Claudio Daniel: Sete poemas de Mário de Andrade

É na poesia do escritor modernista que temos suas produções mais inovadoras, do ponto de vista estético – ao lado do romance-rapsódia Macunaíma

Mário de Andrade (1893-1945) foi um dos mais originais escritores do modernismo brasileiro: poeta, romancista, crítico literário, musicólogo, folclorista, deixou extensa obra em todos esses gêneros literários, mas é na poesia que temos as suas produções mais inovadoras, do ponto de vista estético – ao lado do romance-rapsódia Macunaíma. Mário de Andrade assimilou influências de Walt Whitman, do futurismo italiano, das vanguardas francesas da década de 1920, mas sua poesia alimentou-se sobretudo da linguagem coloquial, dos regionalismos, do folclore do imaginário popular, dos mitos indígenas e africanos, e ainda dos temas sociais e políticos. Sua dicção, personalíssima, é, ao lado da poesia pau-brasil de Oswald de Andrade, o ponto de partida de quase toda a poesia brasileira e contemporânea.  

*

PAISAGEM n. 1

Minha Londres das neblinas finas!

Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.

Há neve de perfumes no ar.

Faz frio, muito frio…

E a ironia das pernas das costureirinhas

parecidas com bailarinas…

O vento é como uma navalha

nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…

Há duas horas queimou Sol.

Daqui a duas horas queima Sol.

*

Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,

um tralálá… A guarda-cívica! Prisão!

Necessidade a prisão

para que haja civilização?

Meu coração sente-se muito triste…

Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas

dialoga um lamento com o vento …

*

Meu coração sente-se muito alegre!

Este friozinho arrebitado

dá uma vontade de sorrir!

*

E sigo. E vou sentindo,

à inquieta alacridade da invernia,

como um gosto de lágrimas na boca.

*

GAROA DO MEU SÃO PAULO

Garoa do meu São Paulo,

–Timbre triste de martírios–

Um negro vem vindo, é branco!

Só bem perto fica negro,

Passa e torna a ficar branco.

*

Meu São Paulo da garoa,

–Londres das neblinas finas–

Um pobre vem vindo, é rico!

Só bem perto fica pobre,

Passa e torna a ficar rico.

*

Garoa do meu São Paulo,

–Costureira de malditos–

Vem um rico, vem um branco,

São sempre brancos e ricos…

*

Garoa, sai dos meus olhos.

*

EU SOU TREZENTOS

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh! Pireneus! ôh caiçaras!

si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

*

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos taxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

*

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,

mas um dia afinal eu toparei comigo…

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

*

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel

o burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

*

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos,

e gemem sangue de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os “Printemps” com as unhas!

*

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

*

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!

“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar… — Conto e quinhentos!!!

Más nós morremos de fome!”

*

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!

Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!

*

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

*

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

*

LUNDU DO ESCRITOR DIFÍCIL

Eu sou um escritor difícil

Que a muita gente enquizila,

Porém essa culpa é fácil

De se acabar duma vez:

É só tirar a cortina

Que entra luz nesta escurez.

*

Cortina de brim caipora,

Com teia caranguejeira

E enfeite ruim de caipira,

Fale fala brasileira

Que você enxerga bonito

Tanta luz nesta capoeira

Tal-e-qual numa gupiara.

*

Misturo tudo num saco,

Mas gaúcho maranhense

Que pára no Mato Grosso,

Bate este angu de caroço

Ver sopa de caruru;

A vida é mesmo um buraco,

Bobo é quem não é tatu!

*

Eu sou um escritor difícil,

Porém culpa de quem é!…

Todo difícil é fácil,

Abasta a gente saber.

Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”

De tão fácil virou fóssil,

O difícil é aprender!

*

Virtude de urubutinga

De enxergar tudo de longe!

Não carece vestir tanga

Pra penetrar meu caçanje!

Você sabe o francês “singe”

Mas não sabe o que é guariba?

— Pois é macaco, seu mano,

Que só sabe o que é da estranja.

*

MANHÃ

O jardim estava em rosa ao pé do Sol

E o ventinho de mato que viera do Jaraguá,

Deixando por tudo uma presença de água,

Banzava gozado na manhã praceana.

*

 Tudo limpo que nem toada de flauta.

A gente si quisesse beijava o chão sem formiga,

A boca roçava mesmo na paisagem de cristal.

Um silêncio nortista, muito claro!

As sombras se agarravam no folhedo das árvores

Talqualmente preguiças pesadas.

O Sol sentava nos bancos tomando banho-de-luz.

*

Tinha um sossego tão antigo no jardim,

Uma fresca tão de mão lavada com limão,

Era tão marupiara e descansante

Que desejei… Mulher não desejei não, desejei…

Si eu tivesse a meu lado ali passeando

Suponhamos Lenine, Carlos Prestes, Gandhi, um desses!…

*

Na doçura da manhã quasi acabada

Eu lhes falava cordealmente: — Se abanquem um bocadinho.

E havia de contar pra eles os nomes dos nossos peixes.

Ou descrevia Ouro Preto, a entrada de Vitoria, Marajó,

Coisa assim, que pusesse um disfarce de festa

No pensamento dessas tempestades de homens.

*

QUANDO MORRER EU QUERO FICAR

Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.

*

Meus pés enterrem na rua Aurora,

No Paissandu deixem meu sexo,

Na Lopes Chaves a cabeça

Esqueçam.

*

No Pátio do Colégio afundem

O meu coração paulistano:

Um coração vivo e um defunto

Bem juntos.

*

Escondam no Correio o ouvido

Direito, o esquerdo nos Telégrafos,

Quero saber da vida alheia,

Sereia.

*

O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga

Para cantar a liberdade.

Saudade…

*

Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade…

*

As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro Diabo,

Que o espírito será de Deus.

Adeus.

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