15 de Agosto de 2017 - 10h53

Como os EUA “garantem a segurança” da Europa

Manlio Dinucci *

No ano fiscal de 2018 (que começa em 1° de outubro) a administração Trump aumentará em 40% a verba para a “Iniciativa de Segurança da Europa”, lançada pela administração Obama depois da “ilegal invasão russa da Ucrânia em 2014”. Quem anuncia é o general Curtis Scaparrotti, chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos e, por direito, comandante supremo aliado na Europa.


Começado com 985 milhões de dólares em 2015, o financiamento da Iniciativa chegou a 3,4 bilhões em 2017 e atingirá (segundo demanda do orçamento) 4,8 bilhões em 2018. Em quatro anos, 10 bilhões de dólares gastos pelos Estados Unidos a fim de “aumentar a nossa capacidade de defender a Europa contra a agressão russa”.

Quase a metade da despesa de 2018 – 2,2 bilhões de dólares – serve para potencializar o “pré-posicionamento estratégico” dos EUA na Europa, ou seja, os depósitos de armamentos que, colocados em posição avançada, permitam “o rápido deslocamento de forças para o teatro bélico”. Outra grande cota – 1,7 bilhão de dólares – é destinada a “aumentar a presença, com base na rotatividade, de forças estadunidenses em toda a Europa”.

As cotas restantes, cada uma da ordem de centenas de milhões de dólares, servem ao desenvolvimento da infraestrutura das bases na Europa para “aumentar a prontidão das ações dos EUA”, para potencializar os exercícios militares e o treinamento a fim de “aumentar a prontidão e a interoperabilidade da força da Otan”.

Os fundos da Iniciativa – precisa o Comando Europeu dos Estados Unidos – são apenas uma parte dos destinados à “Operação Atlantic Resolve, que demonstra a capacidade dos EUA de responder às ameaças contra os aliados”.

No quadro de tais operações, foi transferida à Polônia desde o Fort Carson (Colorado), em janeiro passado, a 3a Brigada blindada, composta por 3.500 homens, 87 tanques, 18 morteiros, 144 veículos de combate Bradley, mais de 400 veículos de alta mobilidade (Humvees) e 2.000 veículos de transporte. A 3a Brigada blindada será substituída dentro de um ano por outra unidade, assim que as forças blindadas estadunidenses são permanentemente deslocadas para o território polonês. De lá, seus destacamentos são transferidos, para treinamento e exercícios, a outros países do Leste, sobretudo Estônia, Letônia, Lituânia, Bulgária, Romênia e provavelmente também Ucrânia, ou seja, são continuamente deslocados para o entorno da Rússia.

Sempre no quadro de tais operações, foi transferida para a base de llesheim (Alemanha) desde o Fort Drum (Nova York), em fevereiro passado, a 10ª Brigada aérea, com mais de 2.000 homens e centenas de helicópteros de guerra. Desde llesheim, sua força tarefa é enviada “a posições avançadas” à Polônia, Romênia e Letônia.

Para as bases de Ämari (Estônia) e Graf Ignatievo (Bulgária), foram deslocados caças-bombardeiros dos EUA e da Otan, incluídos aviões de caça Eurofighter italianos, para “o patrulhamento aéreo” do Báltico. A operação prevê também “uma persistente presença no Mar Negro”, com a base aérea de Kogalniceanu (Romênia) e a base para treinamentos de Novo Selo (Bulgária).

O plano é claro. Depois de ter provocado com o golpe da Praça Maidan um novo confronto com a Rússia, Washington (não obstante a mudança de administração) persegue a mesma estratégia: transformar a Europa na primeira linha de uma nova guerra fria, em benefício dos interesses dos Estados Unidos e das suas relações de força com as maiores potências europeias. Os 10 bilhões de dólares investidos pelos EUA para “garantir a segurança” da Europa, servem na realidade para tornar a Europa ainda mais insegura.

Tradução: José Reinaldo Carvalho

* Jornalista, geógrafo e cientista político. Escreve regularmente no jornal italiano Il Manifesto

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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