Cultura

12 de fevereiro de 2017 - 8h37

Alberto Villas: Oh! Minas Gerais


   
Sei que deveria ir mais a Minas Gerais do que vou, umas duas, trs vezes ao ano. Pra rever meus parentes, meus amigos, pra no perder o sotaque.

Sotaque que, acho eu, fui perdendo ao longo dos anos, desde aquele 1973, quando abandonei Belo Horizonte pra ir morar a mais de dez mil quilmetros de l.

Senti isso quando, outro dia, pousei no aeroporto de Uberlndia e fui direto na lanchonete comer um po de queijo que, fora de brincadeira, mesmo o mais gostoso do mundo.

- C qu qui eu isquento um tiquinho proc?

Foi assim que a mocinha me recebeu, quase de braos abertos, como se fosse uma amiga ntima de longo tempo.

Sei no, mas eu acho que o sotaque mineiro aumentou – e muito – desde que parti. Quando peguei o primeiro avio com destino felicidade, todos chamavam o centro de Belo Horizonte de cidade. O trlebus subia a Rua da Bahia, as pessoas tomavam Guarapan, andavam de Opala, ouviam Fagner cantando Manera Fru Fru, Manera, chamavam acidente de trombada e a polcia de Radio Patrulha.

Como pode, meu filho mais velho, que nasceu to longe de Beag e que hoje mora l, me ligar e perguntar:

- E ai pai, tudo jia, tudo massa?

A reprter Helena de Grammont, quando ainda trabalhava no Show da Vida, voltou encantada de l e veio logo me perguntar se o sotaque mineiro era mesmo assim ou se estavam brincando com ela. Helena estava no carro da Globo procurando um endereo perto de Belo Horizonte, quando perguntou para um guarda de trnsito se ele poderia ajud-la. A resposta veio de imediato.

- C sgui essa istrada toda vida e quando acab o piche, c quebra pra l e continua siguino toda vida!

J virou folclore esse negcio de mineiro engolir parte das palavras. Debaixo da cama badacama, conforme for confrf, quilo de carne kidicarne, muito magro magrilin, atrs da porta trdaporta, ponto de nibus pndions, litro de leite lidileiti, massa de tomate mastumati e tira isso da tirisda.

Isso verdade. Um garoto que mora em So Paulo foi a Minas Gerais e voltou com essa: L deve ser muito mais fcil aprender o portugus porque as palavras so muito mais curtas.

Mineiro quando para num sinal de trnsito, se est vermelho, ele pensa: Pra. Se pisca o amarelo: Presteno. Quando vem o verde: Podi.

Mas no s esse sotaque delicioso que o mineiro carrega dentro dele. Carrega tambm um jeitinho de ser.

A Gabi, amiga nossa, mineira que mora em So Paulo h anos, toda vez que vem aqui em casa, chega com um balaio de casos de Minas Gerais.

Da ltima vez que foi a Minas, ela viu na mesa de caf da tia Teresa, uma capinha de croch cobrindo a embalagem do adoante. Achou aquilo uma graa e comentou com a tia prendada. Pra qu? Tem dias que Teresa no dorme, preocupada querendo saber qual a marca do adoante que a Gabi usa, pra ela fazer uma capinha igual, j que ela gostou tanto. Chega a ligar interurbano pra So Paulo:

- Num isquci de mi fal a marca do seu adoante no, preu faz a capinha de crocr proc...

Coisa de mineiro.

Bastou ela contar essa historia que a Catia, outra amiga mineira – e praticante – que estava aqui em casa tambm, contar a historia de um doce de banana divino que comeu na casa da me, dona Ita, a ltima vez que foi l. Depois de todos elogiarem aquele doce que merecia ser comido de joelhos, ela revelou o segredo:

- Cs criditam que eu vi um cacho de banana madurin, bonzin ainda, no lixo do vizinho, e pensei: Genti, num podmo dispidi no!

Mais de quarenta anos depois de ter deixado minha terra querida, o jeito mineiro de ser me encanta e cada vez mais.

Quer saber o que ser mineiro? No final dos anos 80, quando o meu primeiro casamento se acabou, minha me, que era uma mineira cem por cento, queria saber se eu j “tinha outra”, como se diz l em Minas Gerais. Um dia, cedo ainda, ela me telefonou e, ao invs de perguntar assim, na lata, se eu j tinha um novo amor, usou seu modo bem mineiro de ser:

- Eu tava pensno em compr um jogo de cama proc, mas t aqui sem sab. Sua cama nova di casal ou di soltero?



 Albero Villas escritor e jornalista

Fonte: CartaCapital

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