária. Recorrentemente jornalistas são agredidos e assediados moralmente no Palácio da Alvorada, algo que era comum na ditadura. O AI 5, que representou um golpe dentro do golpe, pois tamanha era sua atrocidade, é tratado com naturalidade e referendado como prática por altos funcionários do governo. Em vários momentos ao longo do ano, vozes amparadas pelo governo pediram o fechamento do STF, do Congresso Nacional e uma intervenção militar, revelando total desprezo pela democracia.

Internacionalmente, a imagem do Brasil em 2019 não poderia ser pior. O país ficou marcado pela intromissão indevida em assuntos internos de outros países como foram os casos da Venezuela, da Argentina e da Bolívia. Votou isoladamente com EUA e Israel o absurdo embarco político e econômico a Cuba. Não se comprometeu com o acordo sobre mudanças climáticas e, pior ainda, estimulou o desmatamento, as queimadas e ofendeu a jovem líder mundial Greta Thunberg. Além disso, teve uma ação desastrada nos assuntos do Oriente Médio e em sua relação com a China, principal parceiro comercial do Brasil. A diplomacia de Bolsonaro, caudatária dos interesses norte americanos, termina o ano implorando a Trump para que esse não sobretaxe o aço e o alumínio brasileiro.

Mas foi indubitavelmente no plano das conquistas sociais e políticas que o ano de 2019 não deixará saudades. As forças de seguranças, empoderadas por um governo que faz apologia a todo tipo de violência, mataram como nunca, especialmente jovens e negros das periferias do Brasil. As ocorrências de racismo, homofobia e feminicídio, bateram recordes e, muitas vezes, foram secundarizadas pelo governo. As universidades públicas e a comunidade científica passaram a ser alvos ideológicos preferenciais e sofreram inúmeros ataques, o mais recente fere a autonomia universitária e a escolha de reitor. O clima sob o governo Bolsonaro é tão fascistizante, que terminamos o ano com um ataque a bomba na sede do grupo Porta dos Fundos e um vídeo com grupo com símbolos do movimento integralista assumindo a autoria do crime, algo que nos remete ao atentado do Rio Centro e às bombas em bancas de jornal em plena ditadura militar.

A vida anda ruim na aldeia, mas é preciso resistir. Com uma economia claudicante, um desemprego absurdo e o aumento da miséria nos resta acreditar que 2020 pode ser o ano da retomada do Brasil para um futuro mais radiante do que tenebroso. Como dizia Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem”.

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