Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, é poeta, tradutor e ensaísta
Publicado 20/02/2026 19:06
OGRO
Para Donald Trump
I
olho de cobra
olho
de ogro
de crápula
de drácula
de cópula pedófila
senescente escroque
dos ínferos
antros
II
rói as
vértebras
rói as
rótulas
carpos
metacarpos
tarsos
metatarsos
falanges fíbulas
e fêmures
dos que tombam
nos escombros
enlameados
de ruas derruídas
dispersão de corvos
e mortos inumeráveis
por toda parte
por toda parte
III
nero sem lira
delira
novo rei do mundo
rei de bosta
rei do asco
rei escroto
do esgoto
espantalho de si
cadáveres escritos na pele
desfolhado
depurado
de qualquer comiseração
vampiro
não de sangue
vampiro
de óleo ópio e ódio
vampiro
de infame
fome fáustica
salteador
de terras raras
metais estratégicos
para a infinita
guerra
para a infinita
insânia
IV
eu o vejo de quatro
como um porco
volvendo-se no esterco
revérbero
luz negra
nefando nigromante
assentado em peles
ossos nervos
raivas
ditador horripilante
do caos
inumano
esconso absconso
pútrido nada
lanço ranço
arquidemo
do apocalipse
abisma-te
em tua própria
sombra
híbrido locusta
escarabídeo
abisma-te
em teu próprio
ego cego
abisma-te
em teu próprio
nada
2026
EGON DIAC
Dedicado a Benjamin Netanyahu
I
Rávana-Moloch de mil cabeças.
Olhos-jaguar.
Olhos-hiena.
Olhos-pesadelo.
Fanático fariseu
facínora fascista.
Moleque-Moloch de um deus misógino:
Yaveh sem Asherat.
Você faz do mundo
um antro miserável.
Olhos-fúria.
Olhos-terror.
Olhos-ataxia.
Ele comanda os barões infernais:
banqueiros
industriais
mídia.
e a dispersão dos corvos
sobre cadáveres.
II
Amarume-aracnoide
askenazi asqueroso
arrasa-arruína
cidades
aldeias
vilas;
massacra homens, cabras
mulheres
ovelhas
oliveiras
qualquer coisa viva
(assim como Josué
há dois mil anos
ou Átila, o huno
há mil e quinhentos anos).
Gêngis Khan polonês
que se imagina
semita
de uma Terra
Prometida por Lúcifer
a seu séquito
de satanazis.
Em Hebron, Jerusalém
Ramallah, Jericó
o opaco polaco
obriga moradores
a demolirem
suas próprias casas:
com martelos
machados
picaretas
qualquer outra ferramenta
até as mãos
nuas.
III
Por sua ordem
animais são queimados
vivos.
Por sua ordem
pastos são devastados
por botas de borracha
das tropas de elite.
O que escapa
a sua sanha
assassina
marquês dos círculos infernais?
Infenso infausto
inflige intermitente
ódio.
IV
Comanda morteiros
mutilados
temerosos
temerários
ruminantes
ressoantes
com a estrela
de David
(a nova suástica).
Oh tu, Supremo Açougueiro
cujos lábios arroxeados
arrulham
na sanha da matança!
Ventríloquo dos inenarráveis horrores!
Uma coisa, porém, nos anima:
tua boca torta
tua cara rota
tua mente escrota
um dia serão pó.
E nós dançaremos, sim
dançaremos
em tuas cinzas
na Palestina Livre
do rio até o mar!
2026
URRO DENTRO DO URRO
(Poema para os meus 60 anos)
Corpo pesado de pensamentos
que já pertencem
a outra órbita;
e de uma estrela a outra esfera
do lobo noturno
ao leopardo:
labirintos de ilhas
olhos, farripas
salamandras
unhas tortas.
Sombra, esta sombra,
aquela, do outro que fui
e não fui, que sonhei
e não sonhei; sombra
que anda à reboque
de livros, memórias
paisagens, estátuas
de budas e boddhisattvas;
sombra à margem
dos retratos
da noite íntima ao escuro
inumerável, rusgas
de aranhas invisíveis.
Este coração que por si mesmo
declarou-se Lênin
acelerado ao infinito
além do infinito.
Esta mente que por si mesma
declarou-se poesia
e lutas com armas japonesas.
Sim, há um cinema mental
onde há templos, jardins
e trilhas de mata verde-escura
cachoeiras, rios e um inesperado
voo de asas amarelas.
Há uma mulher que eu amo
mulher una e múltipla
sempre comigo e dentro de mim
imaginada por mim.
Há os instrumentos de sono
e esquecimento; e um urro
dentro de um urro, garra
dentro de garra, que me faz
sentir-me vivo a cada minuto
antes de minha inevitável morte.
2023
RADOVAN IVSIC
O amor é uma língua estrangeira.
Foi assim que disseram
os poetas.
Língua-
metamorfose:
seios são flores
que cantam;
coxas são peixes
azul-prateados;
vulva é o espaço
entre as estrelas.
As cores me reinventam
ao contrário.
Dos calcanhares
aos dedos
dos dedos
às unhas de terra.
é sempre a mesma
obsessão.
Minha mulher-peixe-pássaro!
Apenas ela reinventa
os vulcões.
Pousa a montanha
em meus lábios
e diz: marche!
Ela é um mar de cor indefinida
e por isso mesmo
caminha sobre as nuvens.
Mas nada disso é real:
só existe a pele sobre a pele;
só existe as minhas mãos
em teus cabelos;
só existe o instante único
em que o infinito vai além do infinito.
2026
ALGUMA LÍRICA
I
lâmina
esta agora que
tem mil olhos
como a serpente
no espelho
II
a noite
nasce
em teu
umbigo
uma lua
em cada
mamilo
lua cheia
lua nova
lobas uivando
no triângulo
invertido
olho de gato
observa
no espelho
o reflexo
de um sorriso
III
Tudo
é pedra,
menos
a nossa
brevíssima
existência;
lábios
de mulher
nua,
pele
que se
espraia
no linho
de lençol,
instante
mais vivo
do que
a sua
efemiradade,
do que
a carne
rugosa
do tempo.
2024 / 2025