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10 anos do golpe na Venezuela: cada 11 tem seu 13

Nesta quarta-feira (11), a Venezuela lembra o aniversário do Golpe de Estado realizado em 2002 contra o então e atual presidente da República, Hugo Chávez Frías, que foi restituído ao cargo 48 horas após a sublevação, graças a uma massiva mobilização popular, pressão dos presidentes latino-americanos e fidelidade de parte das Forças Armadas à ordem constitucional.

Por Vanessa Silva

Em 11 de abril de 2002, foi realizada uma passeata convocada pela oposição, com ampla divulgação nas rádios, TVs e jornais do país. Os veículos falava em “batalha final” para a retirada de Chávez.

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No mesmo dia, após 48 horas de paralisação geral, a Central de Trabalhadores da Venezuela (CTV), historicamente nas mãos de um dos partidos políticos conservadores que governou o país por 40 anos, a Ação Democrática (AD), e a Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras), maior entidade empresarial do país, convocaram uma greve geral por tempo indeterminado.

A cobertura daqueles acontecimentos pela mídia venezuelana foi, no mínimo, controversa. A imprensa, sobretudo os canais de televisão, manipulou imagens e fatos de forma a parecer que defensores de Chávez estavam matando civis nas ruas. Cerca de 19 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas não pelos bolivarianos chavistas, como dizia essa mídia, mas por franco-atiradores com armamento pesado.

Sobre a questão, o documentário “A revolução não será televisionada” é elucidativo e mostra como se deu a manipulação de informação.

O golpe

Na madrugada do dia 12 o Alto Comando Militar anunciou que foi solicitado a Chávez que renunciasse e este teria aceitado. Tempo depois, ele confirmou que nunca renunciou e nunca foram mostrados os documentos que provariam sua demissão.

A direita conservadora da Venezuela tentou repetir um golpe semelhante ao que foi aplicado contra o governo de Salvador Allende, no Chile em 1973. Mas a situação era outra, como reitera Fidel Castro, em entrevista ao jornalista francês Ignacio Ramonet, que ligou para Chávez assim que soube do golpe em curso: “estava consciente da profunda diferença que existia entre a situação de Allende, em 11 de Setembro de 1973, e a de Chávez, nesse dia 12 de abril de 2002. Allende não tinha um único soldado. Chávez podia contar com uma grande parte dos soldados e dos oficiais da armada, principalmente os mais jovens”.

O comandante da Revolução Cubana reitera que ante o golpe, “Chávez tinha três soluções: refugiar-se dentro do Miraflores e resistir até a morte [tal qual Allende]; sair do palácio e tentar reunir-se com o povo para desencadear uma resistência nacional, com possibilidades de sucesso ínfimas naquelas circunstâncias; ou abandonar o país sem renunciar nem se demitir com o intuito de retomar à luta com perspectivas de sucesso reais e rápidas. Nós sugerimos-lhe a terceira”.

“As minhas últimas palavras desta conversa telefônica, para o convencer, foram essencialmente estas: ‘Salva esses homens corajosos que estão contigo nessa batalha inútil, neste momento’. A minha ideia era que um dirigente tão popular e carismático como Chávez, deposto por traição nestas circunstâncias, se não fosse morto, seria reclamado pelo povo, estava convencido disso – nesse caso, com o apoio considerável das forças armadas – e o seu retorno seria inevitável. Eis a razão pela qual eu tomei a responsabilidade de lhe propor o que propus”.

Chávez aceitou a última alternativa, mas com condições: “respeito à integridade das pessoas, respeito à Constituição, poder dirigir-se ao país pela televisão e rumar para o exílio com um grupo determinado de auxiliares”. Após negociações, o presidente reafirmou que não renunciaria, tampouco assinaria qualquer documento previamente redigido. Assim, foi preso pelos golpistas.

Segundo Fidel Castro, “não foi senão depois de ter conhecido todos os detalhes do calvário de Hugo Chávez, desde que ele fora transferido para destino desconhecido na noite de 11 de abril, que pude constatar quantos perigos inacreditáveis ele correu, e teve de combater com toda a sua acuidade mental, a sua serenidade, o seu sangue-frio e o seu instinto revolucionário. O mais inacreditável é que os golpistas o tenham mantido desinformado, até ao último momento, sobre o que se passava no país e que tenham insistido até ao fim para que ele assinasse uma demissão que ele nunca assinou”.

A resistência

Enquanto aumentavam os protestos no país, quatorze presidentes latino-americanos, reunidos na 16ª Cúpula do Grupo do Rio, condenaram a interrupção da ordem constitucional e exigiram a normalização da institucionalidade democrática.

Vale mencionar que mesmo dentro das Forças Armadas havia grupos que resistiram. Enquanto ainda detido em Turiamo, um cabo perguntou se era verdade que ele tinha renunciado, ao que Chávez respondeu prontamente: “não, filho, não renunciei e nem vou renunciar”. O soldado então afirmou “Então você é meu presidente. Mas isso o povo tem de saber, pois andam dizendo por toda parte que você renunciou e saiu do país”.

Combinaram então que Chávez escreveria um recado e depois jogaria o papel no lixo. O comandante então escreveu:

“Eu, Hugo Chávez Frías, venezuelano, Presidente da República Bolivariana da Venezuela, declaro:
Não renunciei ao poder legítimo que o povo venezuelano me deu. Para sempre!!”
A mensagem percorreu todo o país e foi o estopim da resistência que começou a se formar no país.

Os acontecimentos seguiam com intensidade e na noite do dia 12 e madrugada do dia 13, partidários de Chávez tomaram o canal “Venezolana de Televisión”. Além disso, um grupo crescente de militares contrários ao golpe reconquistam posições e às 9 da manhã organizaram a retomada de Miraflores.

Enquanto isso, uma multidão exigia a volta do mandatário deposto. Pedro Carmona, que se auto-proclamou presidente da República, fechou o Congresso, destituiu os responsáveis pelo poder Judiciário e anulou a Constituição, não quis esperar para ver o que aconteceria e junto com seus apoiadores, deixou a sede do governo. Os únicos países que apoiaram explicitamente os golpistas foram os Estados Unidos, a Espanha e o Peru.

A vitória

Na tarde do dia 13, o Palácio de Miraflores foi abandonado pelos golpistas. O vice-presidente, Diosdado Cabello presidente do Congresso assume como presidente provisório, como determina a Constituição. Na madrugada do dia 14, um comando legalista libera Chávez e o transfere a Caracas.

Na avenida Urdaneta, em frente ao palácio, mais de 500 mil pessoas foram assistir à chegada do Comandante. “Quando a comitiva de quatro helicópteros trazendo Chávez sobrevoou a avenida, os gritos de “volvió, volvió” foram tão intensos que não se ouvia o barulho dos motores”, como relatou ao jornalista Gilberto Maringoni o ativista Henry Nava: “os gritos se transformaram na animada salsa Volvió, volvió, Chávez soy yo”.

O retorno

Cabello devolve o mandato a Chávez, e em discurso, o presidente garante que “o que ocorreu na Venezuela é, na verdade, inédito no mundo” e considera que “o povo venezuelano e seus verdadeiros soldados escreveram uma nova página para a história da América Latina”.

“Quero fazer um chamado e isso é talvez o mais importante que quero dizer… o primeiro e mais importante que digo a todos os venezuelanos é que voltem a suas casas, que voltem à calma”, afirmou Chávez que fez enfatizou o pedido de tranquilidade, calma e paz. Um chamado à reconciliação nacional que nunca teve eco na burguesia local, que pouco depois acompanharia a brutal greve patronal da empresa petroleira PDVSA, e no principal inimigo da “Revolução Bolivariana”, os Estados Unidos, que por meio de diferentes instituições seguem financiando a oposição de direita venezuelana.

Há anos, cunhou-se na Venezuela a expressão “Cada 11 tem seu 13”. Foi este conjunto de fatores — a mobilização popular, a fidelidade de parte das Forças Armadas e a pressão internacional, mas especialmente o primeiro deles — o que inverteu a balança a favor do fracasso golpista e decretou a vitória do 13 sobre o 11 de abril.