Ricardo Oliveira da Silva- Um estudante de ouro

Um garoto está surpreendendo e emocionando o País. Ricardo Oliveira da Silva, estudante da escola pública, já acumula sete medalhas de Olimpíadas. Ricardo é portador de uma doença neurológica.

A cidade está cheia de faixas parabenizando o campeão, aliás o bicampeão. Por isso, todos sabem o caminho da casa de Ricardo Oliveira da Silva: ''É aquele garoto que ganhou as Olimpíadas e foi homenageado pelo Lula? Pois ele mora no Sítio Vacaria que fica no Ibicatu. É só seguir a indicação da placa na BR-230 como que vai pro Crato''. Ensinar é fácil, difícil é chegar na casa do menino prodígio, medalha de ouro, dois anos seguidos, nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Pública e também ouro nas Olimpíadas Brasileiras de Astronomia e Astrologia.


 


Uma estradinha estreita, cheia de barrancos, muito ruim para o tráfego. Imagine para a condução de um adolescente de 19 anos, que sofre de atrofia muscular espinhal, uma doença neurológica que mal lhe permite mexer os braços. É um transtorno quando chove e o garoto tem de ir à escola. Ele não tem qualquer movimento nas pernas e, para não perder as provas, seu pai, o agricultor Joaquim Oliveira da Silva, já chegou até a levá-lo num carrinho de mão. Mas, ao contrário do que se pensa, Ricardo é alegre, não reclama de sua deficiência física e nem da condição humilde que vive com o irmão e os pais na zona rural de Várzea Alegre, município a 466 quilômetros de Fortaleza.


 


Alfabetizado pela mãe, Francisca Antônia da Conceição, 45, Ricardo só tem assistência de professores há três anos. Foi matriculado na antiga quinta série do Ensino Fundamental e atualmente está no oitavo ano (antes sétima série) na Escola Municipal Joaquim Alves de Oliveira. Logo na primeira participação em Olimpíadas, a Estadual, ganhou medalha e já acumula sete, entre ouro e prata. Todas estão arrumadinhas, bem expostas no pequeno quarto de dormir que ele divide com o irmão Ronildo. Ao lado, os diplomas das premiações.


 


Com as muitas necessidades que um filho de agricultor tem, Ricardo surpreende a todos quando lhe perguntam o que ele mais precisa no momento: ''Não preciso de nada. Mas se querem me dar um presente, tragam um livro''. O garoto nem pensa num ambiente melhor e mais confortável para estudar. Para ele, está ótimo ficar debruçado no cimento da sala, rodeado de livros e apostilas de estudos.


 


É nessas condições que ele recebe os professores que o orientam nas disciplinas. ''Ele não pode ficar em sala de aula. É cansativo, por isso enviamos os professores para a sua casa. Ricardo só vai fazer as provas'', diz a diretora da escola Erileuza Gomes Jerônimo. A distância da casa de Ricardo até a escola é de um quilômetro e 100 metros.


 


 


Livros


O campeão vem surpreendendo e alegrando cada vez mais os pais e professores. Com os poucos livros que tem e o material didático enviados pelos professores de Iniciação Científica e da Coordenação Regional das Olimpíadas, ele faz cálculos surpreendentes. A mãe só lhe ensinou as operações básicas: somar, dividir, multiplicar e diminuir. Os primeiros livros foram do irmão Ronildo, 15, que atualmente cursa o primeiro ano do Ensino Médio e também já recebeu medalhas de bronze, prata e ouro em Olimpíadas.


 


Como prêmios de vencedor, Ricardo ganhou, há três meses, um computador e, no mês passado, um notebook. Ainda não tem Internet em casa. Aprendeu sozinho a mexer com informática. ''Acho que com a Internet vai ser mais fácil estudar e se comunicar com os professores'', diz. No Sítio Vacaria, é uma casa aqui, outra acolá. Ricardo tem poucas oportunidade de sair porque depende do pai que passa o dia no roçado. É difícil até o contato por telefone celular. O sinal de telefonia é falho. Mas para o adolescente, nada disso é empecilho para o seu grande sonho: tornar-se um matemático. E quem duvida?


 



Uma guerreira ao lado do filho


Vinte e quatro horas dedicadas aos filhos. Dona Francisca Antônia da Conceição não se cansa. ''Meu filho, está bom nessa posição? Quer ir para outro local?'', pergunta para Ricardo. Entre uma conversa e outra com as visitas, ela vai pra cozinha preparar um mingau para Ronildo e justifica: ''Ele está muito gripado. Há uma semana não vai pra escola e não quer comer nada, esse menino''. Menino que já tem 15 anos.


 


O telefone toca e dona Francisca vai procurar uma posição, em torno da casa, que o sinal seja melhor: ''É pra você, Ricardo. Estão querendo que você vá no gabinete do governador, meu filho, mas eu disse que só seu pai é quem resolve. Eles vão ligar depois''. Essa mulher de 45 anos, não pára. E nem pode. ''Depois que meu filho começou a ganhar as olimpíadas, é repórter, é autoridade, todos querendo falar com ele'', diz orgulhosa. ''Aquela menina do Fantástico (TV Globo) vem fazer a segunda reportagem com ele''. Ricardo sorri ao seu lado.


 


Mas, enquanto o bicampeão das Olimpíadas Brasileiras de Matemática está ocupado na sessão de fotografias, ela começa a lembrar da difícil batalha que enfrentou quando ele era um bebê. ''Não sabíamos o que ele tinha. Consultamos vários médicos e, por orientação de um deles, fomos para São Paulo tentar a cura, mesmo sem nenhum recurso. Foram 19 dias de internação no Hospital das Clínicas. Pra tomar banho, tinha de ser escondido dos médicos, porque era proibido. Mas não deixei meu filho nem um segundo sozinho''.


 


As lembranças de uma batalha sem sucesso contra a doença do filho, fazem dona Francisca chorar. Ela disse que quando recebeu o laudo comprovando a atrofia muscular espinhal ainda tentou alguns anos de fisioterapia. ''Foi quando ele pediu: 'mãe, eu não quero mais. Deixe como está' e eu aceitei a vontade do meu filho. Hoje me orgulho tanto dele. Aliás dos dois maravilhosos garotos que Deus me deu. Sou feliz, muito feliz!''. Ela enxuga as lágrimas e dá um sorriso.


 


 


Saiba mais sobre atrofia muscular espinhal



– A atrofia muscular espinhal (AME) é uma doença de caráter familiar que se apresenta na infância, causada por uma alteração no cromossomo 5. Leva à fraqueza de braços e pernas e a dificuldades para se alimentar e respirar. Entretanto, as crianças afetadas são inteligentes, enxergam e escutam normalmente.


 


– Na AME, pai e mãe são portadores da doença, mas não apresentam sintomas. Assim, o casal tem um risco de 25%, a cada gravidez, de gerar um filho afetado. A atrofia muscular espinhal é classificada em três tipos, conforme a idade de surgimento do quadro clínico: tipo I – antes de seis meses; tipo II – entre seis meses e dois anos; tipo III – após dois anos.


 


– No tipo I, o bebê é ''mole'' e não adquire a capacidade de se sentar sozinho; no tipo II, a criança consegue se sentar, mas tem dificuldades para manter-se em pé; no tipo III, a criança, que já ficava em pé, passa a ter dificuldade para caminhar. Na forma mais grave da AME (tipo I), o paciente passa a necessitar do auxílio de aparelhos para respirar, e a apresentar engasgos freqüentes, fazendo com que utilize sonda para alimentação.


 


– O diagnóstico é feito, além do quadro clínico, através do exame de DNA específico para a doença. Nestes pacientes, os exames de eletroneuromiografia e de biópsia muscular devem também ser realizados nos pacientes com DNA positivo, para complementação do diagnóstico. Após isto, é feito o aconselhamento genético dos pais.


 


– Embora até o momento não haja cura, os tratamentos permitem melhor qualidade de vida e um aumento significativo da sobrevida das crianças. Assim, um suporte clínico e emocional, envolvendo a dedicação dos profissionais de saúde e da família, é importante. Um menor tempo de hospitalização e a manutenção dessas crianças em casa com a família e utilizando modernos equipamentos e medicamentos tem constituído um novo paradigma no tratamento da doença.


 


– A Associação Brasileira de Amiotrofia Espinhal (Abrame) foi criada a partir do interesse de um grupo de pais e portadores com o objetivo de divulgar a patologia e melhorar a qualidade de vida dos afetados.


 


– Uma em cada 50 pessoas é portadora e uma em cada 10 mil nascidas é afetada. A Abrame iniciou as atividades em 2001 para esclarecer a população e aos profissionais de saúde sobre o que é a amiotrofia muscular espinhal.


 


– Amiotrofia espinhal pode ser chamada de atrofia espinhal, amiotrofia espinhal progressiva ou atrofia muscular espinhal (AME). Pais e portadores devem evitar tratamentos e medicamentos sem orientação médica.


 


– Mais informações pelo e-mail: presidenciaabrame@atrofiaespinhal.org


 


 


Fonte: O POVO