100 anos sem John Reed: A melhor crônica da Revolução Russa

Jornalista norte-americano – que morreu há cem anos, em 19 de outubro de 1920 – estava em Petrogrado quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. Ali viu os fatos, conversou com protagonistas, entendeu os mecanismos e fez um livro inesquecível

Portrait of John Silas Reed (1887?1920). (Photo by Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images)

O jornalista John Reed estava lá em 1917 quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. O norte-americano fez, no livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, um relato inesquecível sobre o que tinha acontecido. Tanto o impactou que ficou em Moscou, onde faleceu três anos depois.

Falam da crônica, insistem na crônica, importunam com a crônica. E falam como se tivesse começado anteontem, quando, na verdade, começou muito antes de ontem. Heródoto, César, Ibn Battuta, Álvar Núñez, Sterne e Stendhal – por exemplo – são cronistas extraordinários. Mas nenhum deles teve de contar algo tão decisivo como John Silas Reed.

Seu nome era John, mas era chamado de Jack; nasceu em 22 de outubro de 1887 em uma mansão de Portland, Oregon, rodeado de criados chineses e babás inglesas – o filho da filha de um empresário milionário. Aos 18 anos, foi estudar em Harvard e ali – alto, bonito, simpático – entrou em todos os clubes, praticou todos os esportes, escreveu em todas as revistas. Mas também foi a reuniões do pequeno grupo socialista, e esse detalhe mudou sua vida.

Por isso, quando se formou, em vez de passar uma temporada na Europa como um dândi, foi trabalhar em um navio de transporte de gado; quando voltou, instalou-se no Village de Nova York e fez reportagens para revistas iracundas e escreveu poemas. E se meteu em greves de trabalhadores e foi preso quatro ou cinco vezes e viajou para contar a revolução mexicana e se casou com a escritora feminista Louise Bryant e tiveram um relacionamento semiaberto e ele voltou à Europa para ver a guerra e escreveu que era uma briga de capitalistas em que morriam operários e, quando seu país entrou nela, se opôs com veemência e foi alvo de repúdio e maus-tratos. Mas nada disso seria memorável se não tivesse tido a astúcia de entender onde valia a pena estar: aí costuma estar a diferença.

Em agosto de 1917, Reed e Bryant viajaram para São Petersburgo – que na altura já se chamava Petrogrado – para ver de perto o movimento que havia derrubado o czar seis meses antes. Tudo era confusão, tudo esperança – e pretendiam contar essa história. Reed estava ali em outubro de 1917, quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. Ali viu os fatos, conversou com os protagonistas, entendeu os mecanismos, escreveu um livro inesquecível.

Ten Days that Shook the World (Dez Dias que Abalaram o Mundo) continua sendo um modelo e continua sendo o melhor relato sobre a Revolução Russa. Obviamente não era neutro: o jornalismo nunca o é, não pode sê-lo. Foi há exatamente um século – e, até hoje, nem o tempo nem as revoluções nos convenceram de que cem anos são só uma convenção.

Jack Reed completou 30 anos em meio ao triunfo bolchevique, mas não chegou a completar 33: cinco dias antes, em 17 de outubro de 1920, morreu em um hospital de Moscou e foi enterrado – honra das honras – no Kremlin.

Texto baseado em artigo do jornalista argentino Martín Caparrós, publicado no El País em 26 de outubro de 2017, no centenário da Revolução Russa

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