Um presidente do baixo clero

A agressividade, a descompostura e a beligerância são sintomas de um executivo incapaz de coordenar a nação.

Jair Bolsonaro - Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Bolsonaro atravessou a Praça dos Três Poderes rumo ao STF, acompanhado de empresários, para pressionar o poder judiciário pelo fim do isolamento social. Esta travessia tão simbólica tem sentidos múltiplos. Primeiro, a ameaça do Executivo sobre o Judiciário em uma clara demonstração de autoritarismo do presidente. Segundo,  o indicativo de que o chefe da nação não pretende recuar quanto ao enfrentamento da pandemia; para ele, as mortes de pessoas pouco importam, a preocupação de Jair Bolsonaro é com “a morte de CNPJs”. 

A História nos ensina que recuar na política nem sempre é sinônimo de derrota. Uma característica indispensável da liderança política é justamente avaliar o melhor momento de prosseguir ou pausar. Negociar, saber conduzir com frieza momentos de tensão, chegar a consensos são valores imprescindíveis para a democracia, principalmente quando as decisões demandam articulação de inúmeros atores, como é o caso do momento atual. 

Em um presidencialismo de coalizão tão complexo como o nosso, a demanda por vozes de convergência é praticamente um imperativo. Com um sistema político que sobrevive da acomodação de interesses regionais, a costura de acordos sempre esteve presente na pauta do dia, em uns governos mais e em outros, menos.

No ápice do lavajatismo, no impeachment de Dilma Rousseff, a distribuição estratégica de recursos políticos (cargos e apoios em ministérios) foi criminalizada à última potência, num deslocamento semântico sobre o que significa base de coalizão. Este fenômeno levou o projeto da extrema-direita ao poder. Bolsonaro assumiu a presidência com uma promessa utópica da “nova política” em que os acordos políticos seriam, num passe de mágica, eliminados da esfera pública.

As dificuldades encontradas no início do governo em montar uma plataforma conjunta, mesmo com a maior bancada do congresso, foram se agravando com o passar do tempo e o resultado mais explícito disso pode ser observado com os principais êxitos até então: todos foram frutos de uma articulação do legislativo, que não teve nenhum membro do governo como protagonista.

A nova política fracassou, e não poderia ser diferente. Nunca foi efetivamente colocada em prática. Com uma capacidade reduzidíssima de diálogo, Bolsonaro provou levar suas qualidades de baixo clero para a presidência. Trata-se de um presidente do baixo clero, de uma categoria menor, que não compreende as nuances do exercício da política.

A agressividade, a descompostura e a beligerância são sintomas de um executivo incapaz de coordenar a nação. Esta inclusive foi a principal repreensão do ministro Dias Toffoli em relação à Bolsonaro: a coordenação entre os entes federados. Ele não veio até hoje e não virá. E por um motivo simples, os sussurros no ouvido do presidente não acreditam nesta via de resolução de conflitos.

Por isso mesmo as carreatas pedindo intervenção militar, por isso os impropérios ditos até hoje. Não há negociação com este núcleo político e temos de nos acostumar com este fato. Com o desembarque do lavajatismo como sustentação do governo, o discurso tende a se acentuar ainda mais. Aqueles que falam em nome da democracia não adjetivam-na em um tom democrático. Pelo contrário, usurpam o seu sentido porque o processo democrático é pejorativo para eles. 

Aqueles que se arvoram de manter a ordem só o fazem porque o processo democrático nunca os receberia de braços abertos. Os sinais de um regime autoritário estão todos aí, precisamos apenas chamá-lo pelo nome que lhe cabe.

Artigo elaborado em coautoria com o cientista político Hesaú Rômulo.

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