Entre referências literárias e filosóficas, o artigo reflete sobre como a imaginação molda nossa percepção do mundo sem romper os vínculos com a experiência concreta.
Publicado 26/06/2026 11:50
A imaginação é a faculdade psíquica mais complexa e a mais importante da espécie humana. Até Einstein já dizia ser ela mais importante do que o próprio conhecimento, do que a razão. Porém, ela não nasce do nada: a imaginação responde a estímulos, criações, contextos históricos e geográficos; ou seja, ela é fruto do meio em que o ser humano a cria e vive.
A imaginação sustenta a beleza e a dignidade da vida. Não conseguimos viver sem confabular — como já diria Antonio Candido em seu ensaio O direito à literatura —, sem sonhar; é preciso usar essa capacidade para que possamos lidar com a realidade fria, superficial, aparente e utilitária. Nossa humanidade se faz não apenas com o uso das coisas e com a rotina do cotidiano, mas com o significado que atribuímos aos nossos desejos, interações, relações, experiências e conhecimento. O devaneio, mais do que o sonho, é a parte que nos expande, embora seja um caminho solitário e às vezes confuso — algo que Rousseau já havia descoberto em suas Rêveries.
Nos Estudos Literários e na Semiótica, temos uma discussão bastante complexa sobre o que é a ficção e o que é a realidade. A capacidade de ficcionalizar o presente ou a capacidade de transformar a ficção em matéria viva é amplamente debatida. Discutimos se a ficção é capaz de transformar a realidade com a mesma força com que a realidade se transforma em ficção, e vice-versa. Sabemos que o passado é sempre um discurso construído, uma narrativa criada e, como narrativa, também não deixa de ser ficção. Há uma reinterpretação constante dos fatos e, quando fazemos isso, estamos reelaborando o que já foi discursivamente de novo. Por ora, o que existe é apenas o que vivemos no instante presente. Esse é o real que passa a cada dose de segundos que correm no relógio. O real é efêmero e, muitas vezes, um lugar da ausência de nossos desejos.
Infelizmente, a maioria das pessoas não consegue viver o momento em que está no tempo; perdem o discernimento total da situação e só enxergam os seus erros depois de muito tempo. É que determinados acontecimentos só nos são desvendados à luz da razão, posteriormente ao sangue quente. E, no cismar sozinhos à noite, é que elaboramos a narrativa de modo mais consciente. Sem elaborar e reelaborar os fatos por meio do discurso, é como se o que sucedeu nunca tivesse acontecido. O problema se dá quando não sabemos se o que está operando é a confabulação de uma história do que queríamos que tivesse acontecido ou se realmente foi daquele jeito que aconteceu.
Um exemplo é o conto A Missa do Galo, de Machado de Assis. O personagem protagonista relembra um fato acontecido na adolescência, numa noite de Natal. Para o protagonista, ele finalmente descobre, já com certa idade, a sedução da mulher mais velha que estava com ele naquela noite — sedução que ele não percebeu sendo um adolescente. A narrativa de Machado de Assis não permite que tenhamos certeza de nada: quem narra agora o conto é o protagonista já mais velho, e não o jovem. A ambiguidade se estabelece porque não sabemos se realmente Conceição, uma mulher mais velha, o queria assim meninote, ou se é uma percepção construída por um adulto que olha para o passado agora com a interpretação de alguém de sua idade. Será que realmente ele não percebeu essa paquera na época? Indagamo-nos ao deslizar nossos olhos pelo texto.
Aliás, Machado de Assis é mestre nisso: em criar situações ambíguas através de seus personagens protagonistas que apresentam a narrativa e os fatos apenas em suas versões unilaterais, sem a resposta do outro lado. Simplesmente, os acontecimentos pareciam ser mais criações fictícias das mentes de seus personagens do que pedaços palpáveis do mundo. E é por isso que perguntamos até hoje se Capitu realmente traiu Bentinho ou se o ciúme de Bentinho era por Capitu mesmo — de repente, poderia ser pelo Escobar…
A literatura em si sempre coloca essa pulga atrás da orelha; os escritores adoram criar personagens ambíguos que inventam realidades paralelas para fugir de lugares e mundos diminutos. O chamado tempo psicológico nada mais é do que a confabulação do narrador-protagonista ou de outro personagem com duas finalidades: ou de empreender no autoconhecimento ou de fugir realmente de quem se é e da realidade aparente, a qual se apresenta como um mundo tedioso e sem graça.
O maior exemplo de sempre na literatura dessa confabulação artística fugitiva é Dom Quixote. Dom Quixote adorava ler os romances de cavalaria e queria ser um herói de um deles ao invés de se enxergar como um homem de meia-idade que não aceita o desatino da idade que avança — um fidalgo decadente, solitário, de corpo magro e seco. Assim, querendo se ver como um herói valente, jovem e forte, Dom Quixote começa a viver as fantasias que confabula, e não a realidade que vive. Os moinhos de vento se transformam em monstros e uma mulher desengonçada se transforma na sua linda e doce Dulcineia. A realidade, quando batia à porta, fazia Dom Quixote cair do cavalo.
Era muito melhor viver sua ilusão de todo dia, enfrentar moinhos de vento, do que viver a insignificância real olhando para o seu tamanho mínimo diante de uma narrativa de tanta beleza e valentia como uma novela de cavalaria. O que esse personagem não sabia é que a vida real também exige coragem — mas muita coragem —, e que a beleza dela está no enfrentamento de sua verdade, nem que para isso tenhamos que trabalhar também na confabulação do instante. Enfrentar quem se é com todas as suas falhas e dificuldades, ver sua musa como é com todos os seus defeitos e, mesmo assim, decidir seguir adiante é de uma valentia sem igual, porque realmente é segurar a vida entre as mãos, e não uma espada e uma armadura de papelão.
Imagina se Dom Quixote pudesse encontrar com Rousseau em um de seus devaneios do caminhante solitário? O que um diria para o outro? Seriam o côncavo e o convexo finalmente encaixados? Querer que os devaneios se tornem realidade exige trabalho, enfrentamento e persistência. Exige também assumir suas contradições. Embora os sonhos não possam ser guardados e mereçam ser vivificados sempre! Da estante de nossos pensamentos, eles respondem também ao que internamente somos. O mais interessante é quando estes na verdade respondem a um apelo coletivo, uma psique social, e talvez nem sejam para serem realizados por nós, mas por gerações futuras ou por pessoas de lugares distantes, como foram, por exemplo, os sonhos de Leonardo da Vinci. Por isso, senhores, não deixemos de confabular, sim, mas sem perder o limite entre os mundos e sem deixar de nos enxergar como realmente somos. No reflexo de nossas fraquezas e divisões, diante de uma realidade acachapante, é que podemos agarrar as vitórias de nossos ímpetos que não se entregam nem ao delírio e nem ao tédio. Pura resistência de quem entende que o dia de hoje, a vida real, também merece virar história, narrativa e poesia.