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Publicado 30/11/2006 18:24 | Editado 13/12/2019 03:30
Com a pata quebrada,
rastejando na avenida,
o pêlo sujo de barro e sangue.
Animal agonizante,
alvo da inútil
e fútil
comiseração pública.
Os imensos olhos,
duas lagoas baças
poluídas de dor
e tristeza.
(Até que alguém chega
e diz:
– A pata partiu-se,
é preciso poupá-lo…)
O ciúme, a vingança, a mesquinhez,
dançando e se despindo,
esplêndidas odaliscas
ovulando sedução.
Saberá o meu coração resistir?
A serpente
fita fita fita fita fita
sibila sibila sibila sibila sibila
hipnotiza
o meu gigante coração
que se vê reduzido
a um animalzinho trêmulo.
O mundo da corrupção
corromperá também meu coração?
Mas mesmo pulsando
dentro de um animal
inutilizado,
ele se recusa a bombear fel.
Aconselham-me armadilhas
para capturar e infelicitar,
o meu coração vem
e desativa as engrenagens do ódio
e diz:
-Que ela seja feliz!
E das arquibancadas
alguém grita:
– Teu coração é um bobo.
Pode até ser,
mas é o único
que tenho.
Verbos do Amor & Outros Verbos – Adalberto Monteiro.