O ruído como arquitetura invisível em “O Som ao Redor”
Filme de Kleber Mendonça Filho transforma sons cotidianos, vigilância e paisagem urbana em linguagem para expor medo, classe e violência latente no Recife.
Publicado 07/04/2026 12:49
Em “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, a paisagem urbana do Recife não se impõe como espetáculo visual.
Ela se apresenta como um campo sensorial em permanente estado de alerta. Mais do que uma organização geométrica da opressão, o filme constrói uma ecologia do desconforto na qual espaço e som se entrelaçam para materializar uma tensão social difusa, porém constante.
A arquitetura residencial com seus muros altos, cercas elétricas, portões automáticos e guaritas não funciona apenas como cenário. Ela atua como um índice histórico de segregação e medo. Ao contrário de uma estilização rígida ou ostensivamente formalista, esses elementos surgem integrados à banalidade do cotidiano. O enquadramento por vezes sugere contenção. Corpos aparecem atravessados por grades, vistos por frestas ou delimitados por portas e corredores.
Ainda assim, essa sensação de confinamento não se organiza como um sistema visual absoluto. Ela se manifesta como uma recorrência discreta que infiltra o olhar sem se impor como regra.
É no som que o filme encontra sua verdadeira arquitetura. Latidos de cães, alarmes intermitentes, portões que rangem, passos fora de campo e ruídos urbanos indistintos formam uma camada sensorial que excede a imagem e a desestabiliza. O que se escuta raramente coincide plenamente com o que se vê. Surge então uma dissociação contínua entre o espaço visível e o espaço vivido. O bairro deixa de ser apenas um território físico e passa a operar como uma zona de reverberação.
O medo não precisa se mostrar, pois já se faz presente como frequência.
A câmera acompanha essa lógica com uma observação paciente e muitas vezes distante. Recusa o dramatismo e também a estetização excessiva. Existe uma frieza calculada, mas nunca mecânica. O olhar não vigia de forma explícita. Ele sugere que tudo já está sob vigilância. O efeito não é o de controle visível. É o de uma normalidade saturada por tensões invisíveis.
A luz não dramatiza. Ela revela.
Predominantemente natural ou funcional, mantém os ambientes ancorados em uma aparência cotidiana. Quando o artificial emerge em garagens ou espaços noturnos, ele não transforma radicalmente a imagem. Ele introduz uma inflexão sutil, um endurecimento quase imperceptível que acompanha o regime de suspeita instaurado.
A obra não constrói um labirinto visual no sentido clássico. O que se forma é um território sensorial fragmentado, onde cada elemento arquitetônico, sonoro ou humano participa de uma coreografia silenciosa de desconfiança. O medo não se apresenta como evento. Ele se manifesta como atmosfera.
A cidade não surge como estrutura fechada. Ela aparece como um organismo poroso onde passado e presente, privilégio e violência, coexistem em uma tensão que nunca se resolve e apenas se propaga.