Mar Becker: Perséfone
Marceli Andresa Becker, conhecida como Mar Becker é poeta, graduada em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo e contribui nesta semana com a sessão Letras Vermelhas do caderno cultural Prosa, Poesia e Arte.
Publicado 20/03/2015 15:40

A plaquete de poesia Perséfone foi publicada pela coleção Poesia Viva, do Centro Cultural são Paulo, mas Mar Becker também já divulgou seu trabalho em diversos jornais, sites e revistas eletrônicas de poesia, entre eles o Suplemento Literário de Minas Gerais, Germina, Cronópios, Mallarmargens e Zunái. As poesias podem ser encontradas no blog De ter de onde se ir.
Veja poesias de Mar Becker:
Perséfone
I
penso na mulher que é inacessível como uma estrela de sal. um cálice, uma chaga em backing vocals no cair das horas. penso na mulher que pensa na palavra
e a palavra se faz aos poucos nas bocas das demais mulheres. com a matéria das flores sonâmbulas e do marfim.
II
sonho ou assédio
lunar,
meninas que se desgarram de si mesmas,
meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.
*
meninas que não falam, magras,
inacessíveis,
tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.
nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,
e das meninas às bonecas,
num processo difícil de perpetuação
da fome.
[sem título]
as meninas tristes se escoram nos parapeitos das janelas
e dormem
os moradores da cidade pensam que elas são coisas com as quais as próprias janelas sonham
e que sonhar é um tipo de transbordamento
de cabelos
O livro dos acontecimentos misteriosos
I
ninguém fala abertamente
mas aqui onde eu moro as meninas nascem com útero em forma de desentupidor de pia
o cabo é a coluna, antikundalini
a embocadura é o corpo todo do oco
do útero
*
à noite, o diabo aparece
e pressiona
e puxa
como se pudesse desentupi-las de si mesmas. isto se deve a algo inexplicável:
a familiaridade do diabo para com todas as coisas peludas
*
no movimento, elas se deixam sugar
por elas, narcísicas
rindo. roxas, como se estivessem possuídas
S/A
meninos à base d'água. à noite, restos, no rio de suas nomenclaturas. letras que se batem, línguas. (se um peixe sonhasse branco.) palíndromos da falha genital de silvia saint. enigmas free porn. cuida, não corrigem — minha ou tua: língua. apaga-te. meninos batendo boca / lata / punheta, à sombra,
em lugares que se fecham, olhos. como um sonho
que reflete um outro
sonho: líquido, lácteo.
*
às vezes você imagina que está no banheiro da escola de sua infância. na porta, tudo é letra
em líquido corretivo. (a palavra "puta" e o telefone de não se sabe quem.)
O livro das aberrações
II
metade corvo. metade antibailarina. salomé dodecafônica, sísmico-siamesa. gêmea de si. uma flor de cianureto na garganta. a cabeça de györgy ligeti na bandeja que equilibra
com a mão, cuidadosamente
está nua. uma tempestade de moscas e areia, isto que compõe a linguagem dos homens do século 20
(a ciência, os mercados negros, a memória dos tribais
nas peles
de ninguém, os crucifixos
andróginos, as justificativas para a queda da bolsa, a deposição dos dons, os amores, os métodos rebuscadíssimos de tempo
e tortura)
tudo envolve seu corpo, como um manto de vapor. chamam-na: súplica. santa do assovio careca
Do Portal Vermelho