Cem anos sem John Reed: o filho da burguesia que defendeu o operariado

Morto há cem anos, o autor de Dez Dias que Abalaram o Mundo estudou em Harvard, defendeu direitos dos trabalhadores e está enterrado junto ao muro do Kremlin. Sua vida extraordinária inspirou cineastas e escritores

A semana é marcada por duas efemérides sobre o jornalista norte-americano John Reed: os cem anos de sua morte precoce (em 19 de outubro de 1920, em Moscou, na Rússia) e os 133 anos de seu nascimento (a 22 de outubro de 1887, em Portland, Oregon, nos Estados Unidos).

A vida de Reed foi tão extraordinária que inspirou diretores de cinema dos dois lados do oceano durante a Guerra Fria. Um deles, Reds (1981), de Warren Beatty, levou três estatuetas do Oscar. Já na União Soviética, Serguêi Bondartchuk produziu um épico de duas partes, Red Bells (1982), baseado na vida de Reed.

Criado num ambiente de classe alta no noroeste do oceano Pacífico durante a virada do século 20, Reed formou-se em Harvard e mostrava interesse por questões sociais, além de participar de encontros de grupos socialistas. Três anos depois de completar seus estudos, começou a trabalhar com a revista esquerdista The Masses, de Nova York, que publicava artigos de radicais proeminentes daqueles tempos. Defensor ferrenho da justiça social, cobria greves das fábricas de seda em Nova Jersey e dos mineiros de carvão no Colorado.

Após essas experiências, ele foi enviado para cobrir a Revolução Mexicana (1910-1920). Chocado com a exploração dos trabalhadores e com a ingerência de Washington no México, Reed registrou: “O governo dos EUA está realmente determinado a civilizá-los na base do rifle, um processo que consiste em empurrar à força a etnias diferentes e com temperamentos diferentes nossas próprias Grandes Instituições Democráticas: refiro-me ao governo de truste, ao desemprego, à escravidão dos salários”.

A série de artigos que o jornalista escreveu no México foi publicada posteriormente em um livro intitulado México Insurgente e reforçou sua reputação como correspondente de guerra. Quando a 1ª Guerra Mundial eclodiu na Europa, Reed viajou ao velho continente em duas ocasiões, o que levou à publicação de seu segundo livro, A Guerra no Leste Europeu.

Mas sua obra mais famosa, Dez Dias que Abalaram o Mundo, publicado em 1919, não era sobre guerra – mas, sim, sobre a rebelião. O livro-reportagem descreve eventos da Revolução Russa e é considerado uma obra-prima do gênero.

Reed visitou a Áustria em agosto de 1917 e testemunhou como os bolcheviques tomaram o poder. Ao saudar o levante, revelou-se um partidário entusiasmado do novo regime socialista. “Então, com o estampido da artilharia, no escuro, com ódio e medo, uma ousadia negligente, a nova Rússia estava nascendo”, escreveu.

Ele conheceu pessoalmente dois líderes do levante bolchevique, Vladímir Lênin e Leon Trótski, e era um grande fã do partido bolchevique. “Em vez de força destrutiva, parece que os bolcheviques formavam o único partido na Rússia com um programa construtivo e poder para impô-lo no país”, escreveu Reed em Dez Dias que Abalaram o Mundo.

O livro foi bem recebido por Lênin. “Eis um livro que eu gostaria de ver publicado em milhões de cópias e traduzido para todas as línguas. Ele dá uma exposição realista e a mais vívida de eventos tão significativos para a compreensão do que realmente é a revolução Proletária e a Ditadura do Proletariado”, escreveu Lênin na introdução ao tomo de 1922.

A obra de Reed foi tão elogiada pelo público que até o diplomata norte-americano Geroge F. Kennan – que não fomentava nenhuma simpatia pelos soviéticos – teceu comentários positivos: “O relato dos eventos daquele tempo feito por Reed se destaca entre outros registros contemporâneos por sua força literária, sua penetração, seu comando dos detalhes”.

Lembrado tanto por sua escrita brilhante quanto por seu ativismo político, Reed também foi fundamental para o estabelecimento do Partido Trabalhista Comunista da América. Ele ainda participou, pouco antes de sua morte, do congresso do Comintern, que advogava pelo comunismo internacional, na capital russa.

Jonh Reed morreu em 1920, em Moscou, após contrair tifo, aos 32 anos de idade. Ele recebeu um funeral estatal e foi enterrado junto ao muro do Kremlin, onde estão depositados os restos mortais das mais célebres figuras soviéticas. Sua vida inspirou diretores e escritores – e Reed será para sempre louvado como bastião da justiça e da integridade no jornalismo. Ele era um verdadeiro homem do povo.

Com informações do Russia Beyond

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